JAMES B // O açucaramento escroto do surf mundial

 

O que está acontecendo com o surf profissional? Estamos nos tornando um esporte de frangotes?

Hola, señores e señoritas, vosso James B está de volta com mais uma coluna na Moist.

Esses dias me peguei olhando algumas conversas minhas com várias pessoas no Facebook, e depois escutando o último Bóia, Podcast do Julio Adler com o Igor Gouveia, onde o entrevistado falou em algum momento: “Ah, o polêmico James B!”.

Peguei fama de polêmico. Não sei se isso vem lá de trás, quando fiquei conhecido por sentar a porrada nos gringos preconceituosos e anti-Brazil nos sites da Stab e do Surfline, ou se pelos textos que já escrevi. 

Nem sei se essa fama é legal. O fato é que eu gosto de falar sobre assuntos que me incomodam ou que eu acho que precisam de alguma reflexão independente, e talvez esse seja o motivo pelo qual o que eu escrevo (ou tento escrever) acaba gerando essa percepção em várias pessoas.

Meu anonimato ajuda, claro, pois me dá uma liberdade criativa fudida pra escrever sobre temas que eventualmente outros caras com mais conhecimento que eu não topariam, com medo de sofrer críticas ou represálias. Mas pra não perder o costume, vamos lá...

Afinal, o surf vai se transformar em um esporte de açucarados?

Nosso agora “esporte” olímpico já foi referência de alternatividade pra sociedade. Nossa história não nega. Desde os anos 50 somos uma classe à parte, seja em relação a nosso estilo de vida, nossa postura diferente em tantos aspectos da dita “vida normal” de um cidadão. 

Minha vida e minhas escolhas de vida em relação à carreira, amizades e prioridades foram totalmente influenciadas pelo surf, disso eu tenho certeza. Sempre trilhei um caminho mais alternativo e underground. E fui muito influenciado por uma porrada de caras que vieram antes de mim e que foram minhas referências. E outros, que vieram antes, foram referências para as minhas referências.

Vejam alguns de meus heróis. Nós já fomos assim:

Miki Dora, ícone da rebeldia nos anos 50 e 60. Underground, cínico, core surfer. Rato de praia de Malibu, na Califórnia, se orgulhava de nunca ter trabalhado na vida. Fraudou cartões de crédito pra fazer grana e poder continuar mantendo seu lifestyle vagabundo,  fugiu da lei, se escondeu na África e Europa (surfando altas ondas).

Miki Dora, em Malibu.

Miki Dora, em Malibu.

Christian Fletcher, punk underground surfer e um dos maiores inovadores do esporte, basicamente o primeiro cara a trazer as manobras do skate pro surf. Criticado por muitos e amado por tantos outros. Mas autêntico. E doidão.

Christian Flecther

Christian Flecther

Dadá Figueiredo, ídolo de toda uma geração de surfistas brasileiros, era o anti-fashion até a alma. O Teco Padaratz era ídolo, mas a meninada da minha geração queria era ser, surfar e pegar as gatas como o Dadá!

Dadá Figueiredo - ídolo anti-establishment.

Dadá Figueiredo - ídolo anti-establishment.

Michael Peterson, o MP, um dos surfistas mais invocados que já pisaram numa prancha de surf.  Os adversários se cagavam de medo antes de entrar nas baterias com ele, só de olhar pro bigodinho mafioso. Uma influência para pelo menos duas gerações de surfistas australianos, que venceram vários títulos mundiais por uma competitividade que se espelhava no cara.

MP - Michael Peterson.

MP - Michael Peterson.

E posso citar dezenas de outros exemplos de ídolos: Picuruta Salazar, o mestre da irreverência! Martin Potter, cabeludo selvagem que ganhou um título mundial surfando do jeito que ele queria, e não como a ASP pedia. Ricardo Bocão, um cara surfista core até a alma, que direcionou TODA a vida e energia dele pra fazer crescer e viver desse negócio. Autêntico! 

Tom Curren, um tricampeão mundial de surf que não estava nem aí pra modismos ou pra o que pensavam dele (aliás, Tom é filho de Pat Curren, surfista e outsider dos anos 50 que nunca ligou para a sociedade tradicional).

Mas, lenta e escrotamente, alguma coisa mudou. O que houve com nossa rebeldia? O que aconteceu? Nós, surfistas, açucaramos?

Os “outsiders” do surf em 2017: Noa Deane, Dion Agius e Creed McTaggert: autênticos como uma nota de 3 reais.

Os “outsiders” do surf em 2017: Noa Deane, Dion Agius e Creed McTaggert: autênticos como uma nota de 3 reais.

Quem lembra dos anos 90 e início dos 2000 com a ASP? Nessa época, pra competir no circuito mundial, tinha de ser macho. A geração de caras como Martin Potter, Brad Gerlach, Tom Carrol, Gary Elkerton, Richard Dog Marsh era invocada. Rookies no tour eram tratados como tal, e intimidação dentro d´água nas baterias era comum e usada como estratégia de competição. E, fora d´água, esses caras eram foda também. A rivalidade era real e pesada.

Mas aí, em algum momento na última década, a ASP começou a tentar vender o surf em um formato mais comercializável e palatável para o que se chamou de “não endêmicos”, as empresas e anunciantes de fora do core do surf. E para isso, a “imagem” do surfista e do surf profissional precisava ser empacotada como se todos com uma prancha de surf fossem bons mocinhos, atletas de respeito, lourinhos bronzeados, saudáveis e ótimos partidos pra qualquer pai deixar sua filha casar. 

Isso, na minha opinião,  iniciou um processo que eu chamo de  “alienação da herança cultural” no esporte do Matt Archbold. Agora era a hora do surfista se tornar um exemplo de bom menino para a sociedade. 

Isso se refletiu no marketing feito pelas marcas de surfwear. Salvo algumas exceções, o surfista profissional começou a ser vendido como um produto pasteurizado, com campanhas promocionais ficando cada vez mais parecidas, mesmo entre marcas concorrentes. E isso se refletiu na postura de MUITOS atletas profissionais, que passaram a se vestir, falar e se comportar de uma maneira quase padronizada, pra se encaixar nesse novo formato de demanda de marketing dos patrocinadores, que são afinal de contas quem pagam as contas dessa turma.

E aí chegou a WSL... E a coisa piorou.

A WSL decidiu aprofundar ainda mais a mudança na forma em que o surf profissional era percebido. Uma das primeiras atitudes da liga foi centralizar a mídia, a produção de vídeos e entrevistas nos eventos. Nada pode ser feito sem a chancela e a produção da WSL em uma etapa do circuito mundial. 

Em seguida a WSL começou um lento e constante processo de robotização do que os surfistas poderiam ter (ou teriam coragem  de falar) como opinião. Como esse precedente foi criado? Há vários exemplos.

Quem lembra da famosa entrevista com Gabriel Medina após ele perder por interferência para um limitado Glen Hall em Snapper Rocks, em 2015? Após vários dias de campeonato suspenso em várias chamadas erradas da comissão técnica, Hall forçou uma interferência no brasileiro, e os dois surfistas trocaram alguns “carinhos” verbais dentro d´água. E, após a bateria, o  BABACA Peter Mel, com o microfone na mão, cortou ao vivo a fala de Medina, um campeão mundial, quando o brasileiro dava uma boa posicionada sobre o que o australiano havia lhe falado na água (uns FUCKs, entre outras coisas). Medina foi ameaçado de suspensão pela WSL e, no dia seguinte, teve de gravar um segundo vídeo pedindo desculpas.

Medina obrigado a pedir desculpas em Snapper.

Veja o primeiro aqui e o segundo ao lado: 

Os surfistas (a maioria deles) passaram a esconder qualquer opinião polêmica e contraditória, por medo de represália. Resultado? Entrevistas e opiniões sem emoção e sem autenticidade, afim de manter a imagem “saudável” de um esporte que precisava ser vendido num pacote bonitinho.

Alguém tem dúvida de que é o medo de punição pela WSL que evita que caras como Jadson André soltem seu real sentimento após tantas baterias sendo roubado na cara de pau contra os queridinhos da liga?

Dá saudade dos tempos de Bobby Martinez mandando a ASP se arrombar, não dá? 

Bobby Martinez na melhor entrevista ao vivo que o surf já viu.

Ou ainda de Freddy Patachia, numa das entrevistas mais memoráveis da história, falando ao vivo que os juízes e locutores parciais estavam com os testículos do Owen Wright na boca, de tanto que puxavam o saco do queridinho australiano.  

Freddy P soltando o verbo.

E mais recentemente, quem se lembra dos problemas que caras como Jeremy Flores e Filipe Toledo tiveram, tendo suspensões por exprimir sua opinião e raiva após discordar de decisões da WSL?

Cadê o espaço para a controvérsia? Para o autêntico? Na verdade, esse controle para criar um mundo perfeito foi um tiro no pé da WSL. Polêmica e rivalidade vendem e geram audiência. Vejam outros esportes, como MMA, o Futebol Americano, o Hóquei e o nosso Futebol e vejam quanto de não-politicamente-correto-para-as-câmeras rola nesses esportes. A audiência adora, e os caras faturam milhões com mídia e patrocinadores. E o surf? Água com açúcar.

Amigos, não se iludam. No surf há muita rivalidade, muita coisa em jogo e AINDA há atletas com coração.  Eu não acho que a geração atual simplesmente se transformou naturalmente em um bando de pussies. Acho que sim, o sistema vigente massacrou a liberdade de expressão.   Mas o que se pode fazer se todos tem medo de se expor e mostrar a espontaneidade que, na minha opinião, criaria um ambiente bem mais competitivo e atraente para o público?

Nos anos da rivalidade visceral entre Kelly Slater x Andy Irons você podia sentir a eletricidade e a fricção no ar a cada entrevista, cada bateria, cada evento. O esporte era MUITO mais interessante. Mas isso parece ter ficado pra trás. Onde está indo parar a rebeldia, o inconformismo, o underground no surf?

Adriano de Sousa enquadrando geral Kelly Slater na água em Trestles em 2011. GOLD!

 

E o que não parecia poder piorar, piorou: surgiram os HIPSTERS. 

Um hipster.

Um hipster.

Pra quem nunca viu um na praia, os hipsters são uns caras que querem surfar e ser sooooooo coool ao mesmo tempo. Eles basicamente se vestem e possuem um comportamento padrão. Geralmente barbinha feita, cabelinho impecável, surfam com pranchas retrô ou longboards. O Instagram está sempre ativo e uma atitude blasê que, peloamordeDeus, só fez afrescalhar ainda mais o que já não era mais a mesma coisa... (já me perdoem os politicamente corretos).

Um dos ícones do movimento Hipster se chama Alex Knost, americano de cabelinho sempre muito bem penteado, que fez escola mundo afora. 

Alex Knost, hipsta guru. Porra, véio...

Alex Knost, hipsta guru. Porra, véio...

Um dos filmes de surf mais bacanas e sacanas dos últimos anos é o sensacional, DEATH TO HIPSTERS:

 

E o surf foi virando mainstream...

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Tem algo de muito errado acontecendo com o nosso negócio quando o surf é MAINSTREAM e usado em campanhas publicitárias para empresas que vão desde montadoras de automóveis a perfumes de luxo e, ao mesmo tempo, uma legião de surfistas profissionais não possui patrocínio sequer para conseguir sobreviver da coisa.

E pra finalizar, o (d)efeito Instagram.

Em tempos de redes sociais tomando um papel enorme na vida das pessoas, com surfistas profissionais sendo avaliados pelas marcas de surfwear não mais apenas pelo seu surf, caráter e personalidade, mas pela quantidade de seguidores em seu Instagram, aí é que o fator realidade vai pro ralo. A ordem agora é PARECER cool e legal. Tudo sempre está lindo e maravilhoso e todos estão sempre felizes e bem humorados e cada dia é um dia a ser celebrado. Cadê a porra da autenticidade e espontaneidade do surf? Saudade do Dadá Figueiredo!

Ah, como eu adoraria abrir meu Instagram e assistir um vídeo do Gabriel Medina falando que acordou puto, mandando a WSL se fuder, já que eles preferem tanto o John John e convocando todos os caras injustiçados no Tour a se rebelarem contra essa liga, na qual não se pode dar uma entrevista sem sentir-se censurado e chamando pra porrada quem não concordasse com ele. 

Aí no dia seguinte, talvez o Julian Wilson postasse um vídeo dizendo que estava de saco cheio de nunca ganhar essa merda de título mundial perdendo pra esses brazzos que não tem metade do estilo dele! 

O próximo podia ser o Kolohe Andino, com um vídeo no Instagram com os cabelos raspados esquema moicano, dizendo que encheu o saco de ter de tomar Redbull sem gostar daquele negócio e que vai largar o Tour pra se dedicar a uma carreira de freesurfer e tomar cerveja com os amigos e curtir com as gatas de San Clemente com o dinheirão que ele já ganhou até agora.

O mundo do surf não voltaria a ser melhor e muito mais divertido assim?