JAMES B // Mercado nacional ameaçado

Texto: James B.

Já há algum tempo eu tinha vontade de escrever sobre elas. Sobre aquelas coisinhas lindas, de curvas perfeitas e sensuais, maravilhosas dentro e fora d´água e que nos fazem apaixonar às vezes logo à primeira vista, e quando aquela conexão mágica acontece, nos trazem tanta felicidade... Não, cabrones, não estou falando da Alana Blanchard, da Maya Gabeira ou da Malia Manuel - que também derretem qualquer coração, mas isso fica pra outra coluna. Hoje quero falar sobre ela, a prancha de surf. Aliás, sobre o mercado brasileiro de pranchas de surf. E sobre seu presente e futuro.

 Nosso maior objeto de consumo.

Nosso maior objeto de consumo.

Enquanto eu escrevo essas linhas está acontecendo, em setembro de 2017,  a The Board Trader Show,  feira nacional voltada exclusivamente ao mercado de pranchas. Uma iniciativa que eu considero espetacular e que agregou muito ao setor no Brasil. Por isso não consigo pensar em um momento melhor pra escrever sobre esse assunto do que agora.

Sou um consumidor regular e fissurado em pranchas, assim como a maioria dos leitores do MOIST, eu creio. E bem como para vocês, amigos, prancha de surf pra mim é coisa séria,  preciosa e diretamente ligada à minha felicidade e minha liberação de endorfina diária. Porém, não sei até que ponto o surfista brasileiro consumidor que não costuma se debruçar sobre as entrelinhas do esporte consegue perceber em seu dia a dia... Mas nos últimos anos estamos assistindo de camarote a uma revolução mercadológica silenciosa (as vezes nem tanto) no mercado brasileiro: a invasão das marcas de pranchas multinacionais.

 o shaper e fabricante local. Espécie em extinção no Brasil?

o shaper e fabricante local. Espécie em extinção no Brasil?

Apesar de já estarem no Brasil até há mais tempo, aproximadamente nos últimos 5 anos os maiores fabricantes internacionais de surfboards fincaram suas bandeirinhas e se estabeleceram de forma sólida e  definitiva no Brasil. Essa invasão vem causando MUITO estrago em toda uma cadeia produtiva que há décadas existia e sobrevivia de uma forma “pacífica” no país e que, de repente, se viu perdendo clientes, faturamento e espaço.

FATO: os fabricantes de prancha nacional estão vendo seu mercado encolher nos últimos anos. Shapers locais que em minha cidade produziam uma média de 80 pranchas/mês, agora estão lutando para conseguir vender 40 (!).

Distribuidores de insumos como blocos de PU/EPS, resina, fibra de vidro e as outras dezenas de itens que compõe a fabricação de uma prancha também estão vendo suas vendas e faturamento caindo repetidamente. Pintores, lixadores e laminadores locais também estão diminuindo seus ganhos quase que mês a mês.

 Máquinas de shape e produção em escala. Um futuro sem “alma”?

Máquinas de shape e produção em escala. Um futuro sem “alma”?

E qual o motivo desse encolhimento no mercado? A crise econômica que pegou o país em cheio nos últimos anos? Talvez, em parte. Mas surfista apertado de grana pode até demorar um pouco a mais a trocar de equipamento, mas não deixa de comprar e ter prancha pra temporada. Afinal, sem prancha não surfamos, concordam?

A razão para o afinamento dessa parcela de mercado dos shapers made in Brazil são as milhares de pranchas de marcas estrangeiras que não atuavam no Brasil e que, a partir do estabelecimento de acordos de licenciamento com shapers e empresários brasileiros, começaram a ser produzidas e comercializadas  no nosso país a partir de processos de usinagem em máquinas de shape, em uma competição absolutamente injusta com os fabricantes locais.

Desigual, porque uma prancha de uma marca multinacional chega ao nosso mercado com uma série de vantagens competitivas:

- São marcas com marketing poderoso e muitas vezes global, que patrocinam estrelas do esporte e que criam um apelo de consumo muito forte.

- Como vendem mais, produzem em maior escala, otimizando os custos de produção e negociando serviços e insumos a preços muito melhores, diretamente das indústrias - viu aí porque os pequenos distribuidores de insumos locais também estão minguando?

- Mais capitalizados, os grandes fabricantes investem em pesquisa de novos materiais e lançam novos modelos de pranchas frequentemente, aquecendo a demanda pela marca.

E os shapers brasileiros? Alguns maiores, mais reconhecidos e estruturados, ainda conseguem fazer frente às marcas de fora e conseguem manter uma parcela de mercado. Ou ainda os que, prevendo esse tsunami de prancha internacional chegando, saíram na frente e se tornaram licenciados das marcas de fora, e estão nesse momento ganhando grana e mandando royalties pro exterior. Capitalism Rules, baby!

Já os fabricantes locais, menores, estão sendo espremidos por todo o país. Muitos tentando se adequar e se acomodar em um nicho de mercado que ainda existe, que eu respeito, e acho o maior diferencial a favor do shaper local nessa luta David x Golias: a venda e a produção de pranchas personalizadas, o contato olho a olho com o cliente e a possibilidade de oferecer ao surfista mais “alma” e feeling na confecção de seu brinquedo sagrado da felicidade.

Eu acredito que ainda há sim espaço no mercado brasileiro para esse tipo de posicionamento, mas que vai exigir cada vez mais que o fabricante invista em um marketing eficiente, estreite ao máximo o relacionamento e a proximidade com seus clientes e tome muito cuidado com a imagem de sua marca.

 
 O apelo da prancha gringa supera o prazer de possuir uma prancha que foi feita pessoalmente para você?

O apelo da prancha gringa supera o prazer de possuir uma prancha que foi feita pessoalmente para você?

 

Ou então trabalhar uma política agressiva de preços, oferecendo pranchas bem mais baratas que as gringas, que por terem um valor agregado maior, trabalhando de maneira mais formal e ainda pagando royalties, custam mais caro que as “nacionais”;  apesar de que, a médio e longo prazo, eu acredito que a estratégia de preço baixo como mecanismo de sobrevivência é difícil de se viabilizar.

E enquanto esse processo está acontecendo nesse momento no Brasil, eu de vez em quando vejo acusações, críticas e opiniões apaixonadas tanto de fabricantes locais quanto de lojistas que vendem as pranchas gringas ou surfistas. Vou citar apenas alguns exemplos do que li ou escutei nessas conversas que tive recentemente:

“Uma prancha gringa comercializada no Brasil vende apenas a logomarca/sêda de fora e um produto final de qualidade menor, as vezes com blocos de PU baratos, de qualidade inferior e a preço de ouro”.

“O shaper local não se recicla, não viaja para evoluir, adquirir mais conhecimento e agregar valor à suas pranchas”.

“O lojista não se preocupa com o mercado local visando o lucro a curto prazo das pranchas gringas, mas no futuro vai se arrepender quando essas marcas passarem a criar canais locais  diretos de venda ao consumidor e o lojista ficar sem o gringo e sem o fabricante local”.

“O surfista brasileiro prefere se exibir na praia com uma prancha gringa, mais cara, mesmo que ela não seja melhor para ele do que uma nacional poderia ser”.

Cada uma dessas opiniões tem um certo sentido ou razão, dependendo de seu ponto de vista. Mas é óbvio também que existem licenciados produzindo no Brasil pranchas de fora com alto padrão de qualidade, há shapers nacionais que investem em pesquisa e evolução de seus produtos e também ainda há lojistas que abrem espaço para os fabricantes locais. E também há surfistas que efetivamente se deram bem com elas e adotaram as pranchas de fora.

Qual a conclusão? Como evoluirá e pra que lado vai pender a balança do mercado de pranchas de surf no Brasil? O shaper brasileiro vai desaparecer a médio prazo? Isso seria trágico para o país? Ou sinal dos tempos globalizados?

Confesso: nos últimos anos eu caí na armadilha do marketing (ou apenas gostei mais das pranchas) e praticamente abandonei minhas pranchas nacionais e migrei meu quiver para as multinacionais.

A verdade é que esse é um assunto complexo, polêmico, que envolve muitas variáveis e muita gente boa no nosso país, e que merece muita discussão.

Mas e VOCÊS, o que acham?