JAMES B // Que se dane o Hawaii

 
 

Aloha, queridos leitores.

À essa altura todos vocês já estão sabendo da enorme lambança causada pela tchurma da Sophie Goldschmidt e WSL ao perder o prazo de solicitação de evento referente ao Pipeline Masters de 2019 junto à prefeitura de Honolulu. Basicamente, não haverá a última etapa do ano -- aquela que muitas vezes decidia o título mundial na onda mais prestigiada do mundo -- porque alguém na WSL esqueceu um deadline.

Merda grande. Pra tentar contextualizar pros leitores, mesmo que com fatos absurdos e
fictícios, seria mais ou menos como se um presidente da república indicasse uma ministra do trabalho que tem vários processos trabalhistas na justiça, ou ainda como se um prefeito e um governador viajassem pra fora de seu estado durante o carnaval e deixassem sua cidade sem comando e entregue ao crime uma semana inteira, durante a maior festa do ano. A palhaçada causada pela falta de planejamento e bom senso da WSL foi tipo isso. Parece muito absurdo, não é? Mas aconteceu.

Então, resumindo: não teremos Pipe Masters em 2019. Como diriam os antigos havaianos, Kapu! E há boas chances de sequer haver Tríplice Coroa Havaiana nesse mesmo ano. E agora? Quem vai sair perdendo? A WSL? O Hawaii? Os surfistas? O público? Todos os anteriores?

Bom, vamos à minha opinião: que se dane o Hawaii. Nem tanto pelas ondas e pelo show de surf. Mas sempre, sempre me incomodou demais a arrogância e prepotência de alguns havaianos ao se sentirem superiores ao resto do mundo.

Pra quem não sabe, há anos o Pipe Masters é um evento que funciona de maneira diferente de todos os outros do circuito mundial. Por exigência dos havaianos (traduzindo: exigência = ameaças de várias formas), o Pipe Masters tem um formato à parte para acomodar uma legião de locais e lhes dar a chance de disputar o evento principal ao lado dos tops da ASP (e agora, WSL). O formato do evento ou de seu trials mudou com o passar dos anos, mas o conceito é basicamente é assim: “Foda-se a WSL e fodam-se todos os outros eventos do ano e fodam-se os tops. O Hawaii é especial, e pra que a gente permita que vocês façam seu evento em Pipe, mais vagas e oportunidades tem de ser dadas a nós, locais e donos de Oahu. Our wave, our rules.

Ah, Pipeline é especial? Bom, os australianos também acham Snapper Rocks e Kirra especiais, mas não conheço histórias de chantagem por lá. Nem em Teahupoo, onde os também polinésios Tahitianos recebem muito bem os surfistas e a etapa do CT. A mesma coisa com os franceses em Hossegor e com os portugueses que idolatram sua amada Supertubos. E por aí vai. Mas no Hawaii é “diferente”, é isso?
 

 

“Fast Eddie" Rothman ameaçando e exigindo 16 vagas no Pipemasters pros locais

 

Isso sem contar a violência covarde contra os surfistas estrangeiros. Nem foco apenas no
localismo no freesurf. Falo em etapas oficiais do circuito mundial! São exemplos de agressões de havaianos DURANTE o Pipe Masters, na cara do mundo todo e que NUNCA foram punidas pela ASP -- se vocês conseguem chamar de punição uma multa de US$ 1.000 por dar uma tapa na cara de um colega competidor em frentes às câmeras do mundo inteiro... Foi isso que o Makua Rothman (filho do Eddie, não por acaso) pagou após agredir covardemente o pernambucano Paulo Moura.

Ou ainda, o herói local Sunny Garcia agredindo o brasileiro Neco Padaratz na água durante uma bateria e o perseguindo pela praia em face à toda a comunidade do surf e mídia internacional, em frente ao palanque em Pipeline. Nossa, como nosso esporte é profissional no Hawaii, não é mesmo?

 

Sunny Garcia ameaça brasileiro Neco Padaratz após confusão na bateria

 

Ou ainda o mesmo Sunny Garcia quase matando um australiano ao lado da área de
campeonato, na Gold Coast. Nada de punição exemplar ao Sunny, novamente.
Sabem por quê, meus surpresos leitores? Medo de represália dos locais no Hawaii no final do ano.

 

Jeremy Flores e Sunny Garcia atacam local na Austrália

 

A ASP e a WSL sempre se acovardaram totalmente, cedendo à pressão dos locais e criando um Tour com regras implícitas diferentes entre o resto do mundo e os especiais havaianos. Tudo em nome da preservação da possibilidade do grand finale em Pipeline, a onda mais reverenciada do mundo -- uma vez que, sem ela, um campeão mundial nunca seria considerado autêntico.

Será?

Eu posso aprovar e curtir um Tour sem Pipeline, sem muito drama. Por quê não coroar um
campeão mundial em G-Land com 8 pés, clássico? Jungle Fever! Ou ainda, mudar o calendário para uma grande final de circuito em um Teahupoo gigante? Voltem Fiji ao calendário em 2019! Seria a Tríplice Coroa das Esquerdas: Teahupo/G-Land/Fiji. Genial! Resolveria dois problemas com uma só tacada. Fim das chantagens e pressões havaianas e um tour mais equilibrado entre ondas pra direita e esquerda.

 

Pra lhes lembrar do frenesi alucinante que foi a última etapa do Tour realizada em G-Land

 

E em relação às duas etapas finais do WQS em Oahu, francamente... Dá pra viver numa ótima sem Haleiwa ou Sunset. Manda um desses QS pra Honolua, outro pro Marrocos, que dá altas ondas e é super exótico. Novos ares, novos países e culturas no surf competição mundial. Ou Macarronis. Ou Uluwatu. Ou Raglan. Ou Chile. Ou Cacimba do Padre. Ou Puerto Escondido. Ou Salina Cruz. Opções existem aos montes, caros leitores.

“Ah, James B, você é um maluco! E o charme e tradição da Tríplice Coroa Havaiana? Já são 50 anos!”

Sei... me digam aí, de memória, os vencedores das últimas três ou quatro Triple Crowns. Quem lembra? Um chaveiro da Da Hui autografado pelo Fast Eddie de prêmio pra quem acertar. E ainda em relação à tradição: Bells Beach é o evento mais tradicional do Tour. Alguém aí morreria se essa etapa saísse do calendário?

A verdade é que serão os surfistas havaianos os mais prejudicados pela saída do Pipe Masters e possivelmente da Triple Crown do Tour. Pra dezenas de sufistas profissionais locais, é a gigantesca exposição e cobertura da mídia internacional durante dois meses de alta temporada que garante muitos de seus contratos de patrocínio e viabiliza uma vida trabalhando fora da construção civil, ou das plantações de abacaxi e subempregos -- que são muitas vezes a realidade de Oahu. São esses caras, e não os arrogantes Eddie Rothman e o semi-aposentado Sunny Garcia, que irão pagar o preço mais alto pela saída do Tour do North Shore. Péssimo pra eles. Já para os competidores internacionais da WSL, de repente representará até um certo alívio, eu creio.

Claro, para a WSL, a coisa ficou muito feia também, principalmente pela clara demonstração de amadorismo de sua atual gestão. Sinal amarelo pra CEO Sophie (digamos que seja apenas coincidência ela não surfar, não entender do esporte e esse fiasco havaiano logo em seu primeiro ano à frente do negócio). Hey, Sophie, uma quad não é a mesma coisa que uma thruster, all right?

Pra finalizar, eu sinceramente até sentirei falta de assistir ao rush de estresse e da pressão que os competidores sentiam chegando no North Shore em dezembro lutando por pontos pra se qualificar pelo QS ou pelo CT nas últimas três etapas. Talvez esse seja esse o maior prejuízo para o Tour -- a falta que fará aquela antecipação e ansiedade no público, mídia e surfistas chegando na reta final do circuito.

Mas paciência. Culpem Sophie, a WSL ou até o prefeito de Honolulu, não vosso amigo James B.


PS: Quem quiser saber um pouco mais sobre a cultura da intimidação e violência - mas
também sobre o respeito, amor pelo oceano e aloha havaianos, recomendo a leitura do
fantástico livro Barbarian Days, do vencedor do prêmio Pulitzer William Finnegan, que passou
parte de sua infância surfando no Hawaii. Tem pra vender no Brasil e vale muito a pena.