Mais Um Filme de Surfe

 

Entrevistas por Steven Allain

 

Não tem mais volta: o espelho negro alterou nossas vidas para sempre. As mídias sociais são uma autobahn sem memória, acelerando conteúdo e informação sem olhar no retrovisor. Nossa atenção, disputada por estímulos incessantes e irresistíveis, foca em tudo – e nada – ao mesmo tempo. Um banquete onde tudo é devorado, mas pouco é propriamente saboreado.

É por isso que um filme nos moldes “antigos” – mais denso, pensado e produzido ao longo de todo um ano – é tão bem-vindo.

Mais um Filme de Surfe é isso, sem pretensão e na medida certa. Tem performance de primeira, trilha foda e uma brasilidade que dá ao filme um tempero só seu. Logo, não é à toa que a produção assinada pelo catarinense Bruno Zanin venceu os prêmios de Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora da última edição do festival MIMPI.

Conversamos com Zanin e os protagonistas logo após a última première de Mais um Filme de Surfe, que rolou em Floripa no final de semana passado.

Bruno Zanin em seu escritório

Bruno Zanin em seu escritório

Um Filme de Surfe foi, em parte, uma roubada que acabou virando filme. O que há de diferente em Mais um Filme de Surfe?

Mais um Filme de Surfe foi a continuação que deu certo (risos). Luxo, barco, muita onda boa, mar clássico todo dia... Totalmente contrário à proposta do primeiro filme – que foi, no final das contas, um filme de comédia, de uma trip onde praticamente tudo deu errado. O Grilão (Leandro Dora) já havia reservado um barco para meados de junho para fazer uma trip de treino no Sibon (barco do catarinense Ícaro Ronchi) com a turma, aproveitando que todos já estariam livres nessa data depois do CT e me convidou parar fazer o Mais um Filme de Surfe. O resultado final me agradou bastante, um pouco difícil de editar pelo fato de ter 10 surfistas (risos) – quem sofreu foi eu. 

Por que fazer um (ou melhor, mais um) filme independente? Você teve algum apoio ou patrocínio?

Eu amo fazer filmes, não me vejo fazendo outra coisa. Filmes e fotografias, na minha opinião, são os melhores meios para se congelar no tempo uma história incrível. Eu cresci assistindo filmes de surf. Estamos vivendo o auge do esporte nesse momento, me sinto honrado de poder estar registrando e vivendo isso tudo com esses atletas. A questão de apoio e patrocínio é o seguinte: antes de embarcar sempre deixo as marcas avisadas que estou indo produzir um filme, com ajuda dos atletas e dinheiro próprio arcamos com os custos durante a viagem. Volto para a casa, termino o projeto e bato de porta em porta nas marcas pedindo apoio. Felizmente, no meu caso, hoje todas as marcas aceitam e abraçam a causa. Nunca tive nenhum prejuízo. Mesmo se tivesse, tiraria algum aprendizado e continuaria – afinal, não faço por dinheiro. Se fosse por dinheiro eu trabalharia com qualquer outra coisa (risos). Mas posso dizer que se felicidade fosse uma moeda, eu seria um dos caras mais ricos do mundo!

Quem é o maior destaque do filme?

Puts, essa tá foda (risos). Difícil, não vou citar nomes, foi show de surf de todo mundo. Imagina, parte do elenco está no WT, ou seja, o nível de acertos é bizarro.  E a outra parte é a turma que viaja o mundo em trips de freesurf e QS, todos com nível de acerto muito acima do comum e muita experiência em ondas internacionais. Também tinha os dois grommets, Lucas Vicente e Nicollas Padaratz. Luquinha tem muita atitude, Niccolas também. Essa resposta vou deixar o filme falar por si só e o telespectador que escolha! 

 A trilha é sensacional – quem assina?

Rodrigo Vellutini, vulgo Shaka/Afterclapp! Tenho a sorte de morar com ele há dois anos, então sempre que preciso bato na porta dele (risos) – o cara é um monstro, um músico completo. Ele é produtor musical, assina a primeira musica do filme e as outras trilhas ele fez a curadoria musical. Ele sempre capta bem a pegada do filme e chega com uma caixa de surpresas. É o 2º filme que produzimos juntos, e o 2º em que a trilha tem um feedback incrível. Ambos os filmes ganharam o premio no MIMPI de Melhor Trilha Sonora. Temos gostos em parecidos, então fica fácil de alinhar os pensamentos. 

Como produções mais longas de surf, especialmente aquelas focadas em performance, se mantem relevantes?

Com performances foda. Mais um Filme de Surfe é um filme de alta performance em ondas perfeitas. A intenção é que as pessoas assistam e sintam muita vontade de surfar (risos), comigo acontece isso!

Como foi receber o reconhecimento com o Prêmio MIMPI de Melhor Filme Nacional?

Foi uma surpresa, eu não estava esperando nada. Tinha muito filme foda concorrendo, e quer saber a real? Eu não penso no premio, acho até um pouco subjetivo. Porém, quem não gosta de ter o trabalho reconhecido? Foi uma sensação muito boa receber os prêmios das mãos de grandes ídolos. Fui para o Rio de Janeiro para prestigiar o evento, O MIMPI é foda, rola uma troca muito irada com a galera que trabalha com audiovisual – e rolam umas festas bem maneiras (risos). Eu passei o ano viajando e tirei uma semana de ferias para ir ao MIMPI. Sair de lá com dois prêmios depois de uma semana irada foi a cereja no bolo.

Me parece que a produção de filmes de surf, que já foi parte integral do marketing das grandes marcas de surfwear, hoje sobrevive mais pelo amor de quem produz, do que por um retorno financeiro. Você concorda?

Concordo, tem que amar muito. Eu tenho muita sorte de trabalhar com os atletas do filme, que são atletas de grande peso dentro das marcas, então estão sempre me pedindo conteúdo e acaba gerando uma grana boa. Mas vejo muito filmmaker talentoso passando perrengue, o mercado está meio enxuto e complicado, tem que botar o coração na frente e acreditar que dias melhores virão. 

Quem são suas maiores influências na produção audiovisual?

Pablo Aguiar, Mickey Bernadoni, Bruno Tessari, Pietro França, Loïc Wirth, Rafael Mellin, Eduardo Linhares (Saracura), Guilherme Becker, Renato Leal, Fabiano Sperotto, Nelsinho Ferraz. Enfim, todos os que estão botando a mão na massa e fazendo acontecer, fazem parte das minhas influencias. 

Com quais surfistas que você mais curte trabalhar?

Lucas Silveira, Yago Dora, Marco Giorgi e Yuri Gonçalves. Já viajei bastante com eles, temos uma relação de amizade bem grande, então quando estamos juntos filmando acaba que esquecemos que estamos trabalhando. Tudo flui de uma forma leve e boa. E o nível de surf desses caras é o que todo filmmaker pede. Ultimamente, tenho viajado muito com o Lucas, fomos para Nias, México, Europa, ele rende muito, dedicado e muito focado.

 A festa de lançamento oficial em Floripa – conta mais...

Montamos um evento foda pra turma, telão gigante, show com Armandinho e Shaka Music (autor da trilha), galera reunida no melhor lugar de Floripa, The Search House. Foi épico, só vou dizer isso...

 

Os protagonistas sobre Mais um Filme de Surfe

Qual a parte mais maneira de participar de Mais um Filme de Surfe?

Por que vemos tão poucos filmes de surf brasileiros atualmente?

Como é trabalhar com o Bruno Zanin?

Quem, a seu ver, foi o destaque do filme?