POR TRÁS DAS LENTES // Mickey Bernardoni

 
  Foto: Osvaldo Pok

Foto: Osvaldo Pok

 

Balneário Camboriú parece ser um lugar especialmente marcado por um surf mais roquenrol -- ou punk rock, a gíria vai depender do gosto musical do leitor. Mas o fato é que a forte cena dos anos 80 realmente deixou sua marca. E uma das figuras que cresceu sob influência do surf, skate e da música que rolavam por lá é o surfista e filmmaker Michelangelo Bernardoni, o Mickey. Instigado pelos filmes da geração Momentum, ele pegou a câmera começou a fazer seus próprios filmes, numa época em que editar vídeo significava pegar a tesoura e, literalmente, cortar, copiar e colar. Com isso, acabou incentivando toda uma geração de surfistas a se envolver com a produção audiovisual. Fomos bater um papo com ele para saber mais sobre seu trabalho, a cena de BC e o que acha dos vídeos de surf de hoje em dia.

 

Mickey é filmmaker, mas nem por isso fica só atrás das lentes.

Eu nunca fui para Balneário Camboriú, mas a impressão que eu tenho é que todo mundo de lá é muito marcado por uma cena bem rock'n’roll e urbana. Como que a cidade te influenciou -- na música, no surf, em tudo?

Balneário é super urbano, cara, só o que tem de prédio na frente da praia é absurdo. A cena aqui começou mais ou menos nos anos 70, e mais forte no início dos anos 80. Era tudo meio que surf de rua, da galera da rua, lance de moleque -- pegar a prancha, passar na casa dos outros, correr pro surf. E muita gente tinha banda por aqui, e tinha uma de metal que ensaiava do lado de casa, e eu sempre ficava vendo os caras tocando, pirava nisso. Então sempre estive envolvido com música, tocando som do filme de surf, depois na minha própria banda. A galera se juntava para fazer um som e depois ia surfar e andar de skate. Foi massa cara, dá uma saudade do caramba contando assim.

Como surgiu esse seu outro lado, do audiovisual e da fotografia?

Minha mãe era fotógrafa e ela comprou uma filmadora Vídeo 8 quando eu tinha uns dez anos. Eu fiz minhas primeiras imagens com um amigo que era lá de Blumenau -- aquele amigo de copiar filme de surf e piratear, essas coisas (risos). Desde aquela época, a gente revezava as filmagens. E naquela época era bem difícil de editar, era naquele esquema do video cassete, copiando de uma fita para outra. Botava o som pelo diskman, filmava o nome em uma folha sulfite -- o que era super legal pra essa época. Foi uma baita duma escola. E cara, eu faço basicamente a mesma coisa hoje, só que evoluiu e ficou muito mais profissional.

E fora os vídeos de surf, o que você faz?

Ao mesmo tempo que tem os filmes de surf, eu fui junto com o lance da música. Queria tocar as músicas dos filmes, queria fazer os filmes igual, ter seções, aquela coisa. Tem um lado comercial -- eu trabalho com edição ou filmagem, por trás da coisa. Eu tenho um primo que é diretor de fotografia e eu trabalho de câmera B, assistência, faço algumas coisas assim, outros trabalhos com moda. Eu não vivo do surf, eu nunca vivi do surf. Ganho um dinheiro aqui e ali mas eu não vivo do surf. Eu me conscientizei disso há bastante tempo e já levei essa parte de vídeo para uma área comercial, para poder fazer o meu rolê no surf.

Eu ouvi falar que você influenciou muita gente a trabalhar com vídeo em Balneário.

Talvez, cara. Assim, um pouco vai da vontade de cada um de começar, mas pô, eram amigos meus que sempre estavam pegando onda comigo e era legal demais você ver o que dava pra fazer. E aí acho que a galera começou a se empenhar -- o Pablo, o Tessari. E hoje não é só por aqui que tem bastante filmmaker, é em todo o lugar, principalmente com o YouTube.

Tem gente que realmente não gosta do imediatismo dos edits de surf hoje em dia. Você compartilha dessa opinião?

Não compartilho não, até porque eu não ganho grana com isso. Acho que as coisas funcionam assim, a gente tem que se adaptar um pouco. Claro, tem que ter um projeto maior, ou um programa, algo para que você tenha que segurar material. Mas fora isso, eu sou adepto de até postar no mesmo dia -- é legal compartilhar uma sessão pra mostrar o que aconteceu. Eu entendo o pessoal reclamar, mas também acho muito 8 ou 80 você ficar lá com o material cinco ou seis anos pra lançar o filme. Vai muito longe, sabe? E o jeito de ver as coisas mudou também, você não coloca mais a fita VHS com punk rock para ficar pilhadão pro surf, infelizmente. E eu tenho uma saudade do caramba disso, mas não adianta cara, a tecnologia vai mudando e a gente vai se adaptando.

Que caminhos você vê os filmes de surf tomando?

É bem difícil responder isso cara, porque eu segui muito minhas influências. O que me pilhava mesmo era o Momentum, os filmes do Taylor Steele, e ele também foi para um caminho mais visual, na pegada Jack McCoy. E aí todo mundo entrou nessa de fotografia -- ver algo mais bem produzido é uma coisa legal, só que aí aquela pilha ficou meio que pra trás. Não é um filme que te instiga pra surfar. O que eu não gosto de muitas das produções que eu vejo é justamente a trilha sonora. Eu ainda sou fã de rock, de uma trilha mais animada e acho que vai ter que voltar a instigar as pessoas um pouco mais. Eu acho que o surf é pra frente, então tem que achar um meio termo.

Fala aí, o que você tem feito Mickey? Projetos?

Volta e meia surge um programa legal do Canal Off, aí são projetos maiores que tomam mais tempo, que nem no ano passado, quando eu fui pra Rússia. Fiquei lá 2 meses gravando um programa. E faço umas coisas menores. Fora do surf, trabalho de câmera, que é um ramo que paga legal -- pelo menos fora do surf, né? Porque no surf... eu nem procuro fazer muita coisa com marca de surf, porque eu já não tenho saco pra lidar com elas. Pra mim não. E tem a Empty. Eu tenho um patrocínio deles e meu papel é bem freestyle mesmo, meu lifestyle como freesurfer e como filmmaker. E é uma marca que eu gosto e por isso que eu faço parte, sabe? Não é pelo que eu ganho.

Filme conceito feito para a marca local Empty, que apoia Mickey.