JULIO ADLER // Rancho do Tio Kelly

 
 
 

Minha frase predileta do Groucho Marx é aquela do clube.

Me recuso a frequentar um clube que me aceite como sócio, escreveu o bigodudo lá pelos anos 30, charuto pendurado no canto da boca.

Sempre debochado, Groucho dominava o showbiz como poucos, cantava, dançava, fazia roteiros, dirigia, apresentava programas de auditório, tinha fama de rapidez nas tiradas e tocava razoavelmente bem piano e violão. Como Kelly Slater na Copa dos Fundadores nesse ultimo 5 e 6 de maio.

Stu Nettle do sítio swellnet.com definiu com perfeição o momento:

Seu comportamento ao longo dos dois dias deve pôr fim à noção de que a piscina é seu presente altruísta para o surfe. Ele vestia Quiksilver agora faz suas próprias roupas, ele usava Channel Islands e agora faz suas próprias pranchas, ele surfava ondas do oceano e agora ele mesmo cria e faz. Kelly recria o surf em sua própria imagem. Não deve haver dúvidas sobre quem é o "fundador" no título.

O autor, australiano, ainda esquece de informar que Slater também foi uma das principais atrações musicais do Rancho - apesar de ter sido completamente enuviado pela interpretação maravilhosa da Carissa Moore para a canção Dreams do Fleetwood Mac.

Qualquer texto sobre o Rancho do Kelly deve obrigatoriamente começar com alusões ao Careca. E reverência (um jornalista, americano de bandeirinha, o chamou de Tesla do surfe)!

Toda encenação do Rancho dava um pouco nos bagos, não é verdade? Começando pelo nome, um contraste gigantesco com o primeiro evento em 2017, Future Classic e agora, em 2018, Founders Cup.

Futuro x pioneirismo.

Existe qualquer coisa simbólica entre os dois, difícil de precisar. Difícil mas necessário.

Ou não, depois me acusam de saudosista. Vamos nos agarrar aos fatos.

Times x Individual

No domingo à tarde, assistia simultaneamente ao jogo do Flamengo x Internacional e a Founders' Cup, um em cada tela.

A primeira coisa que me chamou atenção foi o silêncio sepulcral da transmissão da WSL.

Enquanto no Maraca voce ouvia os gritos da torcida presentes durante toda exibição, narradores e comentaristas em primeiro plano e o calor dos 50.000 rubro negros ao fundo, no Rancho do Tio Kelly ouvíamos as vozes trêmulas dos especialistas, numa eterna busca pela empolgação, mesmo diante da onda mais repetitiva da face da terra e nada de escutar os (alegados) gritos dos (alegados) 5.000 pagantes em Lemoore.

Quando abro Parênteses no parágrafo acima, minha desconfiança é com a lotação completa do Rancho.

Com três telefonemas e meia dúzia de emails, o bilionário faria, sem esforço nenhum, a venda dos ingressos esgotar num estalar de dedos - vide a ridícula, mas eficaz, estratégia da Igreja Universal na compra dos ingressos do filme sobre a vida do Bispo Macedo, milhões de ingressos vendidos e salas vazias.

No caso do Rancho, rumores de convites distribuídos entre representantes e pessoas próximas da indústria da surfwear, eram ouvidos entre uma conversa e outra.

Mas não deixem meu ceticismo estragar esse fabuloso despertar de uma nova era.

Politicamente, foi oportuno ver o Time Mundo vencer a primeira disputa profissional de times desde os eventos -- improvisados -- de Tag Team nos dias sem onda nos anos 80.

O velho sonho de tornar o surfe uma febre mundial contagiosa funciona bem melhor com um time formado por sul-africanos, taitianos, neo-zelandeses e japoneses -- o mercado se abre como uma cadela no cio.

Surfe profissional sem fronteiras, exatamente como Fernando Aguerre, devidamente homenageado na Founders' Cup, sonhou desde o primeiro dia que assumiu a ISA.

Curioso como cada vez mais a WSL se aproxima da ISA, não apenas no chamego olímpico, refiro ao despacho na encruzilhada que virou essa mistura de Copa Davis e gincana do colégio.

Nêgo tá rezando pra qualquer santo, companheiro.

Ou, como dizia um amigo, não quero saber se é pato ou pata, eu quero é ovo!

Um leitor atento, Flávio Carvalho, comentou no artigo do Surline que as (confusas) regras induziram os espectadores em erro e corrigiu a pontuação sem as misteriosas e inatingíveis regras da Founders' Cup.

Segundo Flavio, o resultado justo seria assim,

Ouro Brasil 🇧🇷: 72,98

Prata USA 🇺🇸: 67,87

Bronze World 🌎: 54,74

Ele ainda fez a gentileza de somar os pontos individuais também,

Ouro Gabriel Medina: 18,74

Prata Carissa Moore: 17,50

Bronze Kelly Slater: 17:00

Imaginaram que fantástico seria ter Carissa em segundo lugar, na frente do Slater? Silvana na frente do Parko e Fanning…

Uma das maiores virtudes do evento foi exatamente esse detalhe enorme. As mulheres se aproximaram como nunca antes dos homens, principalmente Carissa, Tyler, Silvana, Steph e a incrível alemã californiana Frankie, fazendo um desenho, gráfico e suave, cheio de graça e elegância nas esquerdas insossas do Rancho.

A grande curva

A chuva de opiniões que inundou a grande rede (ainda garoa…) tem revelado o quanto pode variar a impressão de morte definitiva ou renascimento absoluto do surfe de competição como conhecemos até o fatídico primeiro final de semana de maio.

Talvez nada seja assim tão grave quanto pensamos.

Nenhuma teoria conspiratória nos convencendo de nada.

Não é o fim, nem o começo, é tão somente uma alternativa para quem mora longe do mar, para os impacientes endinheirados que não se prestam a lidar com os humores do mar, para consumistas fanáticos e, quem sabe, para uma solução olímpica que faria do Kelly Slater o primeiro bilionário do surfe.

Mesmo que ainda não consigam enfiar a onda do Rancho na Olimpíada de Tóquio, resta o X-Games e todos próximos jogos Olímpicos, verão e inverno, Pequim 2022, Paris 2024, Los Angeles 2028 -- por que não ?

Na luta dos meios (eventos) tradicionais para conquistar toda e qualquer juventude, considerada indecifrável, vale tudo, pode ter certeza.

Pensando duas vezes sobre considerações abstratas

Me é irresistível comentar o julgamento da Copa dos Fundadores, uma tecla já gasta de tão batida, mas o conservadorismo do desempenho de 97% das apresentações foi avaliado com uma generosidade que achávamos já perdida em 2018.

Uma esquerda com 9 manobras sem risco nem imaginação rendiam uma bela e redonda nota 8 e remetia diretamente ao ano de 1987 quando Dave McCaulay vencia campeonatos por insistência e repetição.

A espetacular nota 10 do Filipe Toledo enterrou todas possibilidades de ir adiante - até mesmo para o próprio Toledo -- e foi um acinte.

Naquela onda, nem todos, mas pelo menos 4 dos surfistas presentes eram capazes de fazer uma onda melhor que aquela, o que causaria enorme constrangimento.

Penso que o saldo da Copa foi positivo.

Por mais pessimista que eu possa ser, tudo correu bem e aparentemente está encaminhado pela sempre presente Sophie, uma C.E.O. de personalidade e atitude diametralmente oposta ao anterior, Paul Speaker.

A pergunta que eu gostaria de fazer aos participantes é,

Como é a transição da onda do Rancho, depois de alguns dias, para Itaúna?

Qual a sensação de voltar pro mar?

Sem gravidade

Uma última coisinha, por um motivo besta e sem uma desculpa decente. Todo esse momento da WSL e do surfe de maneira geral, me lembra um texto do austríaco Otto Neurath que conheci no começo do filme Zen and Zero, diz mais ou menos assim,

Somos como marinheiros que devem reconstruir seu navio em mar aberto, nunca sendo capazes de desmantelá-lo em terra e reconstruí-lo ali nas docas com os melhores materiais. Onde uma viga é levada, uma nova é imediatamente colocada e, para isso, o resto do navio é usado como apoio. Desta forma, usando as velhas vigas e troncos, o navio pode ser refeito, totalmente novo, mas apenas pela reconstrução gradual.