JAMES B // 2017: o ano da troca de guarda

 Taj, Parko e Mick?

Taj, Parko e Mick?

Quem tem pouco mais de 30 anos de surf, como eu, começou a acompanhar o surf competitivo internacional numa época muito mais romântica do esporte: os anos 80. Era época de pranchas com visual fluorescente, Programa Realce, Revistas FLUIR e Visual Esportivo. Transmissão ao vivo, Youtube, redes sociais e internet? Não existiam. A cobertura de um evento em uma revista de surf acontecia pelo menos um mês depois do campeonato acabar. O acesso à informação acontecia em câmera lenta e a passos analógicos. E por isso, os ídolos do esporte eram criados de maneira bem diferente de hoje em dia.

Era a era da ASP, que tinha nascido das cinzas da antiga IPS, esta a fundadora do surf profissional, competitivo e organizado nos moldes do que temos atualmente com nossa amada/odiada WSL.

A minha geração só conseguia assistir aos melhores caras do surf mundial em alguns raros filmes de surf que chegavam no Brasil com muito atraso (Beyond Blazing Boards, pra citar um deles. Nessa fita, em VHS, assisti o primeiro aéreo filmado na minha vida. Um grommet aussie, chamado Marco Luciano Jay Occhilupo, logo na primeira sequência do filme). Meus amigos e eu levamos duas semanas pra entender o que foi aquilo.

 Tom Carrol e Tom Curren, anos 80. Surf performance na veia e ídolos de toda uma geração.

Tom Carrol e Tom Curren, anos 80. Surf performance na veia e ídolos de toda uma geração.

Lembro que em 1986 um campeonato chamado Hang Loose Pro Contest, na Praia da Joaquina, em Florianópolis, abriu meus olhos para o nível do surf lá fora. Ali já houve uma cobertura maior, um vídeo foi lançado pelo Ricardo Bocão (quase sempre ele!!). E aí começávamos a idealizar nossos heróis: o Occy citado acima, o baixinho invocado Tom Carrol, o Mr. Style Tom Curren, o malucão radical Martin Potter.

Esses caras dominaram o surf competição por mais ou menos uma década, até serem substituídos pela próxima geração de talentos, uma turma que ficou conhecida como a Momentum Generation. Kelly Slater, Rob Machado e Cia., ficaram famosos nos vídeos do americano Taylor Steele e, ao mesmo tempo, também chegaram chegando nos eventos e no ranking da (agora) finada ASP.

Aprofundando no assunto e sem voltar demais ao passado - porque anos 70 ninguém merece - vejamos como as gerações de referência no surf mundial alternaram-se nos últimos 30 anos:

Anos 80: Curren/Carrol/Occy/Potter/Kong

Anos 90: Knox/Machado/Slater/Dorian

Anos 2000: Slater/Irons/Fanning/Parko

O surf feito nos anos 80 evoluiu radicalmente nos 90. E o dos anos 90 mais suavemente para os 2000.

  Momentum Generation : Slats, Dorian, Knox, Machado, Williams, e Cia. Pau pra dar em doido!

Momentum Generation: Slats, Dorian, Knox, Machado, Williams, e Cia. Pau pra dar em doido!

Essa troca de guarda e quebra de parâmetros é natural e acontece historicamente em qualquer esporte. Às vezes, o movimento de ruptura é sutil e passa batido. Foi assim a transição da geração Momentum para a geração Fanning-Irons.

*A destacar o alpha-freak Slater, que surgiu no cenário no final da era Occy/Potter/Curren, reinou na era Momentum, venceu na era Irons e ainda dá trabalho atualmente. Nojento! Mas o Careca veio de outro planeta, então é ponto fora de qualquer curva.

Mas atenção: há uma nova troca de guarda acontecendo no surf mundial, AGORA!

 Medina e John John: os ídolos máximos da nova (ou atual?) geração.

Medina e John John: os ídolos máximos da nova (ou atual?) geração.

NOW: Medina/Toledo/John/Julian/Jordy/Adriano

O movimento de mudança começou com a entrada de Medina e John John no Tour em 2012 e o subsequente título do Gabriel 2014. Essa geração chegou com uma quantidade de talento absurda, chutando a porta e entrando com tudo no circuito e na mídia. Alguém esquece de um Medina novinho ganhando na França e em San Francisco e batendo Slater, Parko e companhia convincentemente em seus primeiros meses na elite? Foi naquele momento, ainda que não fosse tão claro, que a ruptura da geração anterior começou - assim como aconteceu com Kelly 20 anos antes, em seus primeiros eventos na ASP.

Com Medina, John John, Jordy Smith, Julian Wilson e, mais recentemente, Toledo, Ítalo e vários outros, o surf progressivo começou a ser efetivamente utilizado e traduzido em vitórias. Na era Irons/Slater, aéreos em baterias já aconteciam, mas não como arma efetiva e com método, como faz essa turma. E além do surf com esse DNA inovador, essa nova turma também veio afeita ao surf de borda e sabendo pegar tubos em ondas de consequência.

Fanning/Slater/Parkinson, os nomes vencedores da última década, estão, nesse exato momento, vendo seu tempo de glória e seu surf vitorioso pelo retrovisor.

Esses caras são fora de série, tanto pela qualidade de surf, quanto pela experiência acumulada nas ondas do Tour. Ainda se manteriam na elite por mais alguns anos se desejassem. Mas pra essa turma, será que continuar sem o protagonismo de antes ainda faz sentido?

Vejamos os últimos títulos mundiais:

2014: Gabriel Medina

2015: Adriano de Souza

2016: John John Florence

2017: alguém “jovem”.

Quatro anos seguidos sem uma vitória da Geração 2000. Não é acaso. É tendência. E mais que isso: os integrantes dessa “nova velha guarda” começaram efetivamente a sair de cena.

Dos Top 16 da geração Fanning, caras como Dane Reynolds, Taj Burrow e Bede Durbidge já estão oficialmente com chuteiras penduradas. Josh Kerr, Joel Parkinson, o próprio Mick e Slater já estão em vias de parar também. Tirem esses caras do Tour e façam uma média das idades dos Tops restantes. Será aproximadamente 10 anos a menos.

E ainda mais relevante que apenas o fator presença no World Tour: a nova geração internacional de fãs já escolheu seus novos ídolos. A molecada de agora não quer mais surfar como Joel e Mick. Querem ser como os Medinas, Toledos, Johns e, em breve, Yagos.

Com a velocidade da internet e das mídias sociais, as referências são muito mais fácil e rapidamente construídas e desconstruídas. Lembra da Revista FLUIR, que minha geração esperava ansiosamente aparecer nas bancas a cada mês? Não existe mais.

O brasileiro Yago Dora já era comentado e admirado por uma legião de fãs mundo afora pelo menos 2 ou 3 anos antes de surgir no WQS e classificar-se para o CT. Tudo pela internet. Como ele, muitos outros estão construindo reputações de uma maneira que não existia antes.

Mas e agora?  What´s next?

Na minha opinião, o mundo (do surf) será um lugar melhor a partir de 2018. Alguém discorda que o surf executado HOJE pela Geração Brazilian Storm é muito mais excitante de se assistir? Eu paro o que eu estiver fazendo pra assistir uma bateria Toledo x John John. Já uma Parkinson x Fanning? Não vale tanto, e arrisco dizer que mesmo em ondas como Jeffrey’s Bay ou Snapper Rocks, que até poucos anos eram dominadas em performance e idolatria pelos dois “coroas” de Coolangata. As coisas estão, finalmente, mudando.

E viva a troca da guarda no surf! Por um futuro com mais progressão e transgressão!

PS: e porque não um Richie Porta aposentado em 2018? Sonhar não custa nada, não é?