MARCO GIORGI // A Rainha do Hawaii

 A rainha, Pipeline. Foto Brian Bielmann

A rainha, Pipeline. Foto Brian Bielmann

 

“The proving grounds”.

É assim que os caras também chamam o North Shore do Oahu, a Meca do surf mundial. É onde o surfista se prova e mostra seu lugar na hierarquia.

O North Shore não é a Meca apenas pela qualidade e potência de suas ondas, mas também por sua história. Assim como, diz a lenda, se o ser humano não tivesse comido carne, não teria desenvolvido seu cérebro e evoluído - sem o Hawaii, o surf também não teria chegado aonde está.

Eu sei, esse exemplo é um pouco bruto, mas é bruto da mesma forma que as ondas aqui são. E falando em brutalidade, porque não falar um pouco de Pipeline, a Rainha do Hawaii?

 
 Marco atrasando na base da besta. Foto WSL

Marco atrasando na base da besta. Foto WSL

 

“Mas porque a Rainha?”, me perguntaram esses dias. “Tu acha que Pipe é a melhor onda do mundo?”. Num primeiro instante, disse que não. Mas depois comecei a comparar a Rainha com outras ondas potentes, como Teahupoo, Grower e Nias, e pensei, “cara, pode ser que seja A melhor”.

Pipe talvez não seja a mais perfeita, mas certamente é uma das ondas mais brutais do planeta água. Pode soar um pouco marrento, mas a verdade é que um ser humano normal não tem a menor ideia do que é se colocar cara a cara com um Pipe 8 a 12 pés, primeiro reef explodindo com tamanha ignorância que quem está na areia sente ela tremer.

 
  "Um ser humano normal não tem a menor ideia do que é se colocar cara a cara com um Pipe 8 a 12 pés."  Foto Brian Bielmann

"Um ser humano normal não tem a menor ideia do que é se colocar cara a cara com um Pipe 8 a 12 pés." Foto Brian Bielmann

 

Pipeline é uma onda a ser respeitada, ela já tirou varias vidas de surfistas experientes e certamente tirará mais algumas. E essa é uma das razões pelas quais ela é tão protegida pelos locais - para “proteger” os visitantes de suas entranhas assassinas.

Mas, obviamente, há outro lado: o ciúmes, o ego - os locais não querem ninguém chegando muito perto dela. Pipe é o ganha pão deles! E isso é algo que dá pra entender. Imagine viver num lugar que é, literalmente, invadido pelos melhores surfistas do mundo todo santo ano! Eu também ficaria puto, também provavelmente brigaria por alguma onda em Pipe. Me achou um pau no cu? Caso você não saiba, surf é um esporte super egoísta, meu amigo - desculpa estourar sua bolha hipster aí!

 
 O local Kalani Chapman, na melhor onda de sua vida em Pipe. Foto Marcio David

O local Kalani Chapman, na melhor onda de sua vida em Pipe. Foto Marcio David

 

Então por isso quando me coloco na pele dos locais, eu os entendo. E também entendo que eu não gostaria de ter nego babando meu ovo na falsidade, só pra tentar cair na graça e ter uma oportunidade de pegar a onda da vida.

Por isso prefiro ser low profile, buscar as brechas, sentar onde não é tão crowd, não mostrar muito a minha cara. Surfar Pipe é tão frustrante para um surfista como eu, que às vezes nem me faz bem: a parada é tipo televisão de cachorro, você vê o que você quer bem na sua frente, mas não consegue pegar. No lineup, quase não há espaço. Por que? Porque tem o local de Oahu, o de Kauai, o de Maui, o da Big Island, os amigos desses caras, os amigos californianos deles, os caras que os arregam sabe-se lá onde e eles tem que trocar favores, os lutadores, os surfistas do WQS, os grommets, os bodyboarders… todos num pico só.

 
 O crowd mais qualificado do planeta. Foto WSL

O crowd mais qualificado do planeta. Foto WSL

 

Então, como faz?

Tem que ser o MacGyver bro! Essa é a realidade de Pipe - nós não nascemos lá, ficamos no final da fila e azar o nosso! 

 
 Marco em Pipe durante o Volcom Pro. No evento, com 4 surfistas na água, ele não teve que ser MacGyver pra pegar essa. Já no freesurf... Foto WSL

Marco em Pipe durante o Volcom Pro. No evento, com 4 surfistas na água, ele não teve que ser MacGyver pra pegar essa. Já no freesurf... Foto WSL