JULIO ADLER // Capítulo Perfeito

 
  O amanhecer do dia do evento // Foto: Divulgação

O amanhecer do dia do evento // Foto: Divulgação

 

18.02.2018 -- 13.08 hrs.

Meu irmão, tá muito próximo!

Recebi a mensagem do Rui e já fui fazendo planos, viagem para Lisboa na quinta-feira, chegada na sexta, campeonato no sábado.

Tudo é resolvido em cima da hora, como remar pela primeira vez numa bancada de pedra.

O Rui da mensagem é o Rui Costa, organizador do Capítulo Perfeito, um campeonato de surfe no formato que todos sonham em fazer um dia.

Você escolhe a melhor época do ano - inverno - separa uma janela de 3 ou 4 meses para esperar pelas melhores condições possíveis e faz uma chamada 72 horas antes de realizar o evento.

Atenção que a condição perfeita não significa ondas enormes, ou mesmo ondas grandes, aqui nesse caso a busca é por ondas que nos faça sonhar.

Fazia tempo que eu namorava de longe o Capítulo Perfeito, admirando as fotos que o Ricardo Bravo publicava do Capítulo de Carcavelos, lindas, cheias de cor e vida.

O evento já passou por Supertubos, Carcavelos e nos últimos dois anos tem sido realizado na Nazaré, um dos beachbreaks mais imprevisíveis do planeta.

Existe mais de um desafio para fazer um evento como esse, alem de acertar as condições exatas, tamanho, vento, maré, direção da ondulação e banco de areia com formação adequada.

O outro desafio é tentar trazer todos convidados para Portugal em menos de 72 horas, desde a hora que recebem a confirmação até o momento que aterrissam em solo lusitano.

Vamos pegar o exemplo do vencedor do evento na edição passada, Aritz Aramburu, que estava na Austrália competindo no WQS e tentou de todos jeitos embarcar para Portugal, sem sucesso.

Kiron Jabour também estava na mesma situação.

Sorte do William Aliotti e do Balaram Stack que, sabendo do convite com menos de 24 horas antes do início do evento, conseguiram chegar.

Aliotti estava em Hossegor, um pouco mais próximo, e Balaram em Nova Iorque.

Anthony Walsh despencou do Hawaii, 25 horas de vôo!

Pedro Scooby e Bruno Santos estavam no mesmo vôo que eu, saindo do Rio de Janeiro na quinta à noite, chegando em Lisboa na sexta pela manhã, dirigindo até Nazaré a tempo de uma boa noite de sono antes do dia prometido.

A perfeição antes do vento

 
  Praia do Norte, Nazaré // Foto: Divulgação

Praia do Norte, Nazaré // Foto: Divulgação

 

24.02.2018 -- 06:30 hrs.

7 Graus…

Até os Europeus reclamavam do frio seco e teimoso da manhã.

A Praia do Norte, temida Praia do Norte, estava cheia de picos triangulares pipocando por toda sua extensão.

A imagem era o completo oposto daquela que nos acostumamos.

Ao contrário das ondas monstruosas, medonhas, dos recordes mundiais, dos momentos de desespero e dor, ali estava uma Praia do Norte que convidava ao surfe.

Nunca antes vi tantas séries em tão pouco tempo.

Aquilo era um parque de diversão sem a montanha russa que nos deixa de cabelo em pé.

As disputas não faziam a menor diferença pra quem assistia, ficaram em segundo plano. A brincadeira era contar quantas ondas rodavam sozinhas, de norte a sul, sem a ameaça sequer de alguém dropar.

Depois de 4 horas de ondas muito próximas do que consideramos perfeição, um vento finalmente entrou rasgando justamente na hora da final.

William Aliotti, o mais improvável dos vencedores, cumpriu seu destino.

 
  William Aliotti à direita do pódio // Foto: Divulgação

William Aliotti à direita do pódio // Foto: Divulgação

 

De pensar que dois dias antes ele nem desconfiava que estaria em Portugal levantando um cheque de 5.000 euros depois de uma manhã de tubos na Nazaré.

Ninguém parecia aborrecido com o fim desse capítulo.

Alex Gray e Anthony Walsh faziam planos para surfar a Cave no dia seguinte.

Bruno e Scooby já combinavam com Lucas Chumbinho (o novo rei da Nazaré!) de fazer um surfe rebocado ali mesmo na Praia do Norte no domingo - esperavam 15 pés sólidos!

A WSL em 2019 fará, supostamente (tudo é suposto na WSL), uma grande final do circuito aos moldes desse evento que acabamos de assistir, poucos surfistas, tudo resolvido em apenas algumas horas, dia perfeito de surfe.

Esse modelo de evento é arriscadíssimo, mas mostra um caminho possível para o futuro do surfe profissional.

Bem mais barato, com menor impacto na praia, montagem e desmontagem rápida, transmissão de altíssima qualidade e máximo engajamento dos fãs e surfistas.

É fácil imaginar um Capítulo Perfeito acontecendo em Noronha, outro em Hossegor, outro em Mundaka, outro em Blacks…