Relicário

 

Texto e fotos Julio Adler

Um surfista animadíssimo passa pelo Kirk Pengilly, guitarrista e saxofonista dos australianos INXS - marido da surfista 7 vezes campeã mundial Layne Beachley - e ao reconhece-lo, fala a primeira coisa que lhe vem na cabeça:

Ei, Cara! Muita festa com a sua música nos anos 80!

Kirk, um sujeito de humor seco e rápido, respondeu sem piscar,

Eu também!

 Layne Beachley

Layne Beachley

Ali na Praia de Santa Barbara, um canto de areia negra, colado numa imponente falésia que provoca nas ondas um efeito parecido com a Cacimba do Padre em Noronha, ou São Conrado no Rio de Janeiro, estavam reunidos 18 nomes que já frequentaram muito as paredes dos quartos de senhores que hoje passam facilmente dos 45 anos de idade.

Pode parecer estranho, tempos atrás existiam códigos que ligavam - conectavam na linguagem atual - surfistas de todo planeta. Por exemplo, colar na parede fotografias recortadas, mesmo arrancadas!, das hoje finadas e saudosas revistas de surfe.

 Fabio Gouveia chegou nas semis

Fabio Gouveia chegou nas semis

Eram os nossos wallpapers (literalmente!), proteção de tela e o escambau, antes do computador caseiro e telefone inteligente.

Na Austrália, como em Portugal e Brasil, eram quase sempre as mesmas fotos, os mesmos heróis, vá lá… os mesmos sonhos.

Não havia alternativa ao esquema da competição no mundo do surfe.

Se você queria mesmo viver daquilo, virava empresário do ramo ou tentava a loteria do circuito mundial, fazendo um trocado aqui e outro ali em premiações e revendendo equipamento.

Talvez não fosse assim tão drástico. Com as exceções do Wayne Lynch e mais 3 ou 4 rebeldes que conseguiram seguir seu caminho numa maneira alternativa ao surfe profissional, o resto seguia a vida mundana para ganhar o sustento e tentava manter as sobrancelhas salgadas quando dava.

Dia cheio de estrelas

 Cheyne Horan

Cheyne Horan

Rob Bain estava prestes a ser consagrado o novo campeão mundial master, Cheyne Horan precisando de uma combinação de duas notas que naquela altura era mais difícil que perder peso ou evitar bebidas alcoólicas.

Decidi que podia ser uma boa hora de provocar a velha guarda ali ao lado, torcendo fervorosamente por qualquer um dos dois Aussies.

Quem vai carregar o campeão nos ombros lá de baixo até aqui (uma distancia de bons 150 metros de subida íngreme)?

Gary Elkerton arregalou os olhos indignado e esbravejou,

Isso não é coisa da nossa geração! Ele que ande até aqui. Esperamos com uma cerveja pra brindar o título!

Yeah Bainy! Gritou Matt Hoy, levantando o copo já meio cheio.

Ao invés de carrega-lo, podemos arrumar uma cadeira de rodas e empurrar… Talvez tenha dito Damien Hardman.

Faz mais sentido! Resmungou de canto Simon Anderson, sujeito de poucas palavras.

Sorte deles que não foi o Kong ou Simon Anderson que ganhou, pensei com os meus botões, na total impossibilidade de carregar (ou empurrar!) esses distintos senhores nos ombros.

 Gary Elkerton e Rob Bain

Gary Elkerton e Rob Bain

Gary Kong Elkerton foi um dos personagens centrais de todo evento.

Era sem dúvida nenhuma o mais empolgado e feliz de todos que lá estavam - sua esposa confidenciara que ele teria perdido 23 quilos para o campeonato.

Ficava difícil imaginar aquela figura robusta com mais 23 quilos, também não será assim espinhoso o caminho de volta à forma com todas cervejas que bebíamos todos alegremente durante o Azores Masters 2018…

O maior campeão dessa nova (nova?) era dos Masters - a partir de 1997 - Kong é tricampeão do mundo na categoria e nas 3 oportunidades que teve nos Açores, surfou apenas duas ondas com a sua 6’6''swallow 6 canaletas.

Contra Curren e Hoyo, Elkerton recusou-se a ficar em pé na prancha - talvez a prancha estava fina demais para o peso atual, brincou Terry Richardson, outro que tem 2 títulos masters.

Toró de Lágrimas

Uma reunião familiar, diziam eles (os surfistas) quando perguntados sobre como se sentiam estando de volta ao ambiente que foi a casa deles durante boa parte da juventude.

Claro que tudo mudava quando colocavam a camiseta de competição.

O jornalista e escritor Jamie Brisick, ele mesmo um competidor dos anos dourados do surfe profissional nos anos 80, confessou que quando recebeu o convite para fazer a cobertura do Azores Masters 2018, quis ter certeza se era para competir ou escrever.

 Jamie Brisick, Dave Macaulay e Rob Bain

Jamie Brisick, Dave Macaulay e Rob Bain

Aquilo despertava nele seus demônios escondidos por décadas de fuga daquele instinto assassino e irracional de vingança e triunfo.

Jamie é uma pessoa gentil e educada, impossível associa-lo atualmente ao canalha que todos nos tornamos ao vestir essa fantasia de competidor.

 Dave Macaulay

Dave Macaulay

Caso também do Dave Macaulay, homem de família, polido, incapaz de um ato violento, torna-se um abjeto carrasco quando entra numa bateria.

Se Jake Patterson e Shane Beschen eram os surfistas mais em forma do evento - junto do Fabio Gouveia - Dave derrotou todos sem misericórdia - e Sunny Garcia!

Macca faz suas próprias pranchas, como a maioria dos competidores dos anos 70 e alguns dos anos 80 presentes na ilha de São Miguel.

Ao fazer o discurso durante a cerimônia de entrega dos prêmios, Macaulay tirou do bolso uma folha de papel que ele tinha escrito na noite anterior - chame isso de autoconfiança!

Agradeceu à cada uma das pessoas que o apoiaram no seu longo percurso (já tinha feito uma final contra Kong em 2001 na Irlanda) e todos que ali também o ajudaram de alguma forma - inclusive o Beach Marshall, Claudio, que ao ouvir seu nome, surpreso e confuso, disse,

Quem alguma vez agradeceu ao Beach Marshall ao ganhar um título mundial??? Que Ganda campeão!

Sentimental demais

As pequenas histórias ao redor do evento são gigantescas dependendo de quem as conta ou dos que tiveram o privilegio de simplesmente vive-las como o menino que ao pedir autógrafo para Damien Hardman ficou em choque quando o bicampeão mundial ofereceu sua prancha como presente.

 Tom Curren

Tom Curren

Na categoria feminina havia algo que ia muito além da nostalgia, uma sensação de pertencimento que estava perdida entre a injustiça e a (falta de) memória.

Dessa vez, a WSL acertava ao igualar pela primeira vez a premiação entre homens e mulheres e no Azores Masters antecipava em alguns meses a política idealizada para a temporada de 2019.

Não deixa de ser curioso essa vocação que Portugal tem para desbravar marcos no surfe global, como em 1996 com a transmissão pela internet, em 2009 com o primeiro 3D e agora, com a igualdade da premiação.

 Pam Burridge

Pam Burridge

Todas mulheres estavam em muito melhor forma física do os homens. Frieda Zamba e Rochele Ballard mais fortes e magras do que nos tempos áureos - surfando quase exatamente igual.

Pauline Menczer e Jodie Cooper quase iguais ao modelo cabelinho curto e atitude dos anos 80/90, felizes e ferozes.

Pam Burridge acompanhada do marido, o shaper Mark Rabidge, era a torcedora mais empolgada e carregava a bandeira australiana para envolver os campeões na beira do mar.

 Derek Ho

Derek Ho

Finalmente, Layne sendo Layne, deixando os jornalistas boquiabertos com suas respostas claras e bem articuladas.

Como quando João Pedro Mendonça, repórter da RTP (TV Portuguesa) precisava alguém que explicasse a paridade da premiação e de alguma forma contextualizasse toda situação inédita da categoria feminina no Masters

Impressionante! Layne Beachley tem o mais conciso e eloquente discurso de todos surfistas que entrevistei. Inacreditável.

Sal e pimenta

Apesar da grande confusão com o formato do evento - ainda não temos certeza quantas vezes foi alterado durante todo processo de qualificação para as finais.

 Luke Egan

Luke Egan

Mesmo com isso, e ai de quem resolver perguntar ao Mike Ho!

[Mike Ho estava indignado com a mudança do formato, se recusava a competir, até que falou com seu filho, Mason, que lhe recomendou a esquecer a frustração, ir pra dentro d’água e ganhar dos seus adversários, que segundo Mason, surfavam como mulheres - tudo isso dito na entrevista após a bateria!]

 Os finalistas

Os finalistas

João Alexandre Dapin, herói local e convidado do Azores Masters 2018, realizou um sonho antigo e participou de um evento único com seus antigos ídolos - Dapin é um dos rapazes que fazia como descrito acima, sobre revistas e paredes - foi o único surfista - junto do Luke Egan - que ganhou do campeão, Dave Macaulay.

Se cada um dos presentes trazia a alegria de voltar ao centro das atenções, a própria beleza da ilha de São Miguel se encarregava de embevecer seus convidados com cachoeiras, piscinas de água termal, um verde com infinitas tonalidades e sua culinária extraordinária.

Ao final dos dias, todos se reuniam no bar da praia, bebiam cervejas sem o menor pudor e trocavam histórias.

 Luke Egan e Shane Beschen

Luke Egan e Shane Beschen

Beschen pediu desculpas ao Luke Egan por ter virado a bateria na contagem regressiva.

Quando você vai ouvir histórias como essa novamente?

O enigmático Mr. X, Glen Winton, mais estranho (e feliz!) do que nunca, respondeu assim quando perguntado o que mais sentia falta da época que disputava títulos (terminou 3 vezes em sétimo e uma em quinto no ranking) no circuito mundial,

Ser reconhecido. Sinto falta de ser reconhecido. Da fama.

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