JULIO ADLER // Facebook e WSL

 

Pautas e colagens

Leio que nesse agitado janeiro de 2018 a WSL acerta um contrato de exclusividade com o Facebook e logo me vem à cabeça um tweet do Guga Chacra que dizia,

[O Facebook está decadente. Não interessa que diz ter "2 bilhões" de usuários. Não tem a velocidade do Twitter, não tem a simpatia do Instagram, não tem a utilidade do LinkedIn e tampouco a privacidade do Whatsapp. Muitas centenas de milhões cansaram e nem entram mais.]

A revista Forbes, célere e fagueira, bem ao seu estilo de press release formatadinho para os ânimos do mercado, relata (e é a única que menciona valores) que o acordo vale 30 milhões de dólares por dois anos - maior contrato da WSL desde seu surgimento.

Uau!

Parece um bom início, diz um sujeito empolgado enquanto mastiga seu pão com ovo na padaria. Do outro lado do balcão, Bigorna rejeita a possibilidade e adianta,

Isso é dinheiro pra amendoim!

A discussão evolui para mais dois pão na chapa e um pingado com leite frio. Ouço tudo sem me intrometer. Vou pra casa e resolvo me interar do assunto.

 

Amendoim torradinho

No mesmo artigo da Forbes, existe um link para outra reportagem sobre a compra de direitos de eventos esportivos pelo Facebook.

Aparentemente, a NFL (liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos) tem tido problemas tentando comercializar as partidas da quinta-feira nas últimas temporadas. As rodadas de domingo e segunda são um sucesso e seus direitos vendidos antecipadamente por pelo menos uma década para as TVs, enquanto a rodada de quinta continua encalhada.

Aqui entra o Facebook, que ofereceu algo em torno de 50 milhões/ano apenas pelo streaming (transmissão via plataformas na internet) mas perdeu a guerra para a Amazon. A NFL perde audiência a cada ano, ainda assim é o esporte mais popular na TV americana - a noite de quinta foi vendida pra CBS e NBC por US$ 450 milhões.

Voltemos para a WSL, e suas 30 milhas.

Imagino que essa grana preta paga muitas coisas, como o custo da suntuosa matriz americana e sua enorme folha salarial recheada de VPs e CEOs, CFOs, COOs, numerosa equipe de transmissão, e happy hours para atrair clientes.

Não paga ainda um circuito com 11 etapas para os cavalheiros e 10 para as damas.

Leio ainda, nessa mesma matéria da Bloomberg, que o Facebook ofereceu 600 milhões de dólares pelos direitos da Liga Indiana de Cricket - Fox e Star India ganharam a disputa com US$ 2,5 bi por TV e Streaming.

Sim, voce leu perfeitamente. 600 milhões de dólares pelos direitos da Liga Indiana de Cricket…

O Facebook Watch, a nova plataforma do Facebook (por enquanto exclusiva para os EUA), tem como objetivo ocupar o lugar tomado pelo Netflix, HBO, Fox, Amazon, Hulu e outros na distribuição de conteúdo via streaming e pelo jeito tem dado com os burros n’água. Apesar de alguns bilhões para investir em transmissões esportivas mundo afora, a desconfiança ainda é grande.

Para o resto do mundo, ainda ficamos na janelinha da rede social mesmo, ou copiada e colada por aí.

 

Juventude transviada

A grande corrida hoje é para fisgar a rapaziada que caga e anda para TV e vive de nariz colado no espelho escuro (Black Mirror) dos telefones.

Como disse lá em cima o Guga, Facebook vem perdendo espaço e utilizadores vertiginosamente nos últimos anos. A garotada já nem abre mais conta ali, exceto para ter acesso a outros recursos. O Snapchat, por exemplo, tem muito menos usuários, mas infinitamente mais interação.

Mais da metade da população com acesso a internet do planeta está no Facebook mas a média de idade dos frequentadores preocupa. A média de tempo no Snapchat é de quase 30 minutos, as visitas são pelo menos 18 vezes por dia checando as atualizações.

Os coroas do Facebook não se aproximam disso.

E é disso que os executivos estão atrás agora e é aqui que o surfe entra e a porca torce o rabo. Cada vez mais os esportes populares são assistidos por pessoas dos 45/50 pra cima.

O surfe anuncia que tem esse apelo pelo juvenil, pela juventude eterna dos Peter Pans que circulam de prancha debaixo do braço, mas na verdade somos também uma comunidade que envelhece - pelo menos quando tratamos do interesse no surfe profissional.

A turminha dos 13 aos 25 raramente fica mais de quinze minutos com a atenção fixa em alguma coisa, a não ser que eles participem de alguma forma.

 

Bem vindo ao parque de diversões

Em agosto de 2017, uma plateia gigantesca se reuniu na Arena Key em Seattle para assistir o The International (Dota 2) Championship, transmitido ao vivo pelo ESPN e distribuindo 23 milhões de dólares em premiação. O DOTA 2 é um campeonato de jogos de computador (facilita muito resumir apenas nisso) disputado por 80 dos melhores gamers do mundo.

A premiação total da WSL num ano não chega nem perto da premiação de um evento (o maior evento!) de jogos de computador. Facebook e WSL estão atrás desses rapazes para engrossar seus números.

22% dos meninos americanos não perdem um evento dos chamados E-sports e as gigantes do mercado, como a Coca Cola, investe uma fortuna patrocinando o campeonato de League of Legends.

Nada se compara ao engajamento que os gamers tem com seus jogos - e jogadores - quando falamos de audiência participativa.

A WSL, sempre através da sua assessoria, informa que segundo o site Hookit (medimos o valor em várias plataformas sociais e digitais, analisando o engajamento geral, incluindo menções, hashtags e logotipos de marca usando ferramentas de reconhecimento de imagem em fotos e vídeos) são a terceira liga esportiva com mais engajamento e visualizações de vídeos do mundo, atras apenas da NFL e NBA.

Com alegados 14 milhões de espectadores em 2017 e tantos outros fatos surpreendentes que enchem a Liga de valor agregado, como podemos achar que 30 milhas é assim tanto dinheiro?

Soa bem melhor do que os supostos 5 milhões que a Samsung pagava, mas ainda é pouco - e pior, não reverte nada na premiação, por enquanto. A premiação ainda é quase um prêmio de consolação que a surfistada aceita de bom grado, como esmola pelos bons serviços.

Quando comparado aos outros 25 esportes mais populares do mundo (Badminton! Sinuca! Handball! Ping Pong!) nosso universo como esporte organizado fica minúsculo. Em participação, em premiação, em audiência, em eventos, em relevância.

Não me chame de pessimista, sou um otimista brutal, como diria meu tricolor predileto.

Sou também realista.

Em 2018, a WSL começa a dar suas últimas cartadas, sem blefe, para transformar uma idéia esperta de alguns jovens de rodar o mundo atrás de pontos e dinheiro - mas sempre acima de tudo, atrás de ondas - num negocio lucrativo.

Deste lado, continuo cético como em 2012.

 

PS - Alguém mais se incomoda com o fato da Globo fazer esse evento absolutamente sem graça, sem eira nem beira, convocando todos surfistas classificados pro WCT para animar uma manhã sonolenta de domingo no verão?

PS 2 - Não passa pela sua cabeça, caro leitor, que em 2019 teremos a primeira etapa do Tour em Pipe e o Volcom Pro de 2018 seria a mais perfeita maneira de começar o ano, já de olho na próxima temporada?

PS 3 - O amigo já reparou que a WSL separou um dia inteirinho em novembro do ano passado para que jornalistas do mundo todo (EUA e Australia) matassem a curiosidade do Rancho do Kelly? Apesar de Medina, Mineiro, Yago, Toledo e cia, nenhum jornalista brasileiro (emoji sorrindo encabulado) mereceu convite ou atenção.