JULIO ADLER // Perdas e ganhos

 
 A Rainha Pipeline. Foto: AYC

A Rainha Pipeline. Foto: AYC

Última vez que tivemos o Hawaii fora do circuito mundial foi em 1983, também por arrogância e decisões mal feitas.

Ainda existia IPS e ASP literalmente engatinhava, cheirando o rabo da irmã mais velha.

Recomenda-se explicar aos mais novos (ou desatentos) o que eram I.P.S. e A.S.P.

Ainda era 1975 e Fred Hemmings, campeão mundial de 1968 numa final que até hoje rende poderosos debates sobre a (in)justiça do resultado, teve a idéia, ou pelo menos a iniciativa, de organizar todos poucos campeonatos de surfe com premiação em dinheiro numa espécie de ranking.

Hemmings achou que a maneira mais fácil de se chegar ao vencedor do circuito era procurar quem ganhou mais dinheiro com as premiações - em 1975 seria Shaun Tomson com inacreditáveis U$10,875.

Eddie Aikau, em décimo quinto, fez U$25!

*(Fonte - https://eos.surf/ Assine já!)

Randy Rarick, macaco velho então com muito bem vividos 25 anos de idade, na companhia dos australianos Peter Townend e Ian Cairns sugeriram que Fred assumisse uma pontuação baseada na colocação de cada surfista e assim, na cozinha do Randy, foi criado o primeiro (e único!) circuito mundial de surfe profissional em outubro de 1976, no North Shore, vocês sabem, Hawaii.

Bom com ele, melhor sem ele

Até 1983 tudo parecia ir de vento em popa até a chegada do nosso amiguinho Ian Cairns (segundo do mundo em 1976) numa reunião da IPS balançando um cheque de US25.000 que ele conseguira arrancar da marca de roupas Ocean Pacific.

Vocês querem vir comigo ?! Ou preferem ficar com a IPS?

Bradava o urso aloirado do oeste australiano para meia dúzia de gatos pingados.

Ninguém pensou duas vezes - todos foram com Cairns.

Estava criada a Association of Surfing Professionals (A.S.P.) 

Como Hemmings tinha a licença para todos eventos havaianos e era também o dono da bola na IPS, o circuito mundial não teria a tradicional perna havaiana em 1983.

Ou melhor, a perna havaiana existiria, como sempre existiu, mas não contaria pontos para o recém-batizado circuito mundial da ASP.

Nessa brincadeira, só um camarada entrou feio pelo cano.

Dane Kealoha.

Havaiano de pura cepa, Dane tinha chegado perto de se tornar o primeiro nativo das ilhas a vencer o circuito em 1980, vice campeão atrás do imbatível Mark Richards.

Surfista com a pisada firme, estilo vigoroso e clássico, mas já mirando numa agressividade pós-moderna para a época, Kealoha tinha superado Shaun Tomson como melhor tuberider do mundo e era dono do surfe de backside mais vertical e explosivo no Tour - até a chegada do pequenino Tom Carroll, mas isso já é outra conversa…

Todos surfistas que participavam do circuito mundial estavam proibidos de competir nos 3 eventos havaianos.

Pois bem, Dane Kealoha peitou a IPS, a ASP, cartolagem, politicagem e mandou uma banana pra quem quisesse ouvir e venceu duas das três jóias da coroa - inclusive o Pipe Masters, utilizando uma técnica inovadora, chamada lay forward, que consistia em pousar a mão na borda, ou no deck da prancha e inclinar-se ligeiramente para frente com objetivo de entubar de backside…

Foi o melancólico fim da brilhante carreira do jovem surfista havaiano, que perdeu todos pontos do ranking, e virou um exilado do novo circuito mundial.

Diz a lenda que nunca o North Shore foi tão tranquilo em dezembro…

Hoje é dia de Pipe, bebê…

Depois disso, ou melhor, apesar disso o final da temporada é e sempre foi em águas havaianas - exceto por 94, mas isso também é outro papo.

Ao contrário do James B, não quero que o Hawaii vá pra PQP.

Como entusiasta, e aprendi esse entusiasmo vendo o drama por trás de cada morra (sem duplo sentido) ou pela falta delas, já sinto uma nostalgia gigantesca do saudoso tempo da final do circuito em Pipe.

A antecipação, o desenho dos cenários possíveis, a possibilidade do pau comer, as injustiças, a redenção - o inesperado!

Tudo jogado pro alto por uma instituição que nos trouxe, vamos lá, profissionalismo.

Fica fácil colocar tudo na conta da Sophie, que no desespero parecia até o Neymar batendo palmas pro juiz, admirada com própria sandice.

Quem falhou foi a WSL.

O que está em jogo não é a graninha que fica ou deixa de ficar no North Shore, como quis atestar Fräulein Goldschmidt repetidamente nos seus memorandos em idioma institucional.

Não.

O que está em jogo traduz-se em apenas uma palavra,

Tradição.

Vem do latim, Tradire, significa entregar, passar de uma geração para outra, de uma pessoa para outra.

Pode ser conhecimento, oral ou escrito, símbolos ou signos, ninguém escapa disso, desta transmissão de valores, mesmo na era mais que moderna.

É a mesma coisa que faziam os havaianos bem antes da chegada do homem branco.

O Hawaii pro surfista é tradição da mesma forma que também é desafio.

Campeões mundiais se consagraram em Pipe, outros nem tanto.

É o lugar pra ver e ser visto, para se provar.

Para perder o sono ou dormir como um anjo.

Um lugar que não permite indiferença.

Teremos mais um ano para celebrar a tradição e quem sabe coroar, como deve ser feito, mais um brasileiro campeão mundial no último evento do ano, em Pipe - como foi com Medina e Mineiro.

Não sei se de outra maneira será mais ou menos emocionante.

Pouco importa isso agora.

Em 2019, não terá Pipeline.