JULIO ADLER // A análise do Taiti

 
 

por Julio Adler

Saia do caminho!

É chegada a hora de voltar. Completamente imerso na Copa da Rússia, ignorei imperiosamente Jeffreys Bay. Não fiquei na dúvida entre assistir, nas oitavas, Brasil x Mexico e Bélgica x Japão ou as primeiras fases da etapa sul-africana.

Toledo fez as maiores médias, atropelou tudo e todos, assumiu a ponta e assim chegamos ao Taiti. A inevitável comparação com o fracasso da seleção do Tite alimentava a ilusão que, apesar da Bélgica, pelo menos no surfe somos superiores. Digo ilusão porque de fato somos (atualmente) os maiorais na WSL -- em todos lados.

Olhem para o surfe de ondas gigantes e estamos lá -- obrigado Koxa. Aéreos, confere. WQS, confere. Piscina, Surf Ranch e o escambau? Confere! Surfe feminino? Bem… Melhor mudar de assunto. Aqui tem pano pra manga, fica pra outra hora.

E por quê ilusão, pergunta o leitor mais atento. Porque, ao mais fiel retrato do futebol, o surfe aqui imita o futebol. Senão vejamos, estamos em 2018. Dos cinco primeiros candidatos ao título, três são brasileiros, Wade meio sem querer ali no meio, Julian tentando acreditar que ainda é capaz de reagir…

Enquanto isso, no andar de baixo, nunca a balança esteve tão pesada para a turma do andar de cima. Traduzindo para português claro, a distribuição da grana no surfe profissional nunca esteve tão desigual, tantos sem nada e poucos (pouquíssimos!) com muito. Mesmo esses poucos já têm um enorme abismo entre eles, no WQS tem mais gente vendendo almoço pra comprar a janta do que bem patrocinado.

Cabe aos veículos de comunicação refletir sobre a situação que nos encontramos hoje, com as revistas especializadas fechando enquanto a Globosat despeja dinheiro no surfe através do Canal Off. Ou analisar o disparate do por quê, a exemplo futebol, se investir tão pouco nas categorias femininas.

Acho que isso não gera Likes. Melhor adotar o tom celebratório de sempre.

Camisa amarela

O melhor da etapa de Teahupoo nesse ano foi ver Filipe chegar antes, dropar lá de trás, meter pra dentro sem medo, deixar uns bifes das costas na bancada de coral e ainda fazer semifinal. E fez tudo isso com uma quatro quilhas, 5’10’' que seu shaper, o brasileiro Marcio Zouvi, desenvolveu exclusivamente para essa onda.

"Escolhemos fazer uma prancha mantendo as características de uma semi-gun mas diminuímos o tamanho", disse Zouvi para Moist. "A diferença foi, demos uma alargada no bico e puxamos toda espessura do meio pra frente. A espessura era tanta no bico que precisei fazer aquele bico estilo anos 80! Filipe tinha a opção das cinco quilhas, podendo usar tri ou quad. Na viagem antes, ele surfou com a 5’10’'quad e adorou. Quando o mar baixou, achei que ia mudar, mas não. Usou até o fim.

E qual foi sua leitura do surfe dele nesse evento, com essas pranchas, em comparação com J-Bay, por exemplo, perguntamos. "Voce nota," continua Marcio no seu raciocínio, "que a quatro quilhas tem uma resposta bem mais rápida do que a triquilha nesse tipo de onda e o Filipe se adaptou às ondas super bem, encaixando as manobras com muita velocidade e cravando a borda nas curvas. Achei ele bem rápido na transição e down the line também."

Fiquei me perguntando depois o quanto mais veloz ele ainda pode ser. Façam esse exercício. Segue o líder.

Venha voar comigo

No circuito mundial, nos últimos anos, ninguém tem sido tão letal na segunda metade do ano quanto Medina. Quando tudo parece conspirar contra, ele mostra foco, determinação e garra.

Nessa temporada, Gabriel tem estado -- ou se mostrado -- mais leve. Tem agora uma série no YouTube, interage mais com os outros surfistas, tenta afastar-se da imagem indiferente que até hoje aparentava cultivar e isso o tem ajudado. O primeiro resultado disso veio agora mesmo em Teahupoo, quando finalmente conseguiu vencer Italo Ferreira numa bateria homem x homem.

Pode ser — e isso é somente uma especulação — que a proximidade (mais recente) entre ambos tenha quebrado, ou aliviado, a tensão que havia anteriormente. O Gabriel fechado e desconfiado de antes não se permitiria isso.

Isso me lembra uma cena do filme Sete Homens e um Destino, um faroeste clássico de 1960, um dos pistoleiros contratados para defender a cidade conversa com um camponês,

"Se ele (referindo-se ao papel do James Coburn) é o melhor com o revólver e a faca, com quem ele compete?"

"Com ele mesmo", diz o personagem do Yul Brynner.

Medina é hoje esse camarada - compete consigo mesmo. Os filmes do velho oeste podem nos ensinar muito sobre conflitos, injustiças, vinganças, heróis, vilões e triunfos inesperados, como nos esportes de alto desempenho, no surfe profissional -- na vida.

Belgica x Brasil

Tyson x Buster Douglas

Medina x Owen

Sete Homens e um Destino ou Os Sete Magníficos é inspirado em outro filme fundamental para quem gosta de cinema, Os Sete Samurais, do japonês Akira Kurosawa.

A crítica americana Pauline Kael escreveu sobre o filme, "uma vasta celebração das alegrias e tormentos da luta, vista em uma nova profundidade e escala, um balé imaginativo e brutal sobre a natureza da força e da fraqueza."

Ring a ding ding

A próxima etapa, no Rancho do Tio Kelly, vai mesmo para o velho oeste, longe do mar, mais próximo do cheiro de bosta de vaca do que maresia. É a grande aposta do ano e os principais duelistas estarão dispostos a mostrar todas suas armas.

Ao remover o surfe do oceano, a WSL acrescenta um elemento tão dissonante do circuito, que fica difícil chamar sequer de filho bastardo. É quase como se na Copa do Mundo tivesse uma rodada de futebol soçaite. Ou em Roland Garros houvesse um set inteiro de frescobol.

Muda tanto as regras do jogo habitual que fica difícil aceitar que a prova tenha o mesmo peso de todas outras.

Será um teste tão grande para os surfistas, como para a própria WSL, que terá oportunidade de confrontar comparativamente o interesse que este tipo de competição desperta na instável e volúvel audiência do surfe, contra o fictício e tão almejado grande público (americano).