Mais um ano no paraíso

 

Bruno Zanin é um daqueles caras que você quer ter por perto. Além passar pelo perrengue que precisar para captar algumas das melhores imagens de surf que se vê por aí, Batavo - como é chamado pelos amigos - faz tudo com um sorriso no rosto. E uma piadas na manga, para entreter quem estiver na área. Para entrar em 2018, ele editou seu reel do ano passado - um portifólio em vídeo, mostrando seus trabalhos ao longo de 2017. Aproveitamos a deixa para trocar uma ideia sobre seu trampo. Mas, primeiro, assista ao vídeo, que é colírio para os olhos de qualquer pessoa que vive na água salgada:

Qual é sua imagem preferida de todo o reel? Dá pra ter uma preferida?

Acho que todas têm seu valor especial. Eu tento filmar tudo com o mesmo sentimento, então não sei se tenho uma preferida. Eu gosto bastante da imagem do aéreo com o por-do-sol gigante atrás, por ter ido quase a semana inteira para a praia no fim de tarde, pra tentar conectar com o surfista da bola de fogo caindo na água. Alguns dias foram frustrantes, mas no final acabou que deu quase certo. Por mais que o Carlos Gonçalves não tenha voltado do aéreo, eu gostei bastante da composição.

Qual foi a melhor trip dessas imagens?

Voltamos para a ilha onde filmamos Um Filme de Surfe em 2016. É uma onda que foi descoberta por um amigo nosso que vive na Indonésia há mais de 20 anos. Deu tudo errado quando fomos em 2016 - enfrentamos terremoto, tempestade, maral quase todos os dias... Eu tinha prometido pra mim mesmo que nunca mais voltaria lá, mas não aguentei. Por mais que seja uma função bizarra para chegar no local, voltei com o Yuri Gonçalves, Vini Pereira e mais uns amigos e ficamos 11 dias desconectados. Na verdade, ficamos mais conectados com o mundo - sem telefone, sem internet... só voce e seus amigos, muita conversa, risadas, e dessa vez sem terremoto, maremoto, a porra toda (risos). Foi sonho!

Maior perrengue?

Puts, teve uma situação bizarra. Depois de três dias filmando Desert Point / Grower em condições épicas, eu estava arrumando minhas coisas no carro, quando uma aranha subiu no meu pé. Eu me assustei, fui chutar ela e acabei chutando a porta do carro que estava aberta. Fez um mini corte que foi o suficiente para que uma bactéria sinistra, staphylococcus, entrasse e me deixasse de molho quase um mês. Passei três semanas de cama no antibiótico, muito mal... Minha perna estava gigante, com uma bola de pús, enfim... Ardi de febre por uns três dias, acho que nunca tinha me sentindo tão fraco. Tive que realizar uma serie de procedimentos médicos, mas no final deu tudo certo e valeu a pena. Eu passaria pela mesma coisa se fosse para filmar as ondas que filmei naquele swell.

Conta um pouco sobre essas outras imagens que não são de surf, como a da garota no final do vídeo.

Tentei botar no reel as imagens que mais gostei de fazer. As meninas foram para trabalhos aleatórios que eu fiquei amarradão de ter filmado. Amo a beleza das mulheres, as curvas - quem não gosta, né? Sempre tive curiosidade de filmar fashion films, eis que surgiram as oportunidades e eu gostei pra caramba. Estou tentando sair um pouco só do meio do surf. Pretendo estudar e arriscar coisas diferentes em outras áreas. Mas isso não quer dizer que vou largar os filmes de surf - acho que minhas raizes já estão bem presas nesse terreno.

Qual é o tipo de trabalho que você mais gosta de fazer e por quê?

Gosto muito de trabalhar com meus amigos, de filmar as pessoas com quem mais me identifico. Trabalhar livre, sem pressão, render, poder editar com a música que mais gosto - fazer as coisas do meu jeito e botar o meu olhar. Esses sempre acabam sendo os melhores vídeos.

Quanto tempo você acha que passou sentado (ou de pé) na praia em 2017?

Não consigo filmar sentado, acho que perco a segurança e a pegada da câmera. Então vamos lá, vou fazer uma conta bruta aqui rapidinho no telefone. Claro que existem dias de mar clássico em que você passa 12 horas em pé na praia. Assim como tem dias que não rende nada porque o mar está uma bosta e voce não passa mais de uma hora trabalhando. Fiz um cálculo superficial aqui: umas 800 horas em pé na praia, facilmente. E pode botar aí mais umas 300 horas sentado em casa editando (risos).

O que te inspira?

Minha família e meus amigos são minha maior fonte de inspiração. Do lado profissional, eu gosto muito da pegada dos filmes do Joe G., Pablo Aguiar, Tessari, Loïc Wirth, Pietro França... A lista de boas inspirações é grande, ainda bem! 

O que você gostaria de estar produzindo daqui a dez anos?

Sinceramente? Daqui a dez anos eu quero continuar sendo quem eu sou hoje. Eu vivo o meu sonho. Viajo o mundo com meus amigos atrás de ondas e lugares incríveis, tenho a melhor família do mundo, eu amo meu trabalho... na real, eu amo tanto o meu trabalho, que às vezes esqueço que tenho um trabalho.

Talvez daqui a dez anos, eu gostaria de estar produzindo algo com uma verba de verdade, com as marcas apoiando e abraçando mais os projetos. Sem corte de orçamento, sem miséria. Hoje em dia, a crise tem ferrado um pouco a galera, mas mesmo assim tem muita gente fazendo acontecer. A galera praticamente virou  ''produtora de um homem só''. Queria muito poder juntar todo mundo que filma num projeto, pagar o que cada um merece e fazer o filme mais foda que ja existiu.Mas vamos estar trabalhando igual... a vida é boa!