JULIO ADLER // Nem de ouro, nem de lama

 
 
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Por Julio Adler

A intervenção da WSL em Saquarema correu como previsto, vitória (indiscutível!) de um brasileiro no meio do mar de enlouquecidos torcedores. Campeonatos realizados aqui no Brasil têm esse compromisso e Filipe faz tudo ficar ainda mais empolgante e divertido com seu jeito de misturar a figura do ídolo com o próprio torcedor.

O grande susto nesse ano foram as ondas da Barrinha.

A imprensa internacional, tão habituada a bater firme na falta de qualidade das ondas tupiniquins, fez coro ao celebrar Saquarema.

O fator determinante para consagrar a Barrinha como onda da temporada (até agora) foi a proeza de suceder a Copa dos Fundadores no Rancho do Tio Kelly. Saímos de um acontecimento frio e mecânico, totalmente controlado e previsível, sem elã nenhum e logo nos vimos no meio do caos total que é o Bananão, cheio de vida, de sons, de cheiros, de energia vital e da mais inadiável e necessária imprevisibilidade que a WSL tanto precisa para legitimar o slogan -- You can’t script this.

Concordo com Pepê Cezar quando ele acusa a WSL de achatar as ondas com esses ângulos sempre em cima de pedestais, ou de drone, roubando um pé ou dois do espectador em casa. Falta o calor do tripé fincado na areia, a visão do camarada que suja os pés de areia. Não é possível que dos 87 funcionários do time da transmissão ninguém possa garantir um angulo mais pedestre.

Ficamos todos perdidos quando Medina e Yago repetiram a mesma estratégia de fugir dos tubos e insistir nos aéreos. Foi aflitivo. Na nossa fantasia ufanista, todos brasileiros avançavam pra semi-final. A realidade é cruel e desobediente.

Voltando dois dias no tempo, foi uma aula de competição o que vimos com Steph ganhando o Feminino, surfando sem brilho, sem errar, de olho no caneco do final do ano, mesmo diante duma Lakey Peterson faminta.

Não se enganem por aquele sorriso simpático e aparente leveza, Gilmore é em 2018 a(o) competidor(a) mais letal da WSL - um novato atento pode aprender muito observando como Steph se comporta no octagon da WSL. Aquilo é um animal encurralado.

No ranking masculino, ninguém está salvo do desastre. Todos já tem 2 descartes e estamos apenas na quarta etapa do ano. Não me lembro dum ano assim, tão aberto, tão estranho.

As próximas duas etapas (as duas da Corona) são prato predileto para Filipe Toledo, Bali e J. Bay -- com as contas para acertar em Uluwatu no meio do caminho.

Ninguém nas duas pontas do ranking pode descansar.  Jacaré que dorme vira bolsa.

Uma curiosidade. Na primeira etapa, Julian tinha sido papai e arrastou. Agora, em Saquarema, Filipe na mesma situação, revigorado com a paternidade, simplesmente aniquilou a concorrência. O mito de que o bebê vem com um pãozinho debaixo do braço, parece funcionar no tour.

Felicidade Filipe!