MARCO GIORGI // Mucho Gusto

 Competidor, exímio tuberider, poliglota, tomador de mate e nosso mais novo colunista: Marco Giorgi. Foto: Henrique Pinguim

Competidor, exímio tuberider, poliglota, tomador de mate e nosso mais novo colunista: Marco Giorgi. Foto: Henrique Pinguim

 

Antes de começar, aqui vai uma pequena apresentação: meu nome é Marco Giorgi, sou surfista profissional, nasci no Uruguai e me mudei pro Brasil com 11 anos de idade. Fui criado numa família de surfistas – meu pai foi um dos primeiros surfistas do Uruguai e meu irmão um grande talento desperdiçado. 

Tive a sorte de ter uma família que sempre me apoiou nas minhas decisões, embora nunca tivesse que pedir permissão pra fazer minhas coisas, sempre é bom sentir apoio daqueles que amamos. A figura mais importante da minha família é minha mãe. Guerreira, segurou a bronca de ficar no Brasil quando meus pais se separaram e meu pai voltou pro Uruguai. Para aqueles que perguntam porque me mudei, foi por causa da um certa crise em 99 que fudeu com a Argentina, e, conseqüentemente, o Uruguai. A principal renda da família eram as cabanas que meu pai alugava no verão – e como ele recebia muito turista argentino, quando eles se fuderam, nós nos fudemos junto. E então as opções eram: ir viver em Montevidéu e ser infelizes para sempre; ou jogar tudo pro alto e recomeçar. 

Como meu pai gostava muito do Brasil e costumávamos passar ferias entre Ubatuba e Garopaba, a opção foi recomeçar na terra brasilis. Nos primeiros anos, estávamos bem mal de grana. Nos mudamos a cada 3 meses, durante alguns anos. Acho que dos meus 14 aos 15, tive apenas uma prancha: uma Eduardo Braga amarelassa, onde o deck era um chinelo meio tamanco, sei lá, cortado em dois e colado no fim da rabeta. Mas não fomos sempre fudidos, meus pais vêem de boas famílias, trabalhadoras e educadas e sabíamos que aquilo não iria durar muito. 

Depois de alguns anos de trabalho e reestruturação, voltamos a ser uma família de classe media, com endereço fixo e uma boa qualidade de vida. No começo da minha carreira, tive pouco acesso a um bom equipamento, pranchas certas e apoio de patrocinadores. Sempre tive talento com o surf, mas quebrava muita prancha e como tinha pouca grana pra encomendar novas, acabava sempre surfando com uns tocos. Obviamente, isso foi um obstáculo para minha evolução naquela época, mas era do jeito que era. 

 
 Decolagem marota em Canggu, Bali. Foto: William Zimmerman

Decolagem marota em Canggu, Bali. Foto: William Zimmerman

 

Sempre participei de vários campeonatos e no cenário local ganhei bastante. Mas quando ia competir fora de Garopaba, nos campeonatos mais fortes, nunca me dava bem. Eu era melhor em onda boa e odiava competir em marola – ainda mais contra merrequeiro que voava enquanto eu me afundava. Só fui ter meu primeiro patrocínio de verdade com 16 anos de idade. Ganhava 400 reais por mês e morava em Floripa, no centro de treinamento Araguá. Dormia num chão nojento, tomava banho gelado e comia feijão congelado com o Ricardo dos Santos quase todas as noites. Embora tenhamos sofrido bastante, foram alguns dos melhores momentos das nossas vidas.

Nessa época, eu guardava uns 150 reais por mês, não sei como. Com esse grana, fazia uma prancha com o Ricardo Martins a cada 3 meses – e foi assim durante os primeiros anos, até ter a chance de ir pro Hawaii. Foi então que as coisas começarem a mudar para mim. 

Na verdade, o Hawaii mudou tudo. Me fez ver o que era o surf profissional e o que era preciso fazer naquelas ondas pra se destacar. Então comecei a me jogar em tudo. A galera da minha geração, RDS, Jerônimo Vargas e Felipe “Gordo” Cesarano, principalmente, formou um grupo dedicado a ganhar espaço no Hawaii. Começamos a nos jogar em qualquer fechadeira pra sair nas fotos. Mas éramos tão sem–noção, que também fazíamos aquilo pela diversão mesmo. Sinceramente, não sei como não nos machucamos seriamente nessa época – estou falando de fechadeiras de 10 pés em Off The Wall. Nos dias grandes, tentávamos varar reto por OTW (ao invés de usar o canal de Pipe) com o Ricardo e éramos destruídos por series gigantes. Quando saiamos da água tudo mundo nos olhava rindo, tipo “olha esses imbecis”. 

 
 
 O Hawaii teve um papel fundamental na carreira de Marco. Aqui, ele ataca Backdoor no Volcom Pipe Pro desse ano. Foto: Sebastian Rojas

O Hawaii teve um papel fundamental na carreira de Marco. Aqui, ele ataca Backdoor no Volcom Pipe Pro desse ano. Foto: Sebastian Rojas

No WQS, tive alguns destaques, mas sempre fazia corpo mole quando chegava perto das finais. Competir não é fácil, tem que ter uma fome gigante para poder ganhar um campeonato. A maioria das vezes o surfista que quer mais é quem ganha – e não o melhor. Fiz três anos de QS dos 20 aos 23. Naquele ano, por causa de uma falta de comunicação entre meu patrocinador/manager e eu, acabei fazendo minha filiação depois do prazo permitido – e perdi todos meus pontos, seeding e posição no ranking. No ano anterior eu tinha ficado entre os top 50 no QS – mas ter perdido os pontos, apesar de difícil de engolir inicialmente, foi a melhor coisa que me aconteceu. Pois abandonar as competições, no final das contas, foi a melhor decisão que já tomei na vida. 

Antes, como era moleque, não sabia como lidar com tanta viagem e campeonato – aquilo tava me destruindo por dentro. Estava acabando com meu surf. Naquela época, tinha muito campeonato. Eu acabava competindo em 20/30 eventos por ano, ou seja, o tempo todo pra cima e pra baixo arrastando capa, comendo mal, dormindo mal, surfando onda ruim… aquilo me destruiu. Precisei de um bom tempo pra voltar a fazer o surf que eu queria, como eu queria. E então comecei a viajar e pegar onda boa. Na época, a Mormaii concordou com a minha decisão e assim fiz. 

 
 Fora das competições, Marco dedicou-se a ondas de consequencia. Cloudbreak, Fiji. Foto: Rafaski

Fora das competições, Marco dedicou-se a ondas de consequencia. Cloudbreak, Fiji. Foto: Rafaski

 

Anos depois, resolvi voltar a competir. E aqui estou eu, com outra cabeça e outra visão da coisa. Esse ano, com 29, consegui vencer meu primeiro evento na vida e aprendi muito nele. Tô de volta na batalha. No WQS. Sem patrocínio. 

Não quero me fazer de coitadinho – mas posso afirmar sem reservas: não é fácil. Assim como eu, há muitos surfistas brasileiros e gringos que surfam muito bem e não tem adesivo no bico. Mas é isso, estamos todos lutando por um lugar ao sol. Faço aquilo que amo e isso me deixa feliz. 

Essa coluna é um espaço aberto para falar sobre surf em geral, mas do ponto de vista do surfista profissional: coisas que muitas vezes não chegam nos ouvidos dos fãs, coisas que rolam mesmo - não historias que fulano ouviu falar de sicrano e aumentou e distorceu e o caralho - aqui quero ser honesto e quero que vocês vejam mais de perto o mundo imperfeito e complicado do surfista.

 
  Siente el sabor...  Foto: Nic Von Rupp

Siente el sabor... Foto: Nic Von Rupp