JULIO ADLER // Ao vencedor, as batatas!

 
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Por Julio Adler

A frase do título vem do romance do Machado de Assis, Quincas Borba, aquele mesmo que te obrigaram a ler na escola e responder à indecifrável questão, explique o que é Humanitismo... Vamos a isso mais tarde.

O Panda nos levou, todos, às lagrimas. Percebam que não é qualquer vitória que comove a ponto de criar uma empatia gigantesca com o campeão. Por alguns momentos, quando ele comunica ao Kaipo Guerrero que dessa vez não vai falar em inglês porque seus amigos, sua família e toda torcida merecem ouvir a entrevista, sincera e sentida, em português -- fica quase impossível conter as lágrimas.

São lágrimas de satisfação, de contentamento, por um camarada que luta, que não desiste e pega o destino com suas próprias mãos e dobra a linha perversa das previsões e transforma o que foi sonho em realidade -- amassando os obstáculos com a força de vontade e nada mais.

O abraço carinhosamente apertado na Tatiana, Esse campeonato era nosso, Tati, diz ele. Ou, se não diz, pensa… Ela concorda, sabe que a final feminina também era dela, sem dúvida nenhuma. Exceto pelo julgamento da WSL.

Uluwatu e Keramas confundiu muito o fechado grupo dos juízes e ainda mais os entusiastas que testemunharam uma série de erros difícil de ser superada. Talvez seja culpa do maldito ângulo que tudo é filmado, achatando e deixando menos empolgante as ondas, mas Jordy nunca perdeu a quarta de final contra Julian. Contra Kolohe, na semi final, Julian vira na última onda pela segunda vez seguida e avança diante de um público perplexo. Duas vezes seguidas?

Mikey Wright tem se tornado a pedra no sapato do pessoal na disputa pela ponta do ranking, Medina, Florence, Wilson, todos derrotados pelo novo escolhido da WSL. Podemos dizer que o caçula dos Wright é o Dane Reynolds da vez. Na dúvida se vai conseguir ou não se classificar pelo WQS, ganha um empurrãozinho (convites) para participar da festa entre os Tops. Festa que até a semana passada parecia pertencer ao Italo, que inexplicavelmente perdeu para Michael Rodrigues.

Um destaque durante a transmissão em inglês foi a volta do campeão mundial de 1988 Barton Lynch (afastado desde o ano passado por contenção de despesas) ao time de comentaristas. Era um verdadeiro choque quando trocavam da dupla Joe Turpel e BL para Ronnie Blakey e Strider. Onde Barton era crítico, exultante e exato, Strider lutava contra adjetivos e frequentemente parecia confuso com papel de analista. Imagino que ao ouvir (eles mesmos, Strider e Ronnie) a erudição e minuciosa análise do surfe, condições do mar e julgamento por Barton Lynch, o constrangimento de entrar no ar em seguida deve ser equivalente a surfar em Keramas depois do Italo…

De volta ao título, o livro conta a historia de Rubião, professor que fica rico de uma hora para outra ao receber uma herança deixada pelo filósofo Quincas Borba, criador de uma filosofia chamada Humanitismo. Rubião, depois de perder sua fortuna, pobre e doente, relembra uma das teorias do filósofo.

Duas tribos famintas devem lutar para chegar num campo de batatas suficientes apenas para alimentar uma das tribos. Alimentados, o grupo vencedor teria energia para chegar até um outro campo, farto de batatas. Quincas Borba sentencia: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas". E ainda acrescenta, "A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação".

Que diabos tem isso a ver com o Panda destruindo tudo na guerra por pontos em Uluwatu?

Nada! O que nos levou às batatas foi o fato do William adorar um modelo, criado por ele e seu shaper, Alexandre Snapy, da Snapy Surfboards, chamado Fritas. Com as quartas de final em Keramas (que poderia ter sido terceiro ou mais!) e essa conquista em Ulus, o Panda figura agora em quinto no ranking mundial, precedido por Medina, Italo, Toledo e Julian, entrando na disputa pelo título de 2018.

As próximas etapas, J-Bay e Teahupoo vão deixar tudo ainda mais desordenado, é a nossa aposta aqui na Moist. Por enquanto, a hora é de fazer como Filipinho, quando Panda chegou lá em cima depois da final, serviu uma Corona geladinha, derramando tudo goela abaixo e gritando:

Hoje pode! Hoje Pode!

Notas avulsas:

1 - Foi tão bom ver Marco Polo de volta ao tour, aconselhando William antes e depois de cada bateria. Polo é um dos surfistas mais carismáticos que já tivemos no Brasil e depois de se classificar pro WCT em 2009/2010, foi uma das vítimas do mal sucedido corte no meio da temporada, ceifando precocemente um sonho que durou pouquíssimo.

2 - Uluwatu pode ser uma onda incrível, sem discussão, mas a onda para a WSL é G-Land. Uma etapa em Grajagan seria um retorno triunfal ao conceito original do Dream Tour.

3 - Onde fica agora a fantasia com as ondas artificiais depois dessas três etapas seguidas com ondas e emoções de verdade?