CHLOÉ CALMON // Xie Xie

 

Fotos lifestyle: Chloé Calmon / Fotos de ação: WSL

Estou de volta ao Brasil, depois de mais uma jornada pelo continente asiático. Minha primeira vez na ilha de Taiwan, também conhecida como “ilha formosa”, foi bem marcante – em todos os sentidos. Cheguei lá com expectativas baseadas na minha experiência passada na China, mas encontrei algo totalmente diferente. Uma China “melhorada”, digamos assim. Taiwan está aberta ao capitalismo e ao turismo há mais tempo que a China, o território vizinho – e do qual fez parte até pedir sua independência na década de 70 (é um dos Tigres Asiáticos). E por ser um território menor, a globalização se espalha rápido. Contudo, o que mais me encantou na Ilha Formosa foi a natureza exuberante.

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De um lado, montanha. Do outro, mar. Dois ambientes separados pela East Coast Highway, que liga os dois extremos da costa leste da ilha. Minha casa era em Donghe, no condado de Taitung. À cinco minutos dali estava a marina de Jinzun – uma das melhores e mais constantes ondas da região, e o palco da decisão do campeonato mundial de longboard da temporada 2017. Por cinco anos, o Taiwan Open of Surfing era uma das etapas do LQS (Longboard Qualifying Series), e em 2017 recebeu o upgrade para definir os campeōes mundiais. 

Sempre ouvi coisas boas sobre Taiwan. A comida era maravilhosa, pessoas amigáveis e que falavam inglês, lugar bonito… e ondas incríveis. Em todos os anos de evento, o mar nunca ficou menor do que 6 pés. Somente duas vezes anunciaram o campeonato “off” – por estar grande demais. Eu tinha vários amigos em Taiwan também, sem ao menos ter ido alguma vez lá. E, mesmo que eu chegasse lá e encontrasse um lugar isolado no meio do nada, onde só se falasse mandarim, estaria tranquila. Afinal, 8 temporadas de China deveriam me ajudar em alguma coisa, né?

Cheguei uns 10 dias antes do campeonato para acostumar com o fuso. A primeira “surpresinha da Estrela” da viagem aconteceu quando abri minha capa no primeiro dia e vi minhas três pranchas com o bico muito danificado. Um dos motivos pelos quais sempre é bom chegar com uma certa antecedência: ter tempo para resolver os perrengues comuns de viagem. Achei um gringo, Josh, que consertava pranchas e morava a uma quadra do meu hotel – e ele consertou as minhas em tempo recorde. 

A onda de Jinzun quebra em uma bancada de areia e pedra, formando uma direita longa ao lado do canal e uma esquerda mais rápida que quebra para o meio da praia. Me lembrou muito a onda da Macumba, no Rio. O clima de ilha é super instável: hora chove o mundo, hora faz sol. E lá o vento era uma constante praticamente todos os dias. E quando eu digo vento, é muito vento. Este fazia a temperatura baixar drasticamente, pedindo o uso de um short john mesmo com a água tropical. A melhor temporada de ondas acontece entre os meses de novembro à janeiro (durante o inverno), quando dificilmente o mar fica menor que 0,5m e pode chegar até 4 metros de onda.

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Uma semelhança em relação à vizinha China é a hospitalidade da comunidade local. Em Taiwan é mais fácil encontrar falantes da língua inglesa, mas ao te verem falar uma ou duas palavras de mandarim – como “ni hao” (oi) ou “xie xie” (obrigada) – eles abrem um sorriso largo no rosto. Em cinco minutos de conversa, a pessoa já te dá comida na hora, oferece para te fazer um jantar, te levar para conhecer outros picos, tudo para te ajudar. 

No meu primeiro dia, desci a rua principal da vila e perguntei para a primeira pessoa que vi qual era o caminho para a marina de Jinzun. Era um rapaz jovem com uma van verde e amarela (coincidência?!), e disse que a praia era longe para irmos andando, então nos ofereceu uma carona em sua van. Descemos a estrada rumo ao pico e nos deparamos com um verde exuberante dos dois lados. Na mesma hora, percebemos que ter um carro alugado era essencial, pois era impossível fazer o trajeto todos os dias com os longboards. “Aluguel de carro? Só na cidade grande. Vocês estão com os documentos? Vamos lá agora”. Ou seja, depois de nos apresentar Jinzun, ele nos levou para Taitung, a cidade grande que ele mencionou, a 40 minutos do vilarejo de Donghe. Traduziu tudo e conseguiu um ótimo preço no carro para mim. Um estranho nos ajudou a resolver um pepino e foi super simpático o tempo inteiro, sem ao menos nos conhecer! Depois disso o Anthony virou brother e nos falamos direto sobre previsão das ondas, onde comer e outros picos para explorar.

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O mais legal ao conhecer um país novo é ir para lá sem grandes expectativas. Cheguei em Taiwan com expectativas bem baixas e tive uma doce surpresa com um lugar incrível, com uma natureza tão viva e diversificada. Um verdadeiro paraíso escondido entre o mar da China Oriental e o Oceano Pacífico. Porém, como se tratava de uma viagem para uma competição, a expectativa não fica esquecida lá no canto não. 

A decisão

Quando você tem um grande sonho, você pensa nele todo dia. Toda hora. Todo o ano. Você trabalha em torno de realizá-lo, faz o que for preciso para chegar cada vez mais perto… até conseguir tocá-lo. E assim sou eu em relação ao campeonato mundial. Há alguns anos venho chegando perto, subindo degrau a degrau: 5º lugar em 2013, 3º lugar em 2014 e 2015, 2º lugar em 2016. Ano após ano, sinto que aprendo e evoluo mais, chegando a uma melhor versão de mim mesma. 

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Minha primeira vitória no Tour aconteceu em março deste ano, na etapa inaugural na Papua Nova Guiné. Cheguei lá sem esperar muita coisa, e tudo fluiu de uma maneira maravilhosa. Tudo encaixou: a prancha, a onda, e o principal – a cabeça. E toda a experiência me fez abrir um pouco mais a a mente e enxergar a jornada inteira, e não apenas o destino. Naquela época, podia dizer que eu apreciava cada momento como algo único. E foi com esta linha de pensamento que segui minha caminhada pelas Américas e Europa nos meses seguintes. Um primeiro lugar e bicampeonato em Portugal, 2º lugar no Peru, 3º na Califórnia e primeiro no Rio. Essa maneira mais leve de enxergar o ato de competir me fez aproveitar mais o momento em torno das competiçōes.

Minha relação com as outras atletas também foi um ponto que melhorou bastante. Sempre levei a competição muito a sério e nunca consegui fazer amizade com as outras meninas, porque enxergava-as como minhas adversárias apenas. Esse ano me esforcei para quebrar o gelo e deixar a seriedade de lado por um momento, e caiu a ficha de que sim, somos adversárias pois todas queremos um único primeiro lugar, mas temos praticamente a mesma idade e fazemos a mesma coisa em países diferentes. Consegui ter alguns momentos de descontração e acho que ficou mais fácil para elas fazerem o mesmo. 

Ao longo do ano tive um pouco de dificuldade em encontrar o ponto certo da descontração em meio à tudo isso. Em alguns eventos comecei devagar, e na repescagem acordava. Em algumas situaçōes, fiquei relaxada demais. Mas ainda estava competindo, tinha que ter uma luz acesa à todo momento ainda dentro de mim.

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Cheguei em Taiwan sem saber muito que esperar. Estudei a onda pela internet, mas sabia que ao vivo seria bem diferente. Fiz uma boa campanha  esse ano, as pranchas estavam no pé e a remada estava em dia. E ainda, ao chegar lá, me deparei com uma onda muito parecida com a Praia da Macumba, local que aprendi a surfar e treino até hoje. Os treinos estavam fluindo super bem e eu mal esperava para competir. Tivemos uns quatro laydays seguidos, com muito vento e fracas condiçōes. 

No primeiro dia do evento, o mar estava animal. Entrei tranquila, pois não era um round eliminatório, e peguei altas ondas, superando todos os meus últimos treinos naquela semana. Fiz as maiores notas do dia e isso fez com que o fogo da vitória acendesse dentro de mim. 

No dia seguinte, quando entrei para o próximo round, comecei a pensar no título. E foi aí que, acredito, a coisa começou a desandar. Na bateria contra duas campeãs mundiais, escolhi mal as ondas e não tirei mais do que 6. Fiquei precisando de um 7 para virar, e nas últimas 3 ondas bati na trave. Quando saí da água, percebi o que havia acontecido e vi mais uma vez o título escapando pelos meus dedos. 

Dizem que tudo acontece por um motivo e que nada é aleatório… Foi difícil, mas não tive escolha a não ser engolir a seco e seguir em frente. No futuro entenderei esse motivo. Ou, de repente, não é para entender. Nem sempre há uma explicação para as coisas da vida.

Quando fui vice campeã mundial ano passado na China, enxerguei a situação de uma maneira bem ruim. Passados alguns meses, comecei a olhar para ela com um ar de agradecimento, pois tudo aquilo me fizera mais forte e experiente. É tudo história para contar, né? 

Algumas semanas depois de Taiwan, já no Brasil, estou de olho no que vem por aí. Olhar para frente. Olhar para o que passou ainda trás um gosto amargo, mas não tem nada a ver com o lugar, com Taiwan. Fiz uma viagem irada, conheci mais um lugar que nunca havia ido e foi uma experiência mágica; não é certo apagar isso por conta de um resultado. 

E então, deixo rolar… Quando Taiwan vem à minha cabeça, eu me esforço para focar em uma palavra: “xie xie”. Obrigada Taiwan. Obrigada por tudo. E vamos em frente porque 2018 já está na esquina e prometendo muita água para rolar.

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