STEVEN ALLAIN // A Comédia dos Erros

 
 

Emprestei o título da peça de William Shakespeare, mas a verdade é que nessa história pouca coisa tem graça.

Ninguém nega que é divertido pegar no pé da Liga Mundial de Surf. Fazer graça de suas pataquadas tornou-se quase parte integral da experiência de ser um fã de surf competitivo.

Só que, desta vez, a entidade superou-se.

A perda da licença do Pipe Masters foi a pior cagada em sua história – história essa que já era repleta de cagadas.

Foi pior que entregar o troféu de campeão pro Kelly, quando matematicamente o título ainda não estava decidido. Foi pior do que a pseudo entrevista do Peter Mel com Medina na Gold Coast, poucos anos atrás. Foi pior, bem pior, do que apagar o comentário do Neymar no Instagram.

Não duvido das boas intenções de quem está lá dentro, tentando tornar o Tour em algo viável economicamente. Mas é gritante sua falta de entendimento do mercado e visão de futuro.

 
 
O QG da WSL em Santa Mônica tem até bar

O QG da WSL em Santa Mônica tem até bar

A mudança de ASP para WSL trouxe inegáveis melhoras ao Tour. Mas já começou mal, pois apostou num modelo de negócios que não deu certo: investiram milhões numa sede faraônica, em fartos salários de incontáveis executivos, na produção de conteúdo próprio e na webcast. Acreditaram que os patrocinadores fariam fila pra bancar a brincadeira. Só que estes não apareceram. A surfwear foi saindo de fininho e o mainstream não comprou a bronca.

Mudaram, então, de foco. Sob a filosofia de que “só com audiência grande se vende patrocínio”, partiram numa ofensiva para atrair o grande público. Insistem ainda nessa visão, mesmo alienando, até certo ponto, o público “core” – que sempre foi o mais fiel. Algo parecido aconteceu com a surfwear alguns anos atrás: concentraram-se em vender bermuda para o mainstream, perderam identidade e hoje se perguntam como deixaram de ser “cool”. A WSL caminha na mesma direção, esquecendo justamente quem os mais apóia.

Percebendo que o grande público do surf nunca será verdadeiramente grande – pelo menos não para atrair os 50 milhões de dólares anuais necessários em patrocínio – decidiram, mais uma vez, mudar de estratégia. Se patrocinadores não bancam a conta, alguém tem que bancar, certo?

Foi aí que entrou a conversa do Pay Per View. A WSL inclusive contratou, com passe super valorizado, o Sr. Joseph Carr, responsável por implementar o PPV no UFC. Só que antes que a cobrança fosse colocada em prática – nem a própria WSL sabia como ela seria recebida pelo público – o Facebook entrou na jogada.

Ah, o salvador Zuckerberg! Parecia a solução perfeita: o FB entrava com uma grana (longe das 50 milhas, mas já alguma coisa com U$15 milhões/ano) e, ao mesmo tempo, levaria o Tour para um público maior.

Só que a solução perfeita incluía Pipe... sem a Rainha, a Onda das Ondas, o Tour perde seu mais importante evento. E por tabela, perde público, relevância, moral.

Pelo jeito, o Pipe Masters já era. Mesmo.

E só há um culpado: a WSL. A entidade bem que tentou convencer a opinião pública (via press release) de que a perda da licença se deu por capricho do prefeito de Honolulu – tudo balela. Nem é ele que decide quem recebe as licenças.

O buraco é bem mais embaixo. A WSL – pasmem – atrasou seu pedido. Quer coisa mais amadora? E não tem como abrir exceção: se fizer isso, o governo local fica suscetível a processos dos aplicantes que deram entrada com a papelada em dia.

A WSL rebateu dizendo que gera 20 milhões de dólares para a economia local. Grande merda! O turismo (aquele normal mesmo, da classe média americana que toma Mai Tai no bar do hotel, debulha o buffet de café da manhã e usa colarzinho de flor) gera anualmente no Hawaii 15 bilhões de dólares – o que equivale a 40 milhões por dia. Ou seja, os turistas que pousam no Hawaii geram o dobro de grana em um mísero dia, do que a WSL gera em 6 semanas de Triple Crown. O impacto da perda desses eventos é quase nulo para o Hawaii.

 
 

Talvez sem se dar conta disso, e se achando a última bolacha do pacote, a CEO da Liga, Sophie Goldschmidt, voou para o Hawaii para dar uma prensa no prefeito que ousava respeitar as regras e não acomodar a entidade. O prefeito não a recebeu.

A responsável pelos caminhos recentes da WSL, Solphie Goldschmidt

A responsável pelos caminhos recentes da WSL, Solphie Goldschmidt

Sophie então partiu para o ataque e espanou na imprensa local que tiraria todos os eventos da WSL do Hawaii se o governo não acatasse o pedido (atrasado e irregular) da entidade. Outro tiro no pé.

Quem conhece o Hawaii e sua cultura, sabe que eles não fogem da briga, nem muito menos cedem facilmente a pressões externas. As relações pessoais, sempre permeadas pelo respeito, são a grande moeda de negociação. Chegar gritando e botando o pau na mesa é a pior estratégia.

Mas foi isso que Sophie fez e agora bye bye Pipeline Masters.

Não devíamos ficar surpresos. Os sinais de que a estratégia e a filosofia estavam muito erradas apareceram bem antes. Começou com a história do Ambassador of Stoke – uma promoção chupinhada da NFL que não tem nada a ver com o surf. Aí o leitor pode dizer, “mas isso foi algo minúsculo...”. E foi mesmo, mas mostrou a falta de conexão com o público do surf.

Depois, um exemplo de incompetência: depois de hypar a disputa entre Medina e JJF até o osso, perderam o grande momento de consagração do havaiano, que festejou entre amigos no quintal da família Johnson. O grande momento do ano, a contagem regressiva para a conquista do título mundial, quase ninguém viu ao vivo.

E o que falar do tratamento dado ao Brasil? Uma das grandes nações do surf ainda é tratada como se fosse coadjuvante. Você sabia que os comentaristas da webcast em português ganham a metade do que ganham os gringos? Por quê a opinião do Strider vale mais do que a do Pedro Muller? Já não basta a estrutura infinitamente inferior? E o que dizer das entrevistas com os brazucas? Por quê – como se vê no UFC – não existe um tradutor? Preferem deixar nossos representantes com cara de ignorante que não sabe se expressar.

Quando fizeram um “media day” na piscina do Kelly, nenhum – repito, nenhum – jornalista brasileiro foi convidado, quando até blogueiro australiano recebeu convite. Afinal, para que chamar a imprensa de um país insignificante, certo?

Um episódio recente melhor define a filosofia falha e sem prioridades da WSL. Algumas semanas atrás, publicamos uma entrevista com o comissário do Tour, Renato Hickel – onde ele discutiu possíveis cenários para o futuro do circuito.

É sempre bom falar com Renato, pois ele é um dos poucos representantes da WSL, senão o único, com quem se pode conversar abertamente – já que tudo, tudo na Liga parece ser segredo de Estado.

Pois bem, os executivos ficaram putos com a entrevista, nem sei bem por quê – a conversa era sobre possibilidades. Enfim, o chicote estalou pro lado do Renato, que certamente ouviu muitas por ter falado com a MOIST e nós sofremos uma baita pressão para tirar o vídeo do ar. Mantivemos a entrevista no ar. Foi então que o departamento do Sr Joseph Carr entrou com reclamação junto ao Youtube e bloquearam nosso vídeo, alegando infração de direitos autorais. Não adiantou, pois postamos então o link do Facebook – e a entrevista teve mais de 100 mil visualizações (entre FB e Youtube).

 
 

Mesmo falando apenas de possibilidades, essa entrevista não agradou nada a WSL

 
 

E aí que está, a meu ver, o grande erro dessa administração: nada é transparente e o foco é todo errado. Ao invés de querer bloquear e prejudicar um site de surf que só faz promover os eventos e atletas da entidade, o pessoal da WSL devia mesmo era preocupar-se em entregar a papelada para a licença do Pipe Masters em dia. Ao invés de censurar Renato por falar com a imprensa, deviam usar a oportunidade de uma maneira favorável à própria WSL.

Fica a pergunta: precisamos mesmo de uma pessoa que não entende absolutamente nada do nosso universo para tocar a WSL? Quais são os benefícios? Essa pessoa é um grande negociador? Sophie certamente não é, vide a maneira como conduziu esse episódio. A estratégia é boa? Tá na cara que não. Estão fechando a conta? Não...

Tenho que ser justo. O produto Circuito Mundial ficou bem melhor com a WSL. Não há como negar os impactos positivos. Mas fora uma webcast bem superior ao passado (a em inglês, né?) o que, efetivamente, melhorou?

É uma pena a perda de Pipe. Mas o que mais preocupa é o futuro da entidade e do surf competitivo. Pois quem está no leme pode estar com os dias contados – já que, até o momento, seu legado foi o de colocar o surf na Olimpíadas, e tirá-lo de Pipe.

- Steven Allain