JULIO ADLER // A memória é uma arma

 KSwaveCo. Foto:  Stab

KSwaveCo. Foto: Stab

A onda do Kelly mexeu com todos nós.

Não adianta fugir do assunto ou desdenhar, dia 19 de setembro entra na história do surfe com um pé na porta e esmurra o nariz dos incrédulos com o evento teste na piscina de ondas do Slater.

Piscina? Eu disse piscina?

Leio piscina e me vem o sorriso mais cínico jamais esboçado nesse rosto surrado pelo tempo.

Aquilo lembra qualquer coisa, menos uma piscina, o que nos leva à conclusão que o mero termo, piscina de onda, é coisa do passado.

Por exercício de curiosidade (e implicância), vejamos:

 

pis·ci·na

(latim piscina, -ae, viveiro de peixes, piscina, cisterna, reservatório)

substantivo feminino

1. Grande tanque usado para fins recreativos ou desportivos.

2. Viveiro ou reservatório de água onde se criam peixes.

3. Nome dado em alguns conventos à fonte onde os religiosos lavavam as mãos depois da comida.

4. Vaso de pedra onde se fazem baptismos. = PIA BAPTISMAL

5. [Figurado]   [Religião]  Sacramento que consiste na revelação dos pecados feita ao confessor, tendo em vista a absolvição. = PENITÊNCIA

6. Tudo o que purifica.

 

Em todos comunicados oficiais da WSL e KSwaveCo, não existe sequer uma única menção ao vocábulo.

Quando, em maio de 2016, a WSL anunciou a aquisição da empresa KSwaveCo, o texto repetiu a palavra Onda 35 vezes - sou muito apegado às palavras - sem usar nenhuma vez o adjetivo, Artificial.

Pronto, já me veio o maldito rasgo cínico novamente.

É difícil falar das expectativas em torno de algo tão inatingível, tão exclusivo, como bem notou Travis Ferré na sua postagem no site do WhatYouth:

Todo esse frenesi ao redor da piscina de onda da WSL (Travis, seu sacana!) finalmente exposto ao mundo parece meio asqueroso.

Elitista e esquisito.

Enquanto nem discuto que surfar e assistir a coisa toda é válido, sinto a mesma sensação escrota quando passo perto de campos de golfe particulares e igrejas (imagino também particulares).

Depois de ter dado uma olhada no que está atrás dos muros do Parque de Ondas (bom nome!), simplesmente não tenho interesse no esqueminha Country Club deles, ou nos eventos desnecessários que eles fazem lá dentro.

Você ouviu que tocava Coldplay lá dentro?
Coldplay!
Vá se ralar nas ostras…

 Será a  KSwaveCo  tão elitista e exclusiva quanto um Country Club?

Será a KSwaveCo tão elitista e exclusiva quanto um Country Club?

Isso foi escrito pelo site que melhor representa, ou que melhor comunica, a nova geração de surfistas, do Yago ao Noah Deane, das modelos raquíticas à gola V.

E eu achando que a garotada esperava por isso com apetite e ansiedade.

Pelo lado de cá, dos surfistas que já passaram dos 40, Matt Warshaw respondendo ao site Beachgrit afirma que:

Trocamos mágica por perfeição, é desolador.

Ou seja, coroas e moleques de mãos dadas esperando pelo convite dourado (Golden Ticket) que inevitavelmente vai adoçar sentimentos e expectativas em cima da onda criada por engenheiros.

Slater fez algo impensável,

juntou, no seu recém criado Country Club, o que há de melhor no surfe profissional, pioneiros dessa jornada que ele almeja renovar, artistas, jornalistas e possíveis investidores.

Numa fotografia compartilhada por Ian Cairns, fundador da IPS em 1976, estão lado a lado, Mark Richards, Ian Cairns, Dirk Ziff, Randy Rarrick, Fred Hemmings e Wayne Bartholomew, todos de bermuda, exceto Ziff, o verdadeiro anfitrião.

 Mark Richards, Ian Cairns, Dirk Ziff, Randy Rarrick, Fred Hemmings e Wayne Bartholomew.

Mark Richards, Ian Cairns, Dirk Ziff, Randy Rarrick, Fred Hemmings e Wayne Bartholomew.

Aposto que cada um dos camaradas na fotografia, sorrindo para o futuro, tinham apenas uma meta na cabeça:

Surfar aquela onda.

O que nos leva ao passado recente, início do século XX, quando o surfe deixou de ser uma atividade pagã, perseguida por fanáticos religiosos até sua quase absoluta extinção, aos poucos voltando ao simples passatempo de correr ondas.

Na gênese do surfe moderno já existia esse desejo de popularizar e compartilhar, sem mencionar a semelhança que há entre a elitização do esporte (atividade) em 1907 e 2017.

O primeiro clube de surfe da história, The Outrigger Canoe Club, era na sua maioria brancos ricos, haoles, e homens de negócio, misturados com alguns havaianos para dar legitimidade.

Passados mais de 100 anos, Ziff, de calça comprida ao lado dos jovens senhores de bermudas, cada um pelo menos 10 anos mais velho que o bilionário benfeitor, me lembra que muita água já passou por essa ponte, mas nada, absolutamente nada, muda nos sacrifícios que somos capazes de fazer por uma onda.

Estão lá, bronzeados e sorridentes, os mesmos malandros que eram Alexander Ford, Duke, George Freeth (https://encyclopediaofsurfing.com), com as mãos fundas dentro do bolso do abonado anfitrião, dispostos a entrar no esquema.

Quem se importa se Medina venceu ou deixou de vencer o evento teste?

A única pergunta que resta é, quando EU vou surfar essa onda?

P.S.

Faça essa pergunta para si mesmo:

quantas ondas serão necessárias (ali em Lemoore) para satisfazer nosso egoísmo?