Margaret, Freud, Hemingway e o medo da morte

 

(ou, quem diria, Margaret foi parar no Irajá…)

Por Julio Adler

 

Vamos imaginar, só pelo exercício, um mundo perfeito onde todos concordamos com a decisão da WSL de cancelar uma etapa depois de dois ataques de tubarão no mesmo dia.

Nesse cenário de ilusão e fraternidade, surfistas se abraçariam vigorosamente ao perceber que vidas foram salvas (poupadas!) e pontos divididos sem prejuízo aos líderes do ranking, ninguém foi humilhado publicamente recusando-se a surfar águas infestadas de furiosos tubarões e finalmente, mais importante de tudo, nenhum seguidor foi perdido no Instagram.

A primeira reação das pessoas mais próximas foi de indignação.

O Supremo Tribunal das redes sociais analisou minuciosamente cada detalhe e emergiu toda sorte de biólogos marinhos e até, pasmem!, ictiólogos (Ictiologia é o ramo da zoologia devotado ao estudo dos peixes. Inclui os peixes com ossos, os peixes cartilaginosos como os tubarões e as arraias, e os peixes sem mandíbula, segundo a santificada Wikipedia) sugerindo vereditos que iam do banimento total da Oceania do atlas geográfico escolar até uma alteração na regra das baterias Homem x Homem, recomendando em caso de extremo risco, uma disputa de Counter Strike (é a WSL no Twitch!), PUBG ou porrinha.

Sem brincadeiras, resolvi ir mais fundo no assunto, que  se resume ao medo da morte.

Ou ainda, o pavor de uma morte violenta.

Um escritor que dedicou boa parte da sua obra para entender a relação do homem com o heroísmo e a inevitável morte foi Ernest Hemingway.

 
 Ernest Hemingway Foto: Hemingway Archives

Ernest Hemingway Foto: Hemingway Archives

 

Hemingway era obcecado com a ideia da morte, durante sua vida fez de tudo para testar seus limites (dele e da morte): pesca em alto mar, boxe, caça de grandes animais, esteve nas duas grandes guerras, touradas e, teste final, estourou os miolos com um tiro de espingarda aos 61 anos de idade.

 
 Ernest Hemingway Foto: Hemingway Archives

Ernest Hemingway Foto: Hemingway Archives

 

Outro esporte arriscado que Hemingway praticava impiedosamente era o casamento - foram quatro ao todo, quase sem intervalos entre eles.

No livro Death in the Afternoon (Morte ao entardecer, 1932)

Hemingway vai de encontro ao seu tema predileto e nos ajuda a entender o mais primitivo e fundamental medo da experiência humana - medo da morte violenta.

Ele confessa logo nas primeiras páginas,

O único lugar onde você pode ver a vida e a morte, i. e., morte violenta agora que as guerras terminaram, estava na arena de touros e eu queria muito ir para a Espanha onde eu pudesse estudar isso. Eu estava tentando aprender a escrever, começando com as coisas mais simples, e uma das coisas mais simples de todas e a mais fundamental é a morte violenta.

Para o escritor, a tourada era metáfora para a vida, um ritual didático dos nossos desafios diários, com todos elementos necessários.

Escolho Hemingway e as touradas como exemplo porque historicamente o surfe sempre esteve associado ao heroísmo do toureiro.

As centenas de fotos de ondas gigantescamente mortais, com legenda, cool under pressure, calmo sob pressão, numa tradução preguiçosa, remetem ao toureiro frio diante da fúria do touro.

Por favor, não vamos entrar no debate da desumanidade das touradas, o tempo era início do século XX e as questões humanitárias tinham outra dimensão.

Nos anos 50 e 60, era comum surfistas de ondas grandes testar cojones enfrentando touros numa festa em Pamplona ou qualquer cidadezinha do México ou Peru.

 Joey Cabell

Joey Cabell

Não se percam ainda, falamos ainda do medo da morte e as diferentes idéias de heroísmo.

Enfrentar touros ou ondas gigantes pode ser encarado como heroísmo, mas conte isso à um Sírio ou Afegão e a perspectiva muda completamente - continua sendo uma demonstração extraordinária de coragem, mas muito distante do heroísmo de um rebelde idealista enfrentando um exército cego de ódio.

 
 

O pai da psicanálise, Freud, também estudou o medo do morte e concluiu que,

como não passamos pela experiência da morte (nunca morremos antes) e como a morte não existe em nosso inconsciente, não podemos realmente temer a própria morte.

Na verdade, afirmava Freud, podemos temer outra coisa - como abandono, castração, conflitos não resolvidos ou ainda, o medo da morte pode ser o resultado de um sentimento de culpa.

Freud também determina que o medo da morte nos domina mais do que sabemos.

De volta à WSL e seus conflitos, a decisão de interromper um campeonato e brutalmente cancelá-lo sem precedentes trará sérias consequências à entidade.

Conceituais, esportivas e, principalmente, judiciais, porque agora há o risco legal de exigir da instituição, ou promotores de eventos ao redor do mundo, alguma forma de indenização por danos físicos, mentais ou desportivos.

O resultado disso a longo prazo pode trazer um sem número de adiamentos e cancelamentos quando o argumento do perigo de vida (ou a mera ameaça) estiver em jogo.

O fato de termos nesse momento uma CEO que não participa (e nunca participou) da atividade que preside, deixa a WSL ainda mais exposta.

A tradição não pode ser deixada de lado, nem esquecida.

Não pela nostalgia de alguns que lamentam a modernidade como um mal dos nossos tempos, nada disso.

O Surfe como esporte, como competição, tem sua própria mitologia, seus momentos de heroísmo e irresponsabilidade que construíram a imagem de liberdade e bravura que a WSL hoje tenta vender.

Como no Smirnoff Pro Am em 1974, quando 5 dos 18 classificados (e mesmo alguns havaianos) se negavam a surfar uma Baía de Waimea com 30/40 pés e séries fechando de um lado ao outro, logo nas primeiras horas daquela manhã de 28 de novembro.

O organizador do evento, Fred Hemmings, ele mesmo campeão mundial em Porto Rico em 1968 e amante das ondas grandes, virou para os competidores e fez a provocação,

Se eu entrar no mar e descer uma onda, todos vocês serão obrigados a entrar também…

Mark Richards, com 17 anos, nunca tinha visto nada parecido com aquelas montanhas d’água e enfrentou seus demônios para transformar-se num dos maiores surfistas de todos tempos.

Quem venceu o evento, épico!, foi Reno Abellira.

Gabriel Medina quando ganhou no Tahiti teve uma experiência semelhante ao encarar Teahupoo no limite entre a perfeição e o moedor de carne.

E nem foi preciso Kieren Perrow ameaçar ninguém.

O cancelamento da etapa de Margaret River expõe fragilidades da WSL para lidar com problemas, principalmente quando envolvem opinião pública.

A resposta do governo do Oeste Australiano veio rapidamente depois do anúncio e o financiamento da etapa envolve gerenciamento de riscos por parte de quem recebe o dinheiro público.

Existe um contrato que prevê a realização de mais um campeonato em 2019 e também existe a possibilidade da recusa dos surfistas em comparecer.

Algo que nós aqui no Brasil já estamos acostumados, desde os primórdios por motivos de pirataria da marcas, até simplesmente a antipatia pessoal pelo lugar e assédio dos fãs e jornalistas - que muitas vezes se confundem entre si.

O surfe profissional em 2018 depende muito do turismo para sobreviver. Todas etapas que tem dinheiro público recebem investimento do turismo, se você remove essa confiança, não sobra muita coisa.

Exceto talvez pelas ondas artificiais.

Sem riscos de interferência da natureza.

Mas isso, envolve outro tipo de interpretação, mais poética.

Pedro Cezar escreveu sobre o sonho do Fernando Aguirre de ter piscinas de ondas no futuro (estávamos na década de 90) e a única água salgada do texto eram as lágrimas.

Não seremos tão trágicos.

Nem otimistas.

 
 

Jordy Smith em Margs, após o ataque de tubarão.