Propósito maior

 
 

Não é todo dia que aparece alguém no meio do surf com uma veia artística tão forte quanto o filmmaker Loïc Wirth. Desde que lançou, em 2012, o trailer de seu primeiro filme, Intentio, o catarinense chamou atenção pelo estilo polido de captação e edição, levando “simples” imagens de gente pegando onda para um lugar etéreo e sensorial. E seu desenvolvimento como criador de conteúdo continua no seguinte projeto autoral, Inaippu, que está na fase final da pós-produção e conta com alguns dos melhores talentos surfísticos do Brasil e de fora, como Yago Dora, Alex Chacon, Pete Devries, os falecidos Ricardo dos Santos e Jean da Silva, e mais.

Ao longo de semanas, eu e Loïc trocamos áudios de WhatsApp no que era para ser uma simples entrevista sobre seu filme, mas acabou mutando e se tornando uma das conversas mais interessantes sobre filmes de surf que já tive. Claramente, sua arte vem de um lugar genuíno -- não apenas estético, mas com um propósito por trás. E sua inquietude mostra que Inaippu e Intentio são apenas o começo. O que você lê a seguir é uma seleção das melhores partes dessa conversa. Sim, isso é um resumo.

 

Trailer do segundo filme de Loïc, que está saindo do forno

Fala um pouquinho sobre os projetos que você tem feito ultimamente.

Estou tendo bastante sorte de trabalhar com coisas fora do meu escopo normal. Eu costumava fazer mais coisa do mundo do surf e agora andei trabalhando com outras empresas. Teve um trabalho com a WWF que foi lindo de fazer. Por mais que nos meus filmes eu sempre tente passar uma mensagem, foi algo muito massa fazer um trampo que pode fazer diferença mais rápido no mundo. Também fiz um trailer pro Tomorrowland, o festival de música. Estou descobrindo outros mundos, mas agora o meu foco principal é terminar a edição do Inaippu.

"É engraçado quando a gente fala da natureza, como se não fizéssemos parte dela. Quando a gente dá nome às coisas a gente cria barreiras"

Fala um pouco sobre o nome, o que que ele significa e porque você escolheu ele?

Inaippu vem do Tâmil, que é uma das línguas mais antigas cujas palavras se tem conhecimento. Como seres humanos, ela nos faz refletir sobre como a gente sempre teve esse caráter comunicativo. E o significado é religação, reunião. É engraçado quando a gente fala da natureza como se não fizéssemos parte dela -- quando a gente dá nome às coisas, a gente cria barreiras. E na real é a mesma coisa, né. O conceito do filme é de nos reunir a ela, por isso a ideia era ter só um ou dois surfistas na água, e nunca em lugares crowdeados, só lugares inóspitos. Eu também queria que os lugares não fossem muito reconhecíveis. Então a gente achava uma onda no Google Maps e ia -- tipo com o Marco Giorgi e o Alê Chacon, por exemplo. Quando eles saíram da água, falaram que foi o surf da vida deles.

Eu reconheço no seu estilo algo de você querer passar sensações. Quanto disso é consciente?

Fico super feliz com essa pergunta, é uma indicação muito grande de estar no caminho certo, que é fazer a pessoa sentir algo, sabe? Não só sentir vontade de ir caminhar em um lugar bonito, é sentir um pertencimento, cumplicidade, com pessoas mas também com o mundo. E quem sabe a consequência desse sentimento pode ser um respeito maior pelo planeta que a gente vive e uma consciência maior sobre como a gente vive, sobre o nosso impacto. Esse foi um pouco o pensamento. É bem consciente essa vontade de passar uma força e uma energia, tentando não ir pra um lado ou uma fórmula clichê. Pra mim, cada imagem ali tem um sentido muito forte e quero muito sempre conseguir transparecer isso.

"Meu olhar mudou, meu jeito de me expressar mudou e o meu comprometimento com o que eu realmente sinto é mais forte agora"

Você acha que essa sua visão mudou em relação a quando você fez o Intentio?

Agora há pouco, abri meu HD externo e comecei a olhar as imagens do Inaippu. E muita coisa do Intentio tá ali também. E eu fiquei pensando em como a gente aprende que imagem antiga não vale nada, tem que ser o mais recente possível. E como a gente vê as coisas com outros olhares com o tempo. Tem imagens da época do Intentio com que eu não me importava muito, e que hoje eu olho e falo, “Nossa, que imagem massa”. E vice-versa também. Não é uma questão de ser ruim ou boa, melhor ou pior, mas como nosso olhar vai mudando. A gente percebe uma música de outro jeito… Tudo é assim e eu to sentindo muito isso. Meu olhar mudou, meu jeito de me expressar mudou e o meu comprometimento com o que eu realmente sinto é mais forte agora. Eu vejo uma diferença enorme entre os dois filmes e ao mesmo tempo eu vejo a continuação de uma essência, de uma busca por sentimento através de imagens para fazer a pessoa, quem sabe, encontrar um lugar flutuante. Tirar os pés do chão mesmo.

  Pensando na vida -- e em como se comunicar -- durante as filmagens de Inaippu

Pensando na vida -- e em como se comunicar -- durante as filmagens de Inaippu

Fala do cronograma. Por quê que não saiu ainda?

É a primeira vez que eu sinto que, cara, agora é a hora, sabe? De terminar e botar ele pra fora. Quando a gente ama uma parada, é difícil soltar. Hoje, eu vejo com mais clareza os motivos de ter demorado tanto. Eu passei por vários momentos na minha cabeça, visualmente falando. É muito louco isso, eu olhei as imagens de antes como se vários diretores diferentes -- vários Loïcs -- tivessem passado pelas mesmas imagens. E nenhum deles falava “Ah, tá pronto”. Agora foi o primeiro momento em que eu cheguei e falei, “Cara, agora eu vejo ele pronto, quero muito editar e terminar”. Foi preciso todo esse processo. Também tinha uma parte minha que estava muito saturada de ver sair todo dia várias edições novas, que já eram esquecidas um segundo depois. Todos os clipes iguais, as mesma imagens, filmadas com as mesmas câmeras. Todos. E eu pensava: tudo que é antigo já é tão descartável que eu quero mais, como crítica, é não ser imediatista, não lançar só porque tem que ser recente. Eu vejo um filme antigo hoje em dia e, cara, eu acho lindo. Eu vejo o mesmo filme do Tarkovski e acho a cinematografia mais incrível até hoje. Então teve um lado meu de ir contra isso tudo. E eu agradeço muito pelo carinho, confiança e paciência dos surfistas, porque podia ser muito difícil pra eles entenderem. O Marco fez o melhor surf da vida e tem que esperar um tempão até sair o filme.

"Desde o assassinato da Marielle, eu tenho pensado muito. E teve momentos em que eu me perguntei: 'Mas o que eu to fazendo, um filme de surf? Tem tanta coisa acontecendo no mundo e é isso que eu to fazendo?'”

De onde você traz referências? O que que te inspira?

Eu não tenho referências tipo, “Ah, o diretor tal em qualquer obra que ele faça”. Às vezes são fragmentos de um filme, às vezes é uma imagem -- que talvez eu nem tenha gostado do resto do filme, mas aquela imagem me tocou. Mas, com certeza, tem algumas imagens que o Tarkovsky faz tocam na alma. E tem músicas que me inspiram muito. Acho que música é o que mais me inspira pra filmar. Minhas referências de cinema vieram depois de eu começar a filmar, então eu me sinto muito sortudo porque isso ajudou a criar meu próprio olhar. Gosto muito de Jean Jeunet, que é um diretor francês, e tem muitos artistas no Vimeo -- vídeos que eu salvo mas não lembro o nome. E isso fora do surf, né? Dentro do surf, Pablo Aguiar é uma referência incrível e enorme em todos os âmbitos, tanto quanto artista como pessoa. Pietro França, que é o core do que é filmar surf… tem vários nomes, mas acho legal não focar no surf, porque tem outras coisas além disso.

Como seria seu projeto dos sonhos? Se pudesse fazer o que você quiser, do jeito que você quiser, sem pensar em grana.

Eu tenho páginas e páginas escritas de ideias de roteiros para cinema. E eu quero muito fazê-los. Mas o cenário ideal seria poder usar as câmeras que eu quisesse, de película, e conseguir construir cenários. Eu gosto muito de desenhar também -- eu consigo traduzir certas ideias melhor desenhando. E penso nisso também, em começar produções com desenho, animação, e ver o que pode sair de lá. Enfim, infinitas possibilidades pra tentar, de várias formas possíveis, expressar as ideias que a gente tem dentro da gente. Eu diria que eu quero transformar poesia em filme, sabe?

Tem mais alguma coisa que você queira acrescentar aqui na conversa?

Desde o assassinato da Marielle, eu tenho pensado muito. E teve momentos em que eu me perguntei: “Mas o que eu tô fazendo, um filme de surf? Tem tanta coisa acontecendo no mundo e é isso que eu tô fazendo?” Por mais que eu sempre tivesse um propósito firme, que nasceu com o respeito à natureza, eu tenho sentido muitas dores com o que a gente faz entre os seres humanos. Teve momentos em que eu senti que aquilo que eu estava dizendo não abrangia tudo que eu queria dizer, sabe? Estou editando aqui e eu sinto que, cara, com o Inaippu, quero lembrar às pessoas o quão incrível é o mundo que a gente vive, o quão lindo é, e quem sabe por consequência disso a gente se sinta mais unido. E respeite mais as coisas, o mundo e a si mesmo por consequência.

[ML]

  O cara por trás das lentes e ideias

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