De Volta

 

Um ano na estrada com Lucas Silveira

Entrevista Steven Allain Fotos Arquivo Pessoal

 

Lucas Silveira é um cara que não segue a trilha traçada. Quando moleque, fez de tudo para evoluir em ondas grandes e tubulares — focava mais nos cilindros do que nos aéreos. Enquanto a maioria dos prós solta um clip aqui e alí, Lucas espera os registros de um ano todo na estrada para fazer um filme de surf, propriamente dito. E o resultado é ainda melhor quando quem edita é o talentoso Loïc Wirth*. “De Volta”, logicamente, só podia ser de cair o queixo. Conversamos com Lucas logo após a première do filme em Floripa — num papo sobre futuro, freesurf, influencias e mais.

 
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O filme acompanha uma série de trips que você fez ano passado. Qual foi a melhor e por que? 

A trip para Nias. Foi uma missão sinistra chegar lá pra pegar esse swell. Faltava uma semana pro US Open e eu estava em Floripa, me preparando e concentrado pro evento. Vi que estava encostando um swell gigante na Indonésia, talvez o maior que já vi lá, então comecei a procurar voos. Eram 2 da tarde e às 6 eu já estava saindo de casa! Foram mais de 50 horas até chegar em Nias... foram dois dias de surf e na sequencia parti direto pra Califórnia. Confesso que as vacas e tubos de Nias 15 pés não foram o melhor treinamento pra Huntington Beach flat! Mas não tenho nenhum arrependimento, claro (risos).

 E a melhor onda? 

A ultima onda da sessão de Nias foi muito especial por causa de todo o esforço pra pega-la. O mar estava muito difícil e poucas ondas da série tinham sido surfadas. Muito poucas completadas. Eu lembro que nessa onda o Mark Healey remou e não conseguiu entrar, sobrou pra mim e eu estava no lugar certo. Foi uma das melhores ondas da minha vida!

 
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Qual foi a maior roubada? 

Esse ano tive sorte de não ter nenhuma roubada muito grande. Mas quase sempre é uma missão sinistra pra chegar nesses picos mais distantes – como Nias – e varias coisas dão errado no meio do caminho. Mas é isso que faz todo o esforço valer a pena no final (risos)!

 
 
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 Você sempre se destacou em ondas grandes e tubulares – o freesurf não te atrai? Por que competir? 

Confesso que me pergunto isso as vezes também, pois o freesurf me atrai muito! Tanto é que quase sempre que tenho tempo livre vou caçar swell ou alguma trip pra fazer. Quando estou num lugar pra competir, e não tem onda ou eu vou mal no campeonato, é a hora que mais faço essa pergunta (risos). Mas acho que o freesurf e as ondas grandes são algo que posso me dedicar quando eu estiver mais velho. Já o QS... o momento é agora. Mas o freesurf em ondas de consequência e perfeitas é o que realmente me atrai – comecei a surfar por causa disso.

 Então você prefere pegar um tubão de 10 pés em Teahupoo ou ganhar um QS

Essa é difícil (risos)! Vou considerar que é um QS 10000 e o tubo da vida, ok? No meu momento atual, prefiro ganhar um QS 10000 – pois isso significaria estar muito perto de me classificar e eu poderia pegar esse tubão no lá CT (risos)! Mas acho que minha resposta, normalmente, seria o tubão...

 
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 Quem são seus maiores ídolos, fora e dentro do surf? 

Não gosto muito de idolatrar as pessoas, mas gosto daquela fala, “meus amigos são meus ídolos”. Meus surfistas favoritos são Dane Reynolds, Yago Dora e Filipe Toledo – e inspiração, o Ricardinho dos Santos.

 Antes as marcas eram responsáveis pela produção de um filme de surf, o atleta apenas surfava – agora parece que cabe ao atleta produzir esse material. Você corre atrás das imagens de cada videomaker separado, como funciona? Qual seu envolvimento na produção do filme? 

Bom, pra mim produzir filmes e divulgar o meu surf é parte do meu trabalho. Sempre tento ter um filmmaker comigo, principalmente quando tem um investimento alto pra ir pegar um swell: temos que ter registro. É claro que é legal surfar sem se preocupar com filmagem nem nada. Mas o trabalho de um surfista profissional é competir ou produzir material. Viajei muito com o Bruno Zanin esse ano, que além de ser um dos melhores câmeras do mundo, é um grande parceiro de viagem. Esse ano a Rusty fez uma trip pra produzir um clip, mas foi só essa. Quando eles não produzem nada, eu faço minhas próprias produções. Eu sempre produzia clips de cada trip que fazia e acabava fazendo alguns por ano. Mas queria tentar algo diferente esse ano e juntar tudo em um filme só! Fazer premières e tal, algo mais impactante. Hoje em dia é difícil as pessoas pararem pra assistir um filme longo, tá tudo no um minuto do Instagram… então o filme é pra quem gosta de “perder” seu tempo pra assistir um filme inteiro. Eu sou desses, assisto muitos vídeos de surf, e gostei do resultado desse meu novo filme.

 
 
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 Sua relação com o Grilo (Leandro Dora) – quais as principais vantagens de se ter um treinador

É essencial ter um acompanhamento nas viagens e na carreira, o Grilo e o Marcelo Amaral, que cuida da minha parte física e viaja bastante comigo, são mais que apenas treinadores, viraram família e são meus mestres. É bom ter alguém que você confia olhando de fora, te dando os toques de outra perspectiva, eles podem enxergar coisas que eu não enxergo, por exemplo.

 Correr o Tour solteiro é melhor por que? 

Tem prós e contras, como tudo (risos). Solteiro você pode se preocupar só com suas coisas, e não precisa dividir suas atenções, pode focar tudo na competição ou no que tem que fazer. Mas tem alguns lugares que estando solteiro é muito mais fácil perder o foco (risos)...

 
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 O que podemos esperar do Campeão Mundial Junior em 2019? 

Muitas coisas parecidas. Se conseguir pegar um swell como alguns do ano passado, vou me puxar igual, de repente tentar vacar menos (risos). Mas de diferente, quero ir mais firme no QS esse ano – como falei antes, o momento é agora, não quero ficar competindo pra sempre. Esse ano estou disposto a abrir mão de algumas coisas, como um swell perto de um campeonato importante, para focar 100%. Não ganhei nenhum campeonato depois do Mundial Junior – tive algumas finais, semis e quartas – então ganhar um evento esse ano é um dos objetivos principais.

*Além de Bruno Zanin, Loïc Wirth também captou algumas das imagens no filme