Chamado marítimo

 
 

Tem gente que nasce perto do mar. E tem aquelas outras pessoas que, mesmo sem este contato inicial, nascem com um fascínio por tudo o que é mar -- e tudo que é do mar. A fotógrafa paulistana Marcela Carneiro (a Marsy), é dessas que sentiu o chamado marítimo desde pequena. Na faculdade, começou a estudar economia, mas foi puxada, aos poucos, para a criatividade inerente aos oceanos. Das planilhas para os estudos sobre cinema, filosofia e história da arte, foi parar na publicidade e, mais tarde se estabeleceu como designer gráfica e ilustradora, abrindo seu próprio estúdio com alguns amigos. Mas as ondas continuaram batendo e um mergulho mais fundo era necessário. Quando se aproximou mais do surf, através do santista Cisco Araña, a fotografia surgiu naturalmente como meio de expressão para tudo aquilo que queria retratar. Suas fotos captam de maneira única o habitat dos surfistas -- um limiar líquido entre a terra e as profundezas do inconsciente -- e geram uma curiosidade estranhamente familiar a nós, surfistas. E justamente por isso, fomos perguntar à Marsy.

 
 A água e a relação ser humano x mar são os principais objetos da fotógrafa.

A água e a relação ser humano x mar são os principais objetos da fotógrafa.

Você trabalhou como designer por muito tempo, né?

Eu comecei em agências de publicidade, mas era um trabalho que não tinha um direcionamento artístico, poderia vir desde uma embalagem de ração pra cachorro até um anúncio de carro, não dava para trabalhar muito a estética. Depois disso, fui chamada para trabalhar em uma marca de beachwear, que tinha tudo a ver com o tema, porque eu sempre fui muito ligada ao mar e ao surf. Gostei muito, mas eu não me via nesses moldes empresariais, então acabei me juntando a dois amigos e a gente fundou a Super Duper, onde eu estou há dois anos. E está sendo uma experiência muito legal, porque posso trazer um pouco da minha linguagem e estética, com essa liberdade criativa maior do que só atendendo empresa ou agência.

 Instagram de fotógrafa/designer não é para amadores... @a.mar.sea

Instagram de fotógrafa/designer não é para amadores... @a.mar.sea

E de onde surgiu o interesse pela fotografia?

Olha, posso te dizer que o interesse pela fotografia veio muito por acaso. A fotografia é uma forma que eu achei de registrar momentos que meio que param na minha vida. É uma coisa que nem sei dá pra explicar direito, mas quando eu vejo alguma coisa -- quando eu vejo o movimento da água, uma pessoa interagindo com a água, tem um momento ali, uma fração de segundo que eu sei que quero captar. E por mais que eu tenha muitas fotografias mentais, vi que eu poderia fazer isso materialmente. Então comecei a fotografar, e depois disso comecei a buscar referências, acompanha mais a fotografia, principalmente da vida marinha e do mar. E aí eu comecei a ver os tipos de texturas, interpretações diferentes da água e acabou virando uma paixão para mim.  

E o surf, como entrou na sua vida?

O surf foi uma batalha conquistada na minha vida. Eu era bem o estereótipo da menininha, que fazia o Ballet e tudo mais. Eu amava natação, mas minha mãe me tirou ainda nova, por achar que eu tava ficando com o ombro largo. Depois de muita insistência, eu consegui ter a minha primeira aula de surf, com 12 anos, e eu nunca vou esquecer. Acabei deixando a ideia do surf de lado por um tempo, mas por ter família em Fortaleza, experimentei o kitesurf e acendeu a luzinha de novo. E agora que tenho autonomia, voltei pro surf de vez. Então eu descobri a escola do Cisco Araña, em Santos, que me mostrou uma relação completamente diferente com o esporte. Ali, me encontrei num nível espiritual e, de uns dois anos para cá, o surf literalmente mudou minha vida.

Para onde você quer ir com a fotografia, criativamente falando?

Na verdade, acho que é até o oposto. É onde que a fotografia está me levando, criativamente, porque é uma coisa que eu percebo que está fora do meu alcance. Quem tem muito contato com o mar sabe que ele tem vontade própria. Então você só está ali interagindo e entrando em contato com você mesmo. Quando eu entro com a câmera na água, é meio que uma surpresa. É o dia, como as ondas estão, se está violento, ou está calmo, se está sereno… então eu acho que, criativamente falando, é uma caixinha de surpresas. Vou fazer um trocadilho: um mar de possibilidades (risos).

O que você busca retratar?

Eu vejo o mar como um grande subconsciente -- o inconsciente. É algo que a gente não consegue definir pela superfície, um universo muito mais profundo a que a gente tem pouco acesso. Eu acredito que as minhas fotos são aquele segundo, aquele momento, aquela forma como que eu consigo tocar nesse subconsciente, enxergar ele e ter clareza através dele. Naquele momento você vê que algo ali que te toca, e você não sabe muito bem da onde vem, mas você sente que aquilo é um lugar conhecido. E eu vejo a relação das pessoas na água dessa forma. É como se cada pessoa dentro da água fosse uma gota, que quando cai no mar, se torna uma coisa única. E você não tem como dividir uma gota do mar. Acho que o mar traz essa sensação para muita gente, de alegria, medo, ou qualquer coisa que está sentindo no subconsciente, sem ainda perceber.

Você pretende fazer fotos de ação -- gente surfando, mesmo -- ou a parada é outra?

Eu tenho muita vontade de fazer fotos com mais movimento. Até agora, acho que eu captei muito essa coisa do emotivo, no sentido de conexão e plenitude, mas acho que também existe um outro extremo, que é da adrenalina e da conquista, de estar lá e enfrentar um medo. Acho que até por isso eu tenha escolhido Portugal como meu próximo destino, por conta de lugares como Nazaré, que é tipo todos os meus sonhos só que na vida real -- um maremoto gigante. Eu tenho vontade de pegar mais esse outro lado que não é tão sereno, mas que tem mais fogo.

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Por quê Portugal? E para onde mais você pretende ir?

Meu próximo ponto é Portugal porque eu tenho muita vontade de ir para Nazaré e ter contato com essas ondas gigantes que só vejo em sonho. Tirando isso, acho que o próximo destino seria Austrália, onde a natureza é muito presente. E eu acho que Bali, e o sonho, que é ir para o Hawaii. Uma vez na Austrália, esses lugares estão um pouco mais próximos. Mas pelos próximos dois anos estarei em Portugal. Acho importante ir para o máximo de lugares possível, com temperaturas diferentes, movimentos diferentes e, principalmente, com mares diferentes. Porque em cada mar tem uma reação, pessoas e conexões diferentes. Então o meu objetivo é explorar e conhecer, até para conhecer mais sobre mim.

O que te inspira? De onde você tira referências?

Minha grande referência é uma artista chamada Zaria Forman. Eu achava que as obras dela eram fotografias do mar, quando na verdade eram desenhos feitos à mão com giz pastel, hiper-realistas. Mais pra frente, acabei descobrindo qual era a intenção dela com esses trabalhos -- ela queria conscientizar as pessoas quanto ao aquecimento global e pensou, "Por quê eu não posso congelar esse micro-momento das geleiras derretendo e transformar isso em algo bonito para conscientizar as pessoas?" Nossa, isso para mim foi um bem, foi quando eu entendi o que estava fazendo. Depois, comecei a ver um monte de fotógrafos que admiro muito, como o Morgan Maassen, Simon Fitz, Cèdric Dasesson, Woody Gooch e o Ray Collins, que tem uma leitura de texturas de água incrível. E todos os fotógrafos que também trabalham com a Desillusion, que tem uma pegada bem densa na fotografia de surf.

O que está rolando de projeto, ultimamente?

Ainda está nas primeiras fases, de roteirização, um projeto com que eu quero falar sobre a relação do ser humano com o mar, e principalmente do surf como uma ferramenta de cura. Esse é um trabalho que eu quero fazer com o Cisco Araña, que é meu mestre de longboard lá de Santos. O Cisco faz um trabalho impecável, ele conseguiu a aprovação de um projeto para a reforma do Posto 3, que vai ser a primeira escola voltada para crianças com deficiência. Ele foi o primeiro cara a fazer uma prancha para cegos e uma outra prancha multifuncional para qualquer limitação que a pessoa tenha. É um trabalho incrível que eu vejo diariamente quando frequento a escola do Cisco, e dá para ver claramente a transformação do surf na vida daquelas pessoas.

E quais são os próximos passos? Seus planos?

Daqui a quatro meses vou para Portugal, ficar uns dois anos me especializando em fotografia. Já tenho uma lista enorme de praias, o roteiro de toda a costa que vou fazer lá. Estou especialmente ansiosa para Nazaré, para entrar em contato com essas ondas gigantes do subconsciente. E por enquanto é isso. É tentar cada vez mais explorar e ir um pouco mais para esse lado com mais ação no surf. Quero ter mais contato com mares diferentes, pessoas diferentes e tipos de surf diferentes.

 Com a lente virada para o outro lado, por vez.

Com a lente virada para o outro lado, por vez.