O futuro do surf deu as caras

 

por Matias Lovro

A piscina de Waco mal abriu e Seth Moniz já mostrou seu potencial de progressão

 

Tiraram uma jogada do livro do Slater. É bem irônico que as primeiras imagens de surf da nova piscina de ondas em Waco, no Texas, tenham saído bem no fim de semana da Founders' Cup. O próprio careca deve ter aberto um sorriso de canto ao saber da notícia -- touché, boys.

A "copa do mundo" no rancho do Kelly (e da WSL, não esqueçamos) foi um balde d'água fria naqueles que viam a onda de Lemoore como a salvação do surf competitivo profissional. A parte das seleções brigando entre si pode até ter dado alguma emoção para a coisa, salvando o dia das finais, mas a verdade é que grande parte do público ficou entediada com a repetição e o conservadorismo do surf executado durante o evento.

Mas voltemos ao Texas, porque é ali que os verdadeiros rancheiros estão. Jamie O'Brien e Cheyne Magnusson -- os prós que representam a piscina da American Wave Machines -- provavelmente estão, nesse momento, com centenas de mensagens a ser respondidas no celular. Isso pois sua piscina, de fato, roubou a cena, e agora o mundo do surf inteiro quer saber mais. Como funciona? Vai ter onda pra todo mundo? Quando vai abrir?

OK, vamos resumir, mas sem entrar em detalhes técnicos, porque no site deles já tem tudo. Ao contrário da locomotiva que, a cada quatro minutos, gera a onda de Lemoore (já soa ultrapassado, não é?), a tecnologia da AWM faz 180 ondas por hora. E não para por aí -- a onda é configurável. Sim, é isso mesmo: quer um tubo? Dá-lhe tubo. Uma rampa perfeita na junção? Claro, por quê não?

E escolher como sua onda vai quebrar é surreal, não me leve a mal. Mas talvez a diferença mais importante esteja mesmo na duração. Em Waco, a onda é curta, o que gera repetição -- e não estamos falando de qualquer repetição, mas sim a repetição mecânica de uma piscina. E repetição em condições idênticas gera inovação. Pergunte para os snowboarders que vão para as Olimpíadas como eles aprenderam a voltar um switch backside triple cork 1620º. Ou para qualquer skatista que já aprendeu a dar um flip -- quantas tentativas levou?

 

Será que a era dos triple corks está para chegar no surf também?

 

É agora que a verdadeira inovação começará a aparecer. Seth Moniz que o diga -- o havaiano voltou o backflip do vídeo acima depois de oito tentativas. No mar, vemos uma manobra desse calibre por ano… e olhe lá. A partir desta piscina, o ritmo da progressão do nosso esporte vai acelerar, e muito. Cada atleta terá uma ideia do tipo de manobra que quer dar e poderá praticá-la incessantemente até conseguir (ou acabar a grana, ou se machucar). Além disso, o surf finalmente terá que se entender com a nomenclatura de aéreos, grabs e rotações, porque senão a anarquia vai reinar e a coisa vai ficar feia, principalmente para os narradores e juízes.

Mas aí, quando as "fábricas de ondas" finalmente tiverem a tecnologia para aumentar a escala de seus protótipos, o bicho vai pegar pra valer. Imagine a rampa usada por Seth Moniz, só que com a força e tamanho de um Backdoor quebrando com 6 pés havaianos. Será o começo do Big Air no surf? Dos atletas especializados em categorias super específicas?

Uma coisa é certa. Em alguma cidadezinha obscura, vai aparecer um garotinho local, com talento e dinheiro de sobra, marcando presença na piscina de sua cidade todo fim de tarde depois da aula. Antes mesmo de atingir a puberdade, ele já vai estar completando manobras que nenhum John John ou Filipe sequer sonha em tentar hoje em dia. Duvida?

 

Jamie O'Brien, um dos “embaixadores” da AWC, levou sua turma para o Texas