JAMES B // Filipe Toledo campeão mundial

 
 

2018 chegou. Depois de algumas sossegadas semanas de detox de surf competitivo após o Pipe Masters, eu já consegui digerir melhor o JJF 2x e consigo voltar a escrever minhas colunas de uma forma mais propositiva e menos recalcado com certas coisas do game safado da WSL. É aquela história: Já que a liga do Careca não vai sumir ou dar lugar a outra coisa num futuro próximo... let's go with the flow.

Então, seis semanas antes do início do CT 2018, por quê não começarmos a falar a respeito?

Filipe Toledo pra campeão mundial 2018. Fácil! Ou não tão fácil. Mas provável. Ou certo.

"Ah, James B, mas e o John John e o Medina?" Dois foras de série e candidatos perenes ao título mundial pelos próximos anos, mas 2018 é do Filipe. Tem de ser. Já poderia ter sido, aliás, se não fosse a infeliz lesão em Snapper Rocks em 2015, os erros bobos de interferência em etapas cruciais, a (injusta) suspensão pela WSL em 2017, ou ainda (ufa) a notória falta de resultados em esquerdas de consequência, que o afasta da completude de Medinas, Wilsons e Johns.

 
  A última vitória importante de Filipinho não faz tanto tempo assim. Foto: WSL

A última vitória importante de Filipinho não faz tanto tempo assim. Foto: WSL

 

É fato: o Clâ Toledo não tem do que reclamar da agenda do tour esse ano. Sai Fiji, uma das duas pedras no sapato do príncipe de San Clemente. Teahupoo fica, mas a real é que se a última esquerda de verdade do Tour também tivesse saído, um título mundial do brasileiro seria alvo fácil de um monte de interrogações mundo afora.

Toledo está com tudo: livre de lesões, bons equipamentos, salário de atleta top, vida tranquila na Califórnia, família unida. O ubatubense é, na minha opinião, o surfista com mais spark e o mais interessante de se assistir no tour no momento. Apesar de todo o incenso da mídia gringa sobre o darling filho da gata Alexandra Florence e do volume de talento padrão elefante do Gabriel Medina, ninguém roubou tanto a cena do esporte em relação à performance nos últimos dois ou três anos quanto Filipe Toledo. Essa é a verdade.

 

A onda que rodou o mundo - duas vezes.

 

Um único exemplo, pra coluna não ficar tão longa: Toledo foi autor da única nota 20 não oficial  da história do surf profissional, em J-Bay no ano passado. Aquela onda NUNCA foi um dez. Assistam o vídeo acima, a matemática não mente: o alley-oop número um, sozinho, já valia 8 pontos. Mais o segundo alley-oop, que também valia 8 pontos, somado às cinco manobras finais, que valiam uns 4 pontos cada. Total: 8+8+4 = score de 20 pontos.

Aquela onda representou um daqueles raros momentos de ruptura que acontecem no surf competitivo de tempos em tempos.  Mexeu com a cabeça da audiência no mundo inteiro, deu curto-circuito geral no quadro de juízes e também sacudiu a cabeça dos competidores e adversários do brasileiro.  Ficou claro pra todos que o nível de performance poderia ser elevado a um patamar acima do que era praticado e que sim, Toledo é um extraterreste com talento E com um percentual de tomada de risco X acerto bem fora da curva. Intocável em determinadas condições - que, pelo calendário do tour esse ano, teremos na maioria das etapas.

Vejamos o calendário e o nível de favoritismo do moleque em cada etapa:

  1. Snapper Rocks - favoritaço
  2. Bells – favorito total
  3. Margaret – quase um favorito, foi o único a chegar perto das curvas do Florence em 2017.
  4. Rio – favoritaço
  5. Keramas – favorito e meio
  6. J-Bay - favoritaço e meio e mais um pouco
  7. Tahiti – descarte
  8. Wave Pool - favoritaço
  9. Portugal - favoritaço
  10. França – favorito fácil
  11. Pipe – segundo descarte se estiver mais Pipe, chances melhores se quebrar Backdoor. Possível segundo descarte.
 
 Esqueçam o antigo air-game-only: Mr. Toledo também virou um puta de um carver!

Esqueçam o antigo air-game-only: Mr. Toledo também virou um puta de um carver!

 

Ou seja, estamos em um tour feito sob medida para um Filipe Toledo mais experiente (esperamos) e pronto pra reivindicar seu primeiro título de campeão mundial de surf profissional.

Também não posso deixar de falar que o Toledo está usando um equipamento que me parece totalmente encaixado pra ele. Marcio Zouvi conseguiu chegar em um ponto de afinamento de pranchas que é raro de se ver no tour - onde a gente vê tantas vezes competidores de altíssimo nível batendo cabeça pra acertar prancha no pé entre uma bateria e outra.

A intimidade das Sharp Eyes com Filipe me lembra o casamento John John Florence e Pyzel: motorzinhos hidrodinâmicos funcionando com tudo no seu devido lugar.

Aliás, J-Bay foi um exemplo bem claro disso: com a mesma prancha, Toledo pegava tubo, dava aéreo e cravava a borda na água sem perder flow e com mais velocidade que qualquer um.

Para os defensores da teoria de que só prancha gringa é que presta, taí uma cobra de duas cabeças (metade Brasil, metade Califórnia) que está dando resultado e morrendo de vender na Califórnia, nos Estados Unidos e mundo afora. Chupa, Matt Biolos ☺

 

PelamordeDeus, Filipe: interferência boba em bateria homem a homem, no más!

 

Pontos de risco? A eterna falta de cancha em esquerdas heavy, que deveria estar sendo melhor trabalhada pelo Ricardo Toledo e equipe nos últimos três anos. Porra, véio, eu NÃO vejo vídeos do Filipe pegando onda de reef pesada pra esquerda, e olha que ele e o Baroni tem o maior ritmo de produção de material entre todos os caras da WSL. Ou seja, não há um esforço aparente pra melhorar no ponto mais fraco da performance dele.

Também espero que a paternidade não atrapalhe o foco em 2018, mas sirva como combustível pra queimar todos os cilindros a 200 por hora.

E por último, a assessoria de um coach profissional talvez impedisse Filipinho de tomar algumas decisões e estratégias erradas que já lhe custaram bem caro, como as baterias contra Kanoa Igarashi em mais de uma etapa, que tiraram Toledo da disputa do título mundial em 2017.

Mas seguro meu palpite: Filipe Toledo, 2018 World Champ! Alguém duvida?