Duas vezes John

 

Foi (quase) tudo no script

Por Steven Allain / Fotos WSL

 John John Florence é o mais novo bicampeão mundial de surf

John John Florence é o mais novo bicampeão mundial de surf

Quando amanheceu em Pipeline nesta 2ª feira, dava pra sentir a tensão no ar. Como nos 10 dias anteriores, o público chegava à praia antes do amanhecer para garantir um lugar para armar seus QGs individuais na areia – mas hoje tinha algo de diferente.

Os gringos empunhavam bandeiras vermelhas e gritavam “Go John John!” com mais vigor, diria até que com um toque de agressividade. O contingente brasileiro, apesar de menor, era igualmente barulhento. O público caminhava para a praia como duas torcidas chegando em um estádio de futebol.

A empurrada dos juízes a John Florence no dia anterior deixara todo mundo com os nervos à flor da pele. A bateria foi apertada, sim – mas uma análise fria deixa claro que na última onda, Ethan Ewing merecia mais do que os 4.60 que o deixaram a 0.07 pontos da vitória. Dos três juízes, dois deram vitória ao australiano. A “ajudinha” pegou mal para a WSL, que dessa vez teve que lidar não apenas com a ira do público brazuca – que inundou o Insta da entidade com comentários revoltados – mas também com críticas duras dos próprios compatriotas de JJF, como Albee Layer. Para piorar, apagaram um comentário crítico de Neymar (que mandou algo como “Dá o titulo logo pro John John então, coisa feia!”), que depois espanou a censura nas mídias sociais e o fiasco foi maior ainda. A WSL, como se vê, insiste em ser transparente como uma burca, dando assim tiro no próprio pé. Infelizmente, porém, já vimos esse filme: todo mundo reclama e esperneia com a disparidade das notas, mas nossa choradeira cai sempre em ouvidos mudos. 

Os locais, que quase viram seu garoto de ouro entregar o titulo mais certo dos últimos anos para o surfista mais derrotado de 2017, perceberam que o bi de Florence era mais frágil do que imaginavam e estavam tensos. Nervosos.

Para os brasileiros, parecia que a garfada a Ewing teve o efeito oposto – todo mundo sabe que esse é o tipo de adversidade que Medina usa como combustível. 

Depois dos primeiros rounds do dia, a sensação de que iríamos estragar a festa dos havaianos apenas intensificou-se: John parecia abalado pela controvérsia do dia anterior, enquanto Medina brilhava sob a áurea de um cara “contra tudo e contra todos” – batendo Slater com tanta superioridade, que deu até pena do 11x campeão mundial. A disputa agora resumia-se a dois opostos: o Garoto de Ouro da WSL contra o Cavaleiro Negro brasileiro.

 Medina é um monstro e lutou até o final

Medina é um monstro e lutou até o final

A empolgação brazuca era tamanha que quando Julian Wilson foi para a água enfrentar JJF nas quartas, os gritos de Go Julian! vindos da torcida brasileira ecoaram por toda a praia. Quem diria?...

Fotógrafos e prós e agregados na rodinha brazuca em frente à casa de Conner Coffin já discutiam os prováveis cenários: Ítalo venceria a Triple Crown, Medina levaria o caneco e Ian Gouveia chegaria na final e garantiria-se no WT 2018. Tudo parecia conspirar a favor do Brasil – acho que até os gringos sentiam isso.

Foi quando a bolha estourou e nossa empolgação começou a murchar. Wilson não fez nada e John avançou para as semis. Foi uma bateria tão unilateral que podiam ter dado W.O. Em questão de 30 minutos, a pressão tinha mudado de lado e agora se Medina não vencesse, o titulo era de João João. 

 World Champ, John Florence

World Champ, John Florence

E foi isso que aconteceu. Jeremy Flores ficou puto com os juízes no round 4 quando não inverteram uma situação de prioridade contra o mesmo Medina - e, como se sabe, um Jeremy puto surfa melhor. Gabriel caiu em uma onda crucial e não conseguiu encontrar mais nada, apesar de procurar desesperadamente nos segundos finais alguma rampa que lhe desse e chance de inverter o placar. Medina é um monstro e lutou como um guerreiro até o final – mas o sonho do bi em 2017 acabava ali.

Para os brasileiros, foi um balde de água fria com um gosto extra amargo, dado a ajudinha dos juízes a John no dia anterior. Os havaianos festejaram aliviados e encharcaram Florence de champagne no jardim da casa da Quik – onde o havaiano estava entocado assistindo à batera de Medina.

Se o caneco já tinha dono, pelo menos uma história de superação tão emocionante quanto a disputa pelo titulo acontecia paralelamente. Precisando chegar às finais, Ian Gouveia lutava a cada bateria por sua classificação e finalmente desencantou. “O Ian funciona bem sob pressão”, comentou Jessé Mendes. Ele bateu Filipinho, Wilko e Parko para chegar às semis – justamente contra John, agora já bicampeão.

 Ian Gouveia brilhou em Pipe e está no WT 2018

Ian Gouveia brilhou em Pipe e está no WT 2018

Florence boiou no começo e Ian foi lentamente aumentando sua liderança – até que no final JJ encontrou uma direita e virou a batera. No calor do momento, achei que, mais uma vez, os juízes haviam favorecido o havaiano e até falei para Ian na praia que, na minha opinião, ele havia sido garfado. Mas ao rever a onda no replay, ficou claro que, pelo menos nessa bateria, a vitória de John foi justa.

Mas a performance brilhante de Ian em Pipe – um 3º no primeiro Masters da vida – não foi em vão, nem passou despercebida. Graças a outro brasileiro, Ítalo Ferreira, ele continua na elite – o potiguar quebrou em Pipe, chegou às quartas, quase levou a Triple Crown e garantiu-se pelo WT, abrindo assim sua vaga no WQS (dada a Michael Rodrigues) e seu injury wildcard, que será concedido a Ian Gouveia em 2018. Em um evento, Ítalo garantiu dois compatriotas no WT do ano que vem – isso sim é parceiro!

A festa que a WSL queria estava completa – ou melhor, quase: faltava apenas John John Florence seguir o script e vencer a final contra Jeremias. Só que o francês tinha outros planos: pegou uma boa, ficou com a prioridade e esperou uma série pacientemente. Por longos 20 minutos. Enquanto isso, John John esbanjava intimidade com Backdoor e pegava uma atrás da outra. A vitória parecia garantida. A calcinha coletiva da WSL umedecia-se. Só que, no último minuto, Jeremias foi pra Backdoor, rasgou o script e virou o jogo: 8.34, quando precisava de um 8.27 – ganhou pelos mesmos 0.07 pontos que John fizera sobre Ewing. Ah, que ironia!

 Jeremy Flores, Pipe Master 2017

Jeremy Flores, Pipe Master 2017

Foi bonito ver algo fora da “narrativa roteirizada” hoje. Jeremy é foda! Entuba muito, campeão de Teahupoo, bi em Pipe, pratica Jiu Jitsu, fala português, um dos últimos personagens genuínos dessa indústria atual tão pasteurizada. Queria ver Medina campeão – mas Flores também me deixou contente. Talvez nem tudo esteja perdido...

O Brasil termina 2017 com três Top 10: Medina, Adriano e Toledo. Está de bom tamanho, mas tudo indica que no ano que vem a presença brazuca será mais dominante. Perdemos Guigui, Jadson e Pupo – mas entram Yago, Jessé, Michael, Panda e Tomas Hermes. Com 11 integrantes na elite (um terço do WT), teremos o melhor time brasileiro da história. Os jotas – John, Julian e Jordy – que se preparem: em 2018 vai ser difícil manter o script. Com ou sem ajudinha da WSL.