POR TRÁS DAS LENTES // Erick Proost

 
 

A primeira coisa que o diretor de fotografia Erick Proost quis esclarecer foi o seguinte: não, ele não é primo do antigo piloto de Fórmula 1, Alan Prost. O paulistano de 27 anos é filho de surfista e, apesar de crescer na Grande São Paulo, surfa desde os 7 anos de idade. Já chegou até a competir - vencendo alguns campeonatos amadores - mas foi na filmagem que se encontrou.

Hoje, quando se fala em filmagem de dentro da água, seu nome um dos primeiros na lista. Tanto que o próprio campeão mundial Adriano de Souza chamou Erick para acompanhá-lo durante algumas viagens no ano passado, inclusive na temporada havaiana. Seu portifólio inclui o Sorria e Com Amor, Yago - filmes premiados internacionalmente - além de trabalhos de perto com caras como Filipe Toledo e a skatista Letícia Bufoni.

Quando Erick nos enviou seu reel, tivemos que perguntar um pouco mais sobre seu trabalho. A entrevista, você lê a seguir.

 
 

Reel: o portifólio em movimento

 
 

 

Como você começou a trabalhar com vídeo?

Eu revezava a câmera com a galera nas sessões de surf e sempre dava o máximo na minha vez filmando. Quando eu ia surfar, nunca pegavam minhas imagens (risos), então eu vi que meu negócio era ficar atrás das câmeras. Fiz alguns cursos de direção e edição no Brasil e, quando mudei para California em 2011, realmente passei a viver disso. Mas o momento mais marcante da minha carreira foi quando eu comprei minha caixa estanque. Passei a estar ali, dividindo com os surfistas todos aqueles mares e tubos perfeitos que antes eu ficava só vendo da areia. Filmando da água, eu sinto algo muito parecido com quando eu estou surfando.

Você tá morando na Califa, né?

Sim, moro na Califórnia desde 2011 e foi a melhor mudança que tive na vida, com certeza. Eu cheguei em San Diego e minha ideia era só vir para estudar inglês por seis meses, mas me deparei com várias oportunidades e um estilo de vida tão bom, que nao tinha como não tentar ficar o máximo possível. Decidi deixar tudo de lado para estudar e fazer vídeos. Terminei o curso de inglês, fui fazer faculdade e, depois dos dois anos de college, fiz uma especialização em cinematografia em Los Angeles.

Também foi a Califórnia que me uniu com muitas pessoas do mundo do surf e amigos que tenho hoje, como o Filipe Toledo, os irmãos Gudauskas, Yago Dora - que morou por um tempo em San Clemente - entre muitos outros que passam por aqui.

Desses trampos do reel, você tem um preferido?

Puts, um preferido é difícil. Não sei se é porque vai passando o tempo e eu vou enjoando das imagens, mas as minhas preferidas são sempre as mais atuais. Acho que cada trabalho tem uma particularidade, seja a pessoa que voce está filmando, o lugar, ou o equipamento que está usando.... Mas eu acho que um dos que mais me marcou foi o filme Sorria, que filmei durante quase dois anos com o diretor Gabriel Novis. Além de ser bastante tempo pensando no mesmo projeto, era totalmente independente então nao tinha pressão. Foi sempre muito saudável. No final, tivemos duas grandes premieres na Califórnia, conquistamos alguns prêmios em festivais e também o Vimeo Staff Pick, que é uma seleção mundial entre os vídeos que foram publicados no Vimeo. Foi muito gratificante.

Que tipo de trabalho você mais curte fazer?

Eu tento fazer todo o tipo de trabalho com filmagem, pois a indústria do surf é muito pobre. Já fiz fashion, videoclipes, skate, futebol etc. O surf foi o que menos me rendeu lucros, mas continua sendo o que eu mais curto fazer, especialmente quando filmo de dentro da água. O trabalho passa a ser diversão e normalmente os lugares para onde viajamos são sempre um paraíso, então são nesses trabalhos que vivo as melhores experiências.

Qual foi o melhor lugar que você já filmou surf?

  Erick é especializado em filmagens de dentro d'água

Erick é especializado em filmagens de dentro d'água

A primeira impressão é sempre aquela que fica gravada na sua memoria, né, e todo surf spot tem seus dias ruins e seus dias especiais. Agora, de todos os lugares que eu fui, se teve um lugar que me marcou de um jeito totalmente diferente, foi Jeffrey’s Bay. Cara, aquilo estava surreal! Eu estava filmando com o Adriano de Souza e, na hora que cheguei na praia e vi aquelas linhas de 6-8 pés entrando igual um trem correndo a baia inteira… não consegui nem filmar, fiquei congelado olhando!

E quem é o melhor surfista pra filmar?

Ixi, essa é a pergunta mais difícil, pois muitas vezes o melhor para mim pode não ser para outro videomaker, pois acho que a filmagem é uma conexão entre o atleta e o filmer. Já tive situações com os melhores atletas, mas que não renderam o que eu queria. É muito irado filmar atletas como Adriano de Souza ou Filipe Toledo, pois são caras que fazem qualquer coisa ficar muito linda. Mas, para mim, tem uma pessoa que é incrível toda vez que vamos produzir: o Yago Dora. Já tivemos a oportunidade de filmar bastante coisa juntos. Em muitas delas, chegamos a combinar como faríamos o shot e, em pouco tempo, estávamos com a imagem feita. Isso não é fácil de fazer dentro d'água.

O que você busca para se diferenciar no mercado?

Eu sempre busco o conhecimento sobre o equipamento que estou usando e acho que esse é o meu maior diferencial. Eu sempre achei que sabia bastante, até cursar cinematografia e perceber que eu sabia não era nem metade. Filmagem é um trabalho em que o resultado final pode mudar demais dependendo da forma como o equipamento foi utilizado. Não só as câmeras, mas o bom uso da luz é fundamental. Acho que tem muita gente deixando isso tudo de lado e usando só o mínimo, que é o que modo automático faz.

Qual foi o maior perrengue que você já passou?

Uma coisa que todo filmmaker devia saber antes de começar é o seguinte: você vai passar perrengue. É sempre muita coisa para carregar, fica cheio de areia nos equipamentos e você toma muito sol na cabeça. E se decidir se especializar em água, ainda terá que lidar com os locais. Sim, os locais são os tubarões (risos). Mas mesmo com umas quatro aparições de tubarão - que foram experiências aterrorizantes - meu maior perrengue foi um dia nas Maldivas.

Fomos de barco para o pico, mas eu remei até a ilha com um SUP e todos os equipamentos em cima, para filmar da terra. O que eu não sabia é que onde eu entrei era uma prisão, e na hora de ir embora eu não podia voltar pelo mesmo lugar. Tive que pegar tudo que eu levei, inclusive o SUP, andar a ilha inteira, que levava coisa de 20 minutos em baixo de um sol escaldante, para chegar ao lugar onde os barcos paravam. Só que o nosso barco não notou o meu perrengue e não deu a volta comigo na ilha, então tive que pular na agua e remar em volta da ilha toda para achar o barco que estava parado no pico. E eu estava com uma camera RED, lentes, tripé… tudo em cima de um SUP nadando em um oceano azul fundo e com alguns tubarões para ajudar. Foi sinistro, mas deu tudo certo no final.

 
 
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Siga Erick no Instagram e conheça melhor seu trabalho: @erickproost