LOÏC WIRTH // Dedo de água

 

Texto e Fotos por Loïc Wirth

A brincadeira era encostar os dedos dos pés na água, que passava voando por baixo. A física fazia o impacto inicial ser forte, mas se segurasse firme a perna, sentia a ponta do dedo cortar a água sem fazer barulho, sem jogar água pro alto. Como se por aquele tempo, dedo fosse gota, indo mais rápido que todas as outras.

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O barco ia na velocidade constante nessa água que calma, não parecia ser mar. Estávamos quase chegando, mas uma hora atrás, antes de virar na ponta da ilha que deu nessa baía calma, sentíamos ondas de 8 pés passando por baixo do barco.

Nesse outro lado da ponta da ilha, o mar parecia mar. Enorme, forte, paciente e atemporal.

Atemporal. Como a costa montanhosa que estava tão perto e tão longe do nosso barco de pesca, hoje, pra gente, navio. Não ficaríamos surpresos nem por um segundo se um dinossauro saísse por dentre as árvores pra ver o que estávamos fazendo ali. Para ver o que aqueles pequenos seres, num amontoado de madeira, faziam boiando nesse mar enquanto bolando formas ambiciosas demais de chegar à praia.

 Marco Giorgi, irrigando o mar.

Marco Giorgi, irrigando o mar.

Não sabíamos que a quilômetros dali, outros pequenos seres que surfam estavam chamando esse de ‘’o swell da década’’ no arquipélago indonesiano. Não sabíamos, porque onde estávamos não existia sinal de nada. Voltamos no tempo, sem máquinas, de carro, barco e curiosidade. Contemplávamos as séries massivas, calculando as brechas de tempo em que o canal pra praia não fechava.

Marco virou pra mim e falou por trás dos óculos escuros que aquela era talvez a melhor onda que ele já viu. Eu senti o peso daquela frase, porque o Marco já viu o mundo em questão de ondas e não fala isso facilmente.

A onda que ele achou no Google Maps e planejamos por tempos alcançar, agora estava na nossa frente, e era mais do que podíamos sonhar.

Olhamos para nossos capitães, pescadores que vínhamos de conhecer e fizemos sinal de ‘’vamos tentar’’. Enquanto escolhendo a direção do barco com o pé e acelerando com as mãos, o piloto acelerou como quem não sente medo e que sabe nadar num mar daqueles. Como quem pensa que o barco feito a mão que pilota é invencível. Que o motor é inquebrável. Seu foco maior era em seu cigarro, enquanto Marco e eu sentíamos o medo real das conseqüências de uma onda daquelas fechar na gente no canal.

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Pouco antes de chegar na zona de perigo, decidimos abortar e fizemos sinal ao nosso novo amigo, que desacelerou e deu meia volta, indiferente. Exploramos um pouco mais a costa para achar outras brechas e caminhar, mas o medo de cobras e dinossauros nos fez abortar e voltar pra vila de pescadores de onde saímos.

Chegamos nesta vila no dia anterior por estradas onde até motos tinham dificuldade. Tínhamos água, miojos e cebolinhas roxas, pra sobreviver por 3 dias acampando na praia que, meses antes, era apenas um print screen, perguntando ‘’vamos?’’ - Marco gastou um ponto de interrogação à toa porque sabia que receberia um sim em troca.

Enquanto brincava de transformar dedo em gota, o cérebro se sentia frustrado, como se houvéssemos fracassado em alguma coisa. A primeira hora foi um pouco assim. Arrependidos de ter mal calculado o swell, que chegou antes do que previmos nessa ilha. De ver que não estávamos tão bem equipados para sobreviver imprevistos enquanto na praia deserta por 3 dias. Sem saber se os pescadores haviam realmente entendido 3 dias ou 3 meses, pra voltar e nos buscar.

Tudo foi feito no impulso, um impulso lindo, que serviu pra agora, enquanto escrevo, estar imaginando o dia que vamos tentar de novo.

Ao chegar de volta em terra firme, a vila inteira nos recepcionou junto com as estrelas que começavam a aparecer, como no início daquele dia, que parecia ter sido uma semana antes.

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Quando vimos que nosso carro não aguentaria mais a estrada de terra, decidimos abandonar a idéia inicial de ir até a última vila na ponta da ilha e ir na primeira que encontramos, para conhecer os pescadores locais e pedir pra nos levarem a um ponto X do mapa, 3 horas de barco dali.

Quando chegamos perto desta vila, uma senhora que catava conchas nos viu. Acenamos e ela correu, como quem corre de medo de um terremoto. Entendemos que ela nunca tinha visto um turista. Assustados seguimos e fomos direto até os barcos de pescadores, agora na areia enquanto maré seca.

Demos oi aos pescadores e colocamos em prática tudo que aprendemos estudando no carro até ali de Indonésio.

Em menos de 5 minutos tinha 20 pessoas ao nosso redor, crianças que nos olhavam com desconfiança e todos tentando entender porque essas duas pessoas de outro mundo diziam ‘’nós, barco, aqui, 3 dias, voltar, dinheiro metade agora, dinheiro metade depois’’.

Eles nunca entenderam o que faríamos naquele ponto X. O que era surf. Mas entenderam que éramos do bem e que só queríamos chegar onde a estrada e a montanha não deixavam. Nos mostraram que a maré ainda era seca e fizeram sinal de esperar, na vila, e pra lá fomos.

O vilarejo pequeno era lindo, vivia em outra época. Não tinha sinal de telefone ou televisão. Mas tinha amor, de sobra. Nunca vi tanto amor quanto ali. Todas as crianças pareciam ser filhos e filhas de todos. Passavam de colo em colo e recebiam olhares de carinho de todos, como numa enorme família.

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Uma senhora disse timidamente ‘’hello, my name is…’’ e fez convite para um café na varanda dela.

Às vezes imagino isso acontecendo no bairro onde moro. Chamando duas pessoas para um café e o bairro inteiro entrando na minha casa, fazendo uma roda em volta e olhando cada movimento dos meus convidados.

O mais bonito foi ver que quando as crianças - que saíram da escola pra nos ver - vieram brincar com a gente, foi o momento em que todos se soltaram. Como se elas fossem o termômetro afetivo que decifra em quem confiar ou não.

Brincamos, tomamos café, comemos. Pegamos no sono ali mesmo na varanda e acordamos com a vila inteira ainda em volta. O pescador nos disse que a maré já tinha subido e que podíamos ir. Todos nos acompanharam até o trapiche e acenaram até nos perder de vista. Sem saber que voltaríamos na mesma noite. Com o dedo na água, e um sentimento de derrota bobo.

Voltamos, as crianças nos receberam no trapiche recém escuro e fomos convidados a dormir na casa do piloto do barco. Dormimos, não antes de comer enquanto 10 pessoas nos olhavam. No dia seguinte nos despedimos, as crianças correndo atrás do carro com todo carinho. O sentimento de fracasso não existia mais em nenhuma forma. Apenas uma sensação absurda de felicidade e pertencimento. Encontramos a onda e muito mais.

Em dois dias um avião nos esperaria pra nos levar a Bali onde outros aviões ainda maiores nos esperariam também. O swell ainda era forte e o Marco tinha ainda uma outra marcado no mapa. Uma que não parecia tão incrível quanto a primeira, mas decidimos ir lá no lugar de ir pras ondas já conhecidas da ilha, que com certeza quebrariam clássicas no dia seguinte.

 O autor, filmmaker extraordinaire, Loïc Wirth.

O autor, filmmaker extraordinaire, Loïc Wirth.

Fomos, sem esperança ou expectativa, dirigimos o dia todo. Batemos na porta de uma casa e fomos acolhidos por um casal lindo que nos recebeu como filhos. Dormimos exaustos e quando o despertador tocou às 4h da manhã eu quis propor pro Marco de dormirmos mais um pouco, mas levantamos, comemos nossa fiel granola e fomos para o mar.

Vento terral, água translúcida, marco surfando tubos de 7 segundos quando não 3 tubos por onda. Sozinho na água nessa onda que não era mais um X no mapa, que não era mais um plano B. Era o sonho que todo surfista tem dentro de si.

‘’Foi o melhor surf da minha vida’’. Foi a segunda frase que o Marco disse em dois dias que ele não diz facilmente.

A vida faz dessas coisas. Ensina tanto.

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O vento entrou e fomos direto pro aeroporto. Lá eu olhava as máquinas de refrigerante, lojas de relógios e jóias e percebi que aquilo tudo sim parecia um sonho, se eu levasse em consideração o que era realidade nos últimos dias.

E pela primeira vez, preferi a realidade.