Ítalo supremo com tudo!

Por Julio Adler

 
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- Vamo tocá o sino! Vamo tocá o sino!

Ítalo Ferreira é carregado nos braços e grita a plenos pulmões, alegria genuína de quem sonhou com esse momento e trabalhou duro. Ele acaba de bater o favorito do público que lota as areias da praia de Bells. Literalmente jogando água no chope dos Aussies - como se eles se importassem com mais ou menos água no chope…

Tudo ali é simbólico nesse 5 de abril de 2018.

Locutores e comentaristas nos lembram de 5 em 5 minutos que este é o último campeonato do Mick Fanning como competidor em tempo integral. Existe um misto de melancolia, apreensão e euforia no ar, aqui em Ipanema, na Austrália, em todo canto, julgando pelos comentários.

Alguns dias atrás, Slater comentava com pitadas de desdém que, convenhamos, dizia ele, este não é o último evento do Mick em Bells. Façam as contas, Rip Curl Bells Beach Classic (cometeram o absurdo de subtrair o Easter do título, depois de 50 anos!), Mick Fanning, é claro que ele será convidado mais algumas vezes para competir em Bells, concluía Kelly.

Concordo.

Se ele aceitará, ou não, isso já é outra conversa…

Mas hoje é dia de Ítalo, melhor surfista do evento, longe. Quando Toledo venceu em Snapper 2015, ou na ocasião da vitória do Florence em Margaret River no ano passado, todos falaram em domínio arrasador e capítulo à parte, dessa vez estavam todos tão inebriados com a saga do Macaco Albino que não perceberam a brutal forma que Ítalo apresentou em Bells.

Não me lembro de ver ninguém tão agudo, veloz, agressivo e firme na prancha quanto o potiguar.

Pode parecer despropositado o que vou dizer agora, mas Ítalo fez Medina parecer antiquado e lento - quase conservador.

Os ângulos da cada manobra eram diferentes e a explosão na parte de cima já não eram mais apenas fundo da prancha acertando o lipe, era outra coisa.

Confesso que no princípio achava o surfe do Ítalo muito chapado, usava demasiado o fundo, batendo a prancha sem parar, base exageradamente aberta e leitura equivocada de onda.

Tudo isso foi mudando logo no primeiro ano de Tour.

Existem dois tipos de surfistas na WSL,

o que aproveita o WCT para dar um passo à frente, aprende, evolui e torna-se melhor a cada etapa.

O outro, julga não ter nada para aprender, basta fazer o surfezinho de sempre e pronto - a mágica acontece.

Querem um exemplo do primeiro grupo ?

Tomas Hermes já é outro surfista depois de duas etapas. Tivesse se classificado com 22 anos, a história seria outra. Slater nos seus primeiros anos era uma esponja, absorvendo tudo que podia do Curren, Pottz, Occy, Carroll, Kong, Lynch, Hardman e cia.

No segundo grupo temos Jordy, Wilko, Gudang, Andino e mais.

Comparem o Ítalo de 2015 com esse de agora. Não os resultados porque logo no seu primeiro ano ele terminou em 7º. Refiro-me ao surfe - nada mais.

A diferença é gigantesca.

Sólido, arcos inteiros, firme como um poste.

Quem carregava Ítalo nos ombros era Yago e o Panda, Mineiro ia atrás com a prancha vencedora abanando. A humildade de quem badalou o sino, reverenciando o cara que vai tocar agora.

Ninguém arredou os pés da praia aguardando pela profecia do final épico e dramático do grande campeão saindo de cena triunfando no seu palco de eleição, recebendo a camisa amarela e aos prantos se despedindo dos fãs.

Esqueceram de combinar com Ítalo.

A camisa amarela agora tem dois donos e a terceira etapa dessa longa perna australiana pode apontar para uma direção que ninguém foi capaz de prever.

Ou quase.

Pedro Burckauser, do People on Tour, registrou no Instagram um momento que nos foi mais comovente que a aposentadoria do Fanning. A cabine do chuveiro tremia a cada porrada, os gritos eram da mais verdadeira e espontânea felicidade, o trinco vibrava como se fosse pular pra fora,

-    EU CONSEGUI!

-    EU CONSEGUIIIIIII!

-    UUUUUUUHHHHHHHH!

Você achava que Bells merecia sair do circuito porque é cheia, chata, previsível, não é ? Pouco espaço para aéreos (que aliás estiveram ausentes quase completamente), muitos dias de espera, um tédio enfim!

Lamento avisa-lo que Ítalo devolveu, quase sozinho, a importância para Bells.

De todos troféus do tour, apenas o Pipe Masters rivaliza em mística, tradição e emoção.

 

[Notas avulsas]

 

Aflitivo ver o surfe escalafobético do Pat G.

Já podemos abrir uma cerveja? Pergunta Parko as 10 da manhã do dia final.

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