Entrevista Petterson Thomaz

 
 

Sobre produções, poluição e seu novo video “Desculpe, estou ocupado surfando!”

Fotos por Bal Humpreys, Alexandre Ribas e Juan Medina

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Caramba, acabei de assistir ao vídeo e me deu vontade de estar Indonésia agora… era essa a ideia?

Total, (risos)! A ideia era passar uma mensagem com imagens que justificassem o título do vídeo (Desculpe, estou ocupado surfando!). A maioria das pessoas que conheço gostaria de estar ocupada surfando, então é uma forma de agradecimento pelas oportunidades que a vida tem me dado e, além disso, mostrar para as pessoas o quanto é bom essa pausa e isolamento do mundo, quando se está em um lugar como as Ilhas Mentawai, na Indonésia.

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O que faz da Indonésia, na sua opinião, um lugar tão procurado pelos surfistas?

Sem sombra de dúvidas as ondas e o custo beneficio de se viver e fazer trips por lá, apesar da passagem do Brasil ter um custo alto. A alimentação, hospedagem e transporte entre as ilhas é muito acessível, comparando-se a outros lugares do mundo -- sem dizer que a água é quente e a energia das pessoas é boa demais.

Para alguém que nunca foi a Indonésia, como você explicaria a diferença entre as Ilhas Mentawai e o resto do país?

Mentawai é tipo um parque de diversões pra quem surfa, está tudo a seu alcance, todos os tipos de brinquedos. É só esperar a condição que você deseja e ir até o brinquedo (onda) mais divertido (risos). E a Indonésia, como um todo, ainda tem muito a ser explorada, acredito eu. Bali e Desert Point são aquela loucura de sempre, mas com tempo e dedicação você acha uns cantos interessantes com muita onda boa pelo país.

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Sabemos do problema do lixo na Indonésia, que é atualmente o 2º país que mais polui os oceanos. As praias de Bali ficam cobertas de lixo quando chove. Isso ocorre também na Mentawai?

Sim, na Mentawai e em outras ilhas também acontece. A cultura em relação ao lixo na Indonésia é deprimente. É comum observar adultos e crianças jogarem plástico e vidro no mar ou simplesmente em qualquer lugar da rua (que depois irá para o mar). Em alguns lugares estão fazendo projetos e ações que protegem os oceanos. Já vi em Bali e também em Sumbawa, o que é muito legal -- porém a verdade é que essas ações são muito pequenas em comparação ao tamanho da destruição.

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Você está envolvido em ações para a limpeza dos oceanos, verdade? Conta um pouco.

 Na verdade, tento estar envolvido com ações que tragam algo positivo pro planeta, para as pessoas, para as futuras gerações. Sejam ações de coleta de resíduos plásticos, palestrando em escolas ou apenas mostrado minhas ações práticas no dia a dia, pois isso também influencia as pessoas a fazerem o bem e é a minha forma de retribuir ao oceano toda a felicidade que ele me fornece. Isso tudo começou há varias anos com um projeto do meu patrocinador, a Oceano, chamado “Keep The Ocean Blue”. Desde que começamos a fazer as coletas e visitar escolas, sempre gostei muito dessa interação com a molecada e de ver o quanto eles curtem fazer parte disso. Hoje levo esse propósito comigo independente do lugar pra onde vou.

Como os surfistas podem ajudar nessa frente?

Amamos o mar, o nosso parque de diversões gratuito, que não cobra nada para nos fazer feliz. Acredito que nós surfistas devemos retribuir essa gentileza, seja com ações de limpeza, cuidando da praia ou simplesmente passando essa mensagem adiante. Tem até um termo que usamos em algumas ações que se chama: “Pague Seu Ingresso”. E é justamente isso, para que de alguma forma possamos pagar pelo que usufruímos através das ações de limpeza. É lindo de ver caras como o Ítalo Ferreira na etapa do Tour em Bali, ajudando na coleta do lixo e mostrando isso a milhares de pessoas no planeta. As pessoas e principalmente os surfistas e aquelas que usam do oceano para alguma prática deveriam ter atitudes como essa de exemplo.

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Mudando de assunto, além do surf você sempre esteve envolvido com produções audiovisuais, certo? Seu último vídeo foi editado por você mesmo?

Sim, curto muito editar e produzir vídeos das minhas viagens. É sempre um desafio, tentar surfar melhor que a última temporada e depois tentar melhorar a edição, a produção, tentar achar uma trilha mais inspiradora e por aí vai. Sem dizer que isso também é uma das formas de mostrar meu trabalho.

O que te atrai na produção de vídeo?

Há um tempo o que mais me atraia era a performance, independente do vídeo, sempre ficava instigado em ver algo que me motivasse a ir pra água. Ainda gosto bastante, mas a minha visão de uma produção foda mudou bastante de alguns anos pra cá. Hoje, vejo que a produção tem que ter uma boa performance, uma trilha que engaje e te prenda, mas além de tudo tem que ter um propósito, um sentido pra aquilo tudo. Esse conjunto da obra é hoje o que mais me atrai nas produções de surf. Curto e levo como inspiração trabalhos de amigos como Bruno Tessari, Pablo Aguiar, Loïc Wirth e Mickey Bernardoni.

Como o universo digital transformou as produções envolvendo surf?

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Ficou tudo muito instantâneo. Nego dá um backflip e a imagem já roda o mundo, não tem mais aquela curiosidade gigante em relação a performance nos vídeos, nos filmes mesmo. Lembro que quando eu era moleque, esperava o ano todo pra ver quais manobras iriam sair no filme do Taylor Steele ou qual aéreo o Sifu acertou nos filmes da Que!. Então a coisa mudou muito. Hoje, mostrar o dia a dia, treinos, manobras e o que está acontecendo no momento é natural, com isso as produções de surf mudaram. Hoje para ser uma produção de surf mesmo, o filme tem que ter um propósito, ser muito mais cinema do que apenas performance. É só ver os filmes do Taylor Steele da década de 90 (Loose Change, Good Times e outros) e o “Proximity” que foi lançado ano passado: o mesmo diretor, mas focos diferentes nas produções. O surf se tornou muito mais cinematográfico.

O surfista profissional, atualmente, precisa produzir (ou ter uma equipe que produza) conteúdo constantemente?

Acho que é fundamental e parte da profissão do surfista profissional produzir conteúdo relevante, independente de ter uma equipe ou não. Claro que muitas vezes o orçamento não ajuda, mas aí é outro ponto, porque mesmo quem tem pouca condição, mas quer seguir na profissão, deveria investir na produção de conteúdo -- por mais simples que seja. Mesmo os caras que teoricamente não precisariam se importar em produzir, como o Gabriel Medina e o Adriano de Souza, eles produzem, e não só seus programas na TV mas também webséries, conteúdos para Youtube, Instagram e outros. 

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Como vê o futuro das produções e filmes de surf?

Acredito que as produções de surf performance nunca perderão seu valor, até porque o surfista fissurado nunca irá deixar de assistir esse conteúdo, mas tenho um pouco de receio das produções virarem mais comerciais e perderem sua essência, buscarem, apenas em visualizações nas mídias sociais. Isso é complicado, por que o surf entrou em um patamar onde empresas de diversos segmentos estão investindo. Em termos de mercado, o Youtube já domina e acredito que vai dominar ainda mais, isso favorece quem está atento a essas mudanças. Vejo que o skate tomou esse rumo com suas mídias, atletas e produtores investindo em seus canais sem perder sua essência. É algo que arrisco dizer acontecerá com o surf também. No Brasil, vocês da Moist já usam a plataforma, assim como alguns produtores de conteúdo. A WSL é legal porque você interage e pode colocar diversos tipos de vídeos diferentes, então as produções que já existem, não deixarão de existir, apenas mudarão os formatos, talvez mais curtas, seções isoladas, enfim, por aí vai…O bom é que a internet está aí para expandir e dar oportunidades a todos, qualquer um com uma câmera e um computador pode mostrar seu trabalho ao mundo!