O adeus sem despedida

 

Por Lucas De Nardi

 

Recentemente passei por uma das maiores mudanças da minha vida. Por mais de 16 anos, dediquei-me integralmente à minha escola de yoga. O yoga entrou em minha vida quando eu era muito jovem, por influência de uma paixão mais antiga: o surf. Na época, queria ser surfista profissional e vi nesta prática uma forma de ganhar mais consciência corporal, controle emocional e foco da mente. Tudo isso foi alcançado com tanta eficácia que o yoga tomou o lugar do surf. E virou profissão.

 
 O autor, Lucas De Nardi, em algum lugar da Indonésia. Foto Ricardo Estevez

O autor, Lucas De Nardi, em algum lugar da Indonésia. Foto Ricardo Estevez

 

O surf, no entanto, nunca foi esquecido, manteve-se sempre ali, subjacente. Espreitando uma oportunidade. Atento à qualquer brecha para ganhar mais espaço em minha vida.

Há cerca de 4 anos, o surf finalmente teve essa oportunidade. Na época, tomei a decisão de que passaria alguns meses no Hawaii. Na temporada de 16/17, o projeto se concretizou. Guardei dinheiro, aluguei um studio, comprei um carro e lá estava eu, de novembro a março, testemunhando tudo que acontecia no 7 mile miracle. E surfando o máximo que aguentava.

Depois de 5 meses no Hawaii, voltar para Porto Alegre foi difícil. No entanto, agora trazia a certeza de que não iria ficar ali por muito mais tempo. No meio do ano passado, tornei-me sócio do Sibon Praya, um barco que faz surftrips pelas ilhas Mentawai, na Indonésia. Um business arriscado e altamente complexo. Onde muitos enxergariam empecilhos, eu via uma oportunidade para a mudança que tanto almejava: morar na praia, surfar muito e trabalhar com o esporte que tanto amo. E ainda correndo o risco de continuar dando aulas de yoga.

 
 A nova casa de Lucas, o Sibon Praya. Foto Ricardo Estevez

A nova casa de Lucas, o Sibon Praya. Foto Ricardo Estevez

 

Tudo isso nos traz de volta ao início do texto: em março deste ano eu oficialmente deixei de ser sócio da escola que fundei. E uma das maiores lições deste processo veio justamente na reta final do desligamento: a despedida.

Entrar na casa onde funciona a escola para um adeus definitivo foi difícil. Olhava para cada canto e sentia uma ponta de tristeza em pensar que não faria mais parte daquele lugar tão especial, construído com tanto amor e zelo. Olhar nos olhos de cada professor, alguns deles com quem trabalhei desde a abertura da escola, e dizer adeus não foi uma tarefa fácil. Ministrar a última aula, agradecer aos alunos pelo apoio. Escrever um texto de despedida. Tudo foi sentido com profundidade, mas com o entendimento de que era parte do processo. Enquanto me afastava, enxergava tudo com a urgência da última vez. A rotina pode ser uma grande facilitadora de nossas vidas, no entanto traz consigo o ônus de ofuscar aos poucos o valor do que está à nossa volta. O colorido ganha tons acinzentados, torna-se comum. O encantamento do início torna-se trivial, como atravessar a rua. No entanto, se você imaginar que será privado de tudo que é corriqueiro em sua vida, o valor das coisas lhe saltará aos olhos.

 
 Buscando distanciamento. Foto Arquivo Pessoal

Buscando distanciamento. Foto Arquivo Pessoal

 

Enquanto ia embora, experimentei exatamente isso. Me despedia dos professores e enxergava, com a mesma intensidade dos seus abraços, as virtudes de cada um. Olhava-os nos olhos e sentia claramente a amizade e o carinho verdadeiros que o convívio diário pode soterrar. Caminhava pela casa e cada canto brilhava pois sabia que aquele ambiente seria raro em minha nova vida.

E ao viver tudo isso, eu compreendi mais um valor da meditação.

O cerne do yoga é a meditação. Todo o entorno, as outras técnicas, são apenas ferramentas que criam o ambiente interno adequado à meditação. Ela, por sua vez, visa mostrar ao praticante aquilo que ele realmente é. Ou seja, aquilo que sobra depois que você se afasta de tudo o que imagina ser. Depois que desmontam-se todos os papéis e retiram-se todas as máscaras. Não que papéis e máscaras sejam inúteis em nossas vidas. Nós objetivamente precisamos deles, mas é importante saber que não somos aquilo. Basicamente, a meditação é despir-se de ilusões que vamos colecionando ao longo de nossa história.

O processo da meditação cria, inevitavelmente, distanciamento. Ao se afastar do que você percebe através dos sentidos e do que gera pelo mecanismo mental, você experimenta aquilo que você é, em oposição ao que pensava ser. Ganha discernimento entre o que existe em você a partir de influências externas e aquilo que é verdadeiro e imutável em si. Desenvolve-se a capacidade de valorizar o que é certo para o seu propósito e escolher conscientemente o caminho a ser seguido para concretizar a sua vocação mais íntima.

 
 Lucas em HT's. Foto Ricardo Estevez

Lucas em HT's. Foto Ricardo Estevez

 

A meditação, por esta ótica, nos mostra o que temos de mais importante em nossas vidas, mas sem que precisemos nos despedir delas para reconhecer o seu valor. Dando às pessoas, situações e oportunidades o real apreço que elas merecem. Se você, então, mantém a disciplina proposta pelo yoga, as coisas importantes não se tornam comuns, porque diariamente o valor de tudo é atualizado pelo próprio exercício da meditação. Ou, sendo mais objetivo, pelo distanciamento que ela produz.

Portanto, se você olha para sua vida e não gosta do que vê, talvez seja necessária uma grande mudança. No entanto, se sua vida caminha para a realização das coisas que você almejou e mesmo assim não se sente realizado, talvez você esteja tão próximo de tudo que já não consegue enxergar claramente. Talvez, é hora de dizer adeus, mas sem se despedir. É hora de se afastar, sem ir embora. Talvez, em sua vida, seja hora de meditação.

 
 

Cinco meses de Hawaii