Saudação ao Rei Nagô

 Ian Gouveia, um dos destaques do dia -- e do campeonato, até agora

Ian Gouveia, um dos destaques do dia -- e do campeonato, até agora

 

Por Julio Adler

Meus senhores, minhas senhoras,

Estamos de volta ao oceano, livres de animais perigosos como no Oeste da Australia, aquela ilha monstruosa e selvagem.

Mesmo de volta ao mar de água salgada, distante da onda com cloro, muros de concreto e ondas quase iguais.

Voltamos para a cidade eleita, desde os anos 70, como Maracanã do surfe. Saquarema.

Lugar dos hoje míticos festivais de surfe e rock’n roll, do amor livre, droga liberada, rapaziada acampando na praia e ondas de sonho -- naquela época, antes do dilúvio diário de vídeos de ondas perfeitas, nós sonhávamos com Itaúna, Itamambuca, Imbituba.

Tudo nome indígena.

Hoje foi um dia excepcional para os aficcionados.

Uma onda que nem existia tempinho atrás desafiou os melhores do mundo e, na maioria das vezes, até ganhou.

A Barrinha obrigou o time de narradores e repórteres estrangeiros a pronunciar o nosso diminutivo com perfeição -- Ba-hee-nha!

Voces não fazem ideia do quanto é difícil para um nativo do idioma inglês arriscar os nossos diminutivos.

É quase tão humilhante quanto um locutor confundir Ian Gouveia com Fabio Gouveia -- e acredite, leitor e leitora, acontece com freqüência.

E como surfou hoje o Ian!

O tamborete se engraçou pra cima duma junção com uma brutalidade ninja que nos fez lembrar os melhores momentos de Daniel La Russo no Karate Kid.

Jordy Smith está até agora procurando a placa do caminhão que o atropelou.

Outro que fez chover foi Seabass.

Aposto que dificilmente teremos nessa temporada outra disputa tão braba quanto Joan Duru e Seabass na segunda fase.

[Essa é uma aposta que faço questão de perder]

Curioso mesmo foi ver os dois camisa amarela com baterias tão fracas.

A expectativa dos confrontos era tão grande, mas tão grande…que o nervosismo superou a concentração.

Italo, surfista mais consistente e sólido das primeiras etapas, caiu de maduro.

Julian por pouco não rodou pro Alejo, que nem no WCT está em 2018.

Medina tem sido a fortaleza do Tour nessa temporada, nada o abala.

Nada o atinge.

Nem o surfe superior do Mikey Wright, mais agudo e poderoso, alguma coisa de Matt Hoy no jeito tosco de encaixar as manobras, foi capaz de abalar Gabriel.

Amanhã, baixando e mudando de direção, devemos voltar para Itaúna, ainda assim, o desempenho do John Florence fica carimbado como maior autoridade no assunto até aqui.

Sua disputa com Miguel Pupo foi a terceira tentativa no evento do Rio para entrar nos eixos.

Florence precisa do clique, como todo grande esportista, para desembestar.

Nós, como torcedores, ficamos à espera do momento mágico, onde o universo conspira a favor, Babilônia em chamas, Rivaldo Maravilha mandando um gol…

O cabra fica sentado na areia das 7 da matina até 6 da tarde, esperando Toledo, Yago, Medina, Italo…

Aí chega Florêncio, do nada, sem ninguém esperar, e faz uma bateria daquelas.

É muita falta de cerimonia, de boas maneiras.

Logo o brasileiro, que o recebe tão bem…

Amanhã a previsão é de terral pela manhã, menorzinho, pouco vento à tarde.

Alegria!