Surfe com "E"

 
 

Texto Matias Lovro

Fotos Gabriel Vanini

O que o surfe une a terra não separa. Ouvi isso logo antes de embarcar de volta para casa, e logo me coloquei a escrever. E escrevi surfe, com “E” no final mesmo.

Aqui na Moist, a gente sempre escreveu "surf" — e com razão, afinal, é este o nome original da atividade na sua língua de origem. O “surfe” era uma uma exceção reservada ao nosso colunista teimoso e cheio de maneirismos de redação, o Julio Adler. Mas agora, depois de voltar do Lagoa Surfe Arte, que aconteceu nestes últimos dias em Florianópolis, passo a escrever surfe com E.

Confesso que embarquei rumo ao sul sem saber muito bem o que esperar. Mas mesmo assim, já com um certo receio. Desde quando o idealizador do evento, Fabrício Flores Nunes, me contatara com o convite para que a Moist participasse do evento, um pé permanecia atrás. Afinal, realmente precisamos de mais um evento sobre cultura surfe? Já não basta ser cultura? Não basta ser arte, precisa ser surfe arte?

 
 Palestrante do LSA, diretor premiado nesta edição e freesurfer, Junior Faria testa uma Siebert sem quilha feita de cortiça.

Palestrante do LSA, diretor premiado nesta edição e freesurfer, Junior Faria testa uma Siebert sem quilha feita de cortiça.

 

Aos poucos, passei a me questionar. Num primeiro momento, ao ver quanto o Fabrício estava lutando para viabilizar que eu fosse até lá, só para passar uma hora batendo papo sobre novas mídias e jornalismo no surfe. Mas pensando a respeito, só de existir uma mesa redonda sobre isso, já serviu para que acendesse uma luz amarela na minha cabeça. Afinal, o lema do evento é "surfe com conteúdo", então houve certa identificação. Depois, vendo quanta energia fora colocada para concretizar cada uma das atividades — do festival de curtas, o único do Brasil em uma sala de cinema com projeção, à curadoria da exposição, ao teste de pranchas, às oficinas, dentre tantas outras —, minha percepção inicial continuou questionada. Cada vez mais.

Só que não tinha como entender o que era o LSA até pisar em Floripa. As condições não estavam favoráveis. Chovia — a ilha turística, cuja população triplica durante o verão, não tinha trânsito em pleno feriado — pessoal tende a se entocar no frio. E mesmo assim, o sorriso não saía do meio da barba do organizador da coisa toda. Fabrício trabalha de camisa e calça social, a mais de 1000 km do mar, justamente servindo os oceanos como consultor e assessor técnico de Maricultura em Brasília. Passa o ano inteiro correndo atrás de organizar um festival por puro amor ao surfe e e fez questão de buscar pessoalmente o cara da mesa redonda de jornalismo que ele nunca viu na vida. Nesse feriado chuvoso, no meio de tanto pepino de produção dos quais não tiraria um centavo, ele estava tranquilo.

 
 A equipe LSA durante a premiação do festival de curtas.

A equipe LSA durante a premiação do festival de curtas.

 

O que eu não estava ciente é de que, se o Fabrício estava tranquilo, era somente porque sabia que tinha o resto da equipe de produção para confiar — esta toda formada por mulheres, ainda por cima. Disto eu só soube depois, mas ali no meio, circulando pela Lagoa e arredores do evento, participando das atividades, eu já começava a ligar os pontos. Ao ver os convidados — e as convidadas — o diferencial daquilo tudo passava a se desenhar.

Mas foi durante a primeira mesa redonda, sobre a quebra de paradigmas e preconceitos no surfe, que bateu. Estávamos numa ilha. Coincidentemente ou não, isso se passava em Florianópolis, mas a Ilha da Magia nesse caso ia além do apelido. Com aquelas pessoas que resolveram enfrentar o frio, o vento e a chuva para assistir a educadores conversando com cadeirantes, fotógrafos, mulheres e homens de diferentes orientações sexuais debatendo os desafios que o surfe enfrenta nos dias de hoje, bateu. Esse evento é uma ilha dentro do surfe também.

Enquanto as conversas e debates entre surfistas são dominados por quem levará a próxima etapa do Circuito Mundial, qual é a nova onda mais perfeita do mundo, ou se as marolas de piscina fazem jus às do oceano, existe, sim, gente que debate questões que afetam todos os surfistas comuns. Pessoas que nunca colocarão uma lycra de competição na vida, mas que ficam incomodadas com uma mulher sendo rabeada simplesmente por não ter bolas. Ou com a situação daquelas que colocam a lycra, mas não têm nem a oportunidade de ganhar metade do que os correspondentes masculinos. Ou até mesmo um shaper de pranchas performance em conflito interno ao comprar um bloco não-reciclado, mesmo sabendo que nem tem pra vender por aqui.

 
 Mesa Redonda: Quebrando paradigmas e preconceitos no surfe

Mesa Redonda: Quebrando paradigmas e preconceitos no surfe

 

Eu poderia escrever sobre o Lagoa Surfe Arte falando sobre tudo o que aconteceu. Parabenizando os organizadores e os filmmakers nacionais que lutaram para produzir conteúdo de qualidade, que saíram com um ou até dois troféus. Descrever a sensação de testar um novo modelo de Alaia feita de cortiça pelo cara na vala ao lado. Ou talvez tentar lembrar o que discuti durante aquela mesa redonda sobre novas mídias, entre uma Corona e outra.

Mas prefiro escrever sobre como embarquei para este evento desiludido. Sem energia para pensar em quem seria o próximo Campeão Mundial da WSL, enquanto outros assuntos mais importantes eram discutidos longe das ondas. E também sobre como retornei inspirado e com um olhar renovado sobre o surfe — que agora, faço questão de escrever com E. Bem abrasileirado mesmo, porque o surfe do Brasil é diferente do surf mundial, sim. Envolve mais questões. Envolve todo o nosso entendimento como cidadão deste país e toda a bagagem que isso arrasta junto. As particularidades, a cultura, o jeito de se relacionar ou até mesmo o de torcer. E as frustrações.

Eu sei que o Lagoa Surfe Arte vai além daqueles dias frios e chuvosos, compartilhando ondas e ideias na capital de Santa Catarina. O evento mostrou — e mostra — que o surfe ainda é tão relevante, apaixonante e contestador quanto sempre foi. A contracultura continua no DNA — basta saber onde procurar. Se isso for representativo da população de surfistas no Brasil, já serviu para quebrar qualquer expectativa.

Vida longa ao LSA.

 
 
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