Entrevista Fernando Fanta

Por Steven Allain / Imagens Vaqueiro

 

Fernando Fanta acaba de voltar de uma viagem solo a El Salvador. Batemos um papo com o catarinense sobre mercado, freesurf e as oportunidades que surgem com os estranhos tempos atuais do surf brasileiro.  

 
 

Conta um pouco dessa trip: como surgiu a ideia? O que achou do pico, já conhecia?

Eu queria surfar e sair do frio do inverno de Floripa. Raramente na minha trajetória escolhi lugares para surfar de backside, mas, como já conhecia El Salvador e sabia que lá poderia ter o que esperava, comprei a passagem e decidi viajar sozinho. Acho que nunca, depois de ter me tornado freesurfer, tinha viajado sozinho -- sem fotógrafo ou cinegrafista para registrar o que estava fazendo. Foi uma experiência muito diferente e proveitosa apenas por você estar fazendo por si mesmo. Foram outras visões, outros aprendizados e outra forma de viver o que sempre me propus a fazer.

O que mais te surpreendeu?

Uma das coisas mais impressionantes foi o descaso com o meio ambiente. Muito, mas muito lixo na praia e quando chovia, o esgoto parava todo no mar. Um pouco caso que vem aumentando nitidamente desde a primeira vez que estive lá.

 
 Também tinha umas direitas…

Também tinha umas direitas…

 

Faz tempo que não vemos uma trip sua. O que tem feito ultimamente?

Tenho feito o mesmo de sempre, mas ultimamente eu ando surfando e filmando bastante em casa. Eu ainda viajo bastante pra fora pra fazer as campanhas do meu patrocinador e para as surf trips, mas talvez as mudanças no mercado do surf tenham dificultado um pouco a realização e divulgação de alguns projetos, comparando com o mercado de antes. Mas, por outro lado, com essas mudanças também tem surgido várias outras oportunidades super legais para a gente mostrar nosso trabalho, como os sites realmente válidos, redes sociais, alguns canais de televisão e por aí vai. Eu vejo como um processo que está em transição e ainda estamos aprendendo a lidar com ele.

 
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Você está com a HB agora?

Sim, eu voltei pra Hot Buttered, que foi meu primeiro patrocínio. Foi bem legal retornar pra marca que foi a primeira a te apoiar e acreditar em você, é tipo um reconhecimento do teu trabalho, da tua carreira e eu me sinto muito honrado em voltar a fazer parte desse time.

Pensa em fazer algo diferente no futuro? Você já pensa na transição de surfista profissional para outra atividade?

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Na verdade, o que penso é em me aposentar como surfista (risos). Quanto a transição, claro que eu penso nisso porque, infelizmente, no Brasil o mercado não costuma valorizar e criar ícones desse esporte, principalmente patrocinando e ligando o conceito das marcas com os atletas mais velhos, ídolos do surfe, como temos muitos exemplos clássicos pelo mundo afora. Assim, a gente vai se engendrando durante a vida com coisas que gostamos pra sim, termos esse tal plano B.

 
 

Anos atrás, você participava de projetos irados com o James (Santos) e o Cássio (Sanchez), viajando o mundo pela MCD, às vezes até para picos que não tinham onda. O que mudou nas marcas nessa última década, que não embarcam mais em projetos alternativos como aquele?

Acredito que o mercado do surf mudou bastante nos últimos anos, tanto pro bem quanto pro mal. O reflexo da economia do país é um dos aspectos claros, além talvez da falta de visão. O que é engraçado, é que em outros países continuam produzindo e de forma cada vez mais brilhante. São poucas empresas aqui no Brasil que sustentam a engrenagem desse ramo, como as marcas gringas fazem. Quanta gente valiosa temos pra gerar conteúdo que é vendável? A gente entende nossos momentos turbulentos, economicamente falando, mas, não podemos deixar de falar que falta alguma coisa daqueles que estão no “comando”.

 
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Por que isso rola hoje em dia? O freesurfer perdeu seu valor, seu apelo?

Eu não acho que o seu valor, talvez um pouco do foco. O freesurf continua vendendo e fazendo sua história no mecanismo do esporte. Apesar de nunca ter sido um dos ramos mais valorizados, esse boom do circuito mundial pode sim ter tirado a atenção tanto dos investidores quanto dos apaixonados pelo surf.

 
 
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Quem perde com tudo isso: o público ou o surfista profissional? Ambos?

Acho que todo mundo perde. O atleta perde na parte profissional, a futura geração perde pela falta de opções -- em qual parte do esporte irão dedicar suas carreiras? -- , o público que gosta de surf perde e a criatividade dos freesurfers acaba sendo boicotada, mesmo sendo eles que sempre apresentam algo diferente do que estamos acostumados a ver.

Você foi um cara sempre ligado nas produções de vídeo de surf, participou e estrelou vários vídeos. Como vê o fim dos filmes mais longos de surf?

Eu acredito que isso é mais um reflexo das mudanças que atingem toda a sociedade, as coisas estão cada vez mais rápidas, passageiras, efêmeras, 140 caracteres, ninguém mais tem paciência pra textos longos, filmes longos. A ficha ainda não caiu. Nossa geração foi levada por isso, mas é preciso se adaptar. Mesmo assim continuamos com projetos incríveis, tanto que o que mais espero hoje, é o lançamento do filme Inaippu do Loïc Wirth, que tive o prazer de fazer parte.

 
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Olhando para trás, o que mais te orgulha na sua carreira de surfista?

É a questão de sempre ter feito o que quis fazer e sempre ter tido decisões baseadas no que realmente me faria feliz.

 
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