NOIA

 

Água e lisergia com Chippa, Dion e Franklin Serpa.

Texto João Francisco Hein // Fotos pablo aguiar e marcos ribas

 Dion e Chippa, desfrutam um ambiente novo - pra eles.

Dion e Chippa, desfrutam um ambiente novo - pra eles.

 

O loki de ontem pode virar o sábio de anteontem. Ou vice-versa. Num processo constante e deslocado, recebemos e embaralhamos os corpos e perspectivas de mais três surfistas que caminham à margem. 
Por dez dias, criamos as ondas e experimentamos cada momento a gota gota. Do Rio de Janeiro a Fernando de Noronha. Do Volvão ao bugre selvagem. Bailamos no Parque Laje e no mar. Sem tênis e sem quilhas. Instabilidade emocional pode ser bom. Viva a noia.

Em 2014, fui editor da Void nº 100. Era uma edição especial pelo número redondo e dei um gás para ela ficar loki. Parte disso foi a entrevista que armei com Dion Agius, chamada "Bicho Solto". O título era uma onda de um texto publicado pelo jornalista Harry Patchett, em que ele comparava o Dion com o emecee Lil Wayne: ambos multifacetados, dinâmicos e criativos. Parece estranho mas quando você conhece o bicho, entende o que ele quis dizer.

Natural da Tasmânia, uma ilha exótica e surreal no sul da Austrália, Dion é conhecido por fazer um bem bolado de aéreos agressivos e tubos cavernosos em suas pranchas pretas. Mas isso não é só. Ele faz parte de uma geração de surfistas que expressam a contracultura do surf ao propor novos formatos e linguagens. Com Warren Smith, ele produziu a "Proxy Noise", uma revista online pancada. Ao lado de Joe G, diretor audiovisual da Globe, formou uma dupla que elevou o nível dos filmes de surf numa pira de invenção de histórias lisérgicas e sensuais complementada com os fitas quebrando muito na água (e algumas vezes fora dela). Junto com os parças Kai Neville e Mitch Coleborn criou a Ephoke, marca de óculos progressiva que você já deve conhecer.

 
 Franklin e Chippa.

Franklin e Chippa.

 
O Craig (Anderson) e o Dane (Reynolds) vieram para o Brasil em 2015 e nos disseram que o Dion era um dos caras mais mais lokis que eles conheciam. No ano seguinte, vieram o Ozzy (Wrong) e o Ryan (Burch) e, mais uma vez, o nome do Dion surgiu nas conversas. Era um sinal. Quando chegou a hora de convidar alguém para 2017 não tivemos dúvidas. Mandei um email para o Dion, que aceitou na hora vir. Eu disse que cabia mais um no bonde e ele arrastou o Chippa (Wilson). Os dois estavam em turnê para o lançamento do filme da Ephoke dirigido pelo Kai Neville: “Listen Now, Misty Dawn”.
— Pedro Perdigão, Void
 
 Chippa

Chippa

 

O Chippa é um dos surfistas mais inventivos da atualidade. Ele é um daqueles caras, como o Matt Meola e o Noa Deane, que quando sai um vídeo na internet, todo mundo larga tudo para assistir. Local de Cabarita, subúrbio de Sydney, Chippa tem um refúgio: o "Rancho Relaxo". Enquanto não está literalmente viajando na procura de ondas remotas, fica viajando em sua oficina de carros e motos. Vento na cara e autonomia, nas estrada e nas ondas. Até o Kelly (Slater) costuma babar o ovo dele. Outro lance louco é o corpo fechado pelas tatoos. Artes sacras, animais, frases e outros fitas. Na sua busca transgressora, também é sócio da "Drag Boards Co", marca de pranchas de... bodyboard (morey, mané). Ano passado soltaram um vídeo das espuminhas chamado "Rip", que causou. Foi o suficiente para deixar grande parte das produções de surf na areia.

 
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Os malucos tavam vindo. Daí tinha que completar o time com os doido daqui. Dois integrantes habituais das barcas passadas não iam conseguir colar nessa. O Lucas Bolovotário, que tava na missão de ser pai pela primeira vez (desculpinha fraca). E o Kiko, que tava na função insana do Mimpi. Eles não fizeram falta, mas na próxima eles voltam. Liguei para os meus parceiros catarinas: Marcos Ribas, o amante dos flairs e cogumelos e, o Pablo Aguiar, vulgo maior diretor de filmes de surf do Brasil quiçá do mundo. E, para os gringos não ficarem economizando na água, chamamos o Franklin (Serpa).
— Pedro Perdigão, Void
 
 Franklin Serpa

Franklin Serpa

 

O Franklin é um dos surfistas brasileiros mais sinistros de hoje. Longe dos holofotes do “Brazilian Storm”, o cabra tá sempre correndo atrás. Como não é de se espantar, isso é uma missão ingrata no nosso país. Nascido em Pernambuco, crescido e vivido na Bahia e frequentador assíduo do Rio de Janeiro, Franklin é um demônio na água. Daqueles de criar platéia na areia. Ele tá sempre buscando as rampas mais íngremes para voar mais alto e os tubos mais entocados para nunca esquecer que sempre tem uma luz no final do túnel.

 
 Dion Agius

Dion Agius

 

Dion sobre a favela

Eu sempre pensei que uma favela era mais ... como ... uma favela, sabe? Mais comparável a uma área muito pobre de qualquer outro país. Tipo, você vai para a Indonésia ou algo assim e você vê todas essas pequenas favelas e elas são muito pobres e elas são provavelmente muito, muito perigosas para alguns forasteiros. As favelas no Rio não eram assim, elas apenas parecem um outro sistema de pessoas coexistindo. Não estavam vivendo na pobreza ou tão pobre quanto eu pensava que seria. Era como um sistema diferente de vida, sabe? Ao contrário de ... obviamente há lugares realmente ricos na praia e tudo, mas parecia apenas muito mais organizado e muito mais limpo e melhor do que na minha imaginação. Eu simplesmente não sabia o que esperar. Me disseram que ia ser uma área muito pobre, mas alguns dos lugares que nós vimos eram pequenos apartamentos realmente bonitos e todo mundo parece estar vivendo tão próximo um ao. É uma coisa realmente linda que eles têm e acho que estávamos em um grupo de muita sorte. Talvez uma das mais bonitas favelas. Eu não sei se é o mesmo em todas elas, mas havia um senso de comunidade muito legal lá. Foi muito diferente do que eu esperava. Eu só esperava ser muito mais assustador, mais sujo e mais sombrio, mas foi realmente muito legal.

 
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Franklin sobre a trip

Cara, essa trip foi uma explosão de coisas novas na minha vida. Porque eu sempre tive a visão dos caras, mas no mundo da internet, vídeo, televisão. E estar com os eles na água, tipo, a vibe que os caras transmitem, independente de tu acertar a manobra ou não, tipo, os caras falavam "go, go, go", vai na boa e tipo, ficavam olhando tua onda. Tu mandava a manobra, os caras ficavam amarradões e comentavam "cara, aquela manobra foi épica", "foi irado", "como que tu mandou aquilo ali?". Eu ficava de cara até, como que o cara tá me perguntando isso? Achei muito natural a sinceridade, sacou? A gente fez várias sessões e em todas foi a mesma coisa, os caras sempre interessados em ver a sua onda, não tem aquela competição que eu vejo nos brasileiros às vezes, que começa a ficar até chato, sacou? Tu manda uma manobra irada, mas o outro quer mandar uma mais irada e depois isso acaba meio que cortando aquela vibe de, no final, tipo "porra, que animal!". No final, os caras vinham davam high-five e falavam "tua manobra foi foda". Às vezes, sinto que essa camaradagem no surf no Brasil começou a ser um pouco perdida. A galera começou a entrar mais num clima muito competitivo de imagem, sacou? E foi tão diferente, ter a visão que eu tinha dos caras, pra o que eles são pessoalmente, o que foi quase um choque. Achei que os caras iam ser mais nariz em pé ou mais quietão, mas nada, os caras são super a vontade e amarradões mesmo que eu tava surfando com eles, achei isso muito foda.

 
 Chippa em Noronha.

Chippa em Noronha.

 

* Texto publicado originalmente na edição impressa dos nossos camaradas da Void. NOIA foi dirigido por Pedro Perdigão, editado por pablo aguiar e contou com apoio da Globe e co-produção do Canal Off.