Perguntamos a Franklin Serpa sobre o localismo do sul da Bahia

 Foto: Henrique Pinguim

Foto: Henrique Pinguim

Todo mundo conhece a história: no Sudeste tem swell, mas não tem fundo. No Nordeste tem fundo, mas muito vento e nem tanta ondulação. Mas o sul da Bahia recebe bastante energia restante das ondulações de inverno, com uma geografia favorável para a formação de ondas. Não é segredo que há reefs, points e slabs por lá. Mas por quê não vemos mais imagens? Talvez o principal motivo sejam as histórias de horror que o localismo dali gerou - é só perguntar para qualquer fotógrafo de surf. A Moist resolveu contatar o pró Franklin Serpa, criado um pouco ao sul de Ilhéus, para esclarecer o assunto sob o ponto de vista baiano.

Fale sobre esse pico [do vídeo abaixo].

Essa é a primeira seção do Backdoor, chama Arrisca Tudo. Se for reparar, a onda meio que dá uma fechada mas continua abrindo - ali que é o Backdoor, ainda vai um bocado. Isso aí foi em Julho. Foi um Arrisca-tudo legal, mas não tava tão clássico assim. É porque ninguém conhece como fica. O foda é que a gente não consegue filmar, cara. Mas agora eu consegui alinhar com o Vitor Benjamin e estamos conseguindo começar a produzir algumas imagens em casa. É um negócio que eu sentia muita falta, mas daqui a pouco vão começar a ver que o pico é irado.

Segundo Franklin Serpa, o Arrisca Tudo fica bem melhor que isso...

Com que frequência rolam essas ondas?

Backdoor dá onda de março até outubro, alguns anos até novembro. Começa a dar uns Arrisca-Tudo maneiros em maio, junho, mas o clássico, pra mim, é a partir de julho. Pra mim a melhor época é o final da temporada, porque fica mais alinhado e, às vezes, rola uns Arrisca-Tudo até a Prainha, que é onde a onda termina. Isso dá uns 200-300m de onda, então dá pra dar umas manobras (risos). Sem contar os dias que rola tubo no Arrisca-Tudo, aí é alucinante.

Tem muitas outras ondas parecidas com o Backdoor, que não são divulgadas?

Cara, é uma situação complicada. Tem vários secrets bons na região cacaueira, nas redondezas de Ilhéus. Tem muitas direitas boas de reef, umas esquerdas também. Mas muito secret. Onde eu moro, que é 14 km ao sul de Ilhéus, é bem mais tranquilo, já é batido. A gente só tem duas ondas que são meio secret. Uma direita que, pra mim, é melhor que o Backdoor - tanto de manobras quanto tubos - e uma esquerda que fica a uns 15 minutos de remada pra fora, que é um slab maneiro pra esquerda. A gente tem vários diamantes ainda guardados.

A galera fala muito do localismo daí - que não deixam o pessoal de fora surfar, que não deixam filmar…

Cara, é e não do jeito que a galera fala. Na real, você pode chegar e surfar tranquilo. Mas tem ondas lá que em hipótese alguma você pode filmar, brother. Só que várias pessoas meio que não respeitaram isso no começo, aí deu muito problema - às vezes dá até hoje. O ideal é surfar em dois. Em três, os caras meio que vão dar uma olhada um pouco torta, mas ninguém vai fazer nada. De repente até dar aquela intimidada, mas não vão mandar você sair. Todo mundo tem a consciência de que o mar é pra surfar. Agora, o localismo é só na parte da filmagem. Ninguém quer que filme, sacou?

Divulgar as ondas não pode trazer mais apoio para o surf local? Ou você acha que a galera está mais preocupada em guardar os segredos?

Tem uma nova geração que precisa que pessoas influentes no surf cheguem ali, mas essas pessoas só vão chegar com essa história toda [do localismo] um pouco mais tranquila. O Brasil inteiro sabe que a região ali é meio tensa em relação a isso. As pessoas tem que chegar lá, mas tem que chegar sabendo, sacou? Os mais velhos não têm necessidade nenhuma de ter um patrocínio, apoio, nada, então não fazem questão nenhuma disso. Mas eles fazem questão que tenha turismo, porque eles têm pousada, ou os pais têm restaurante, padaria... Mas acho que as coisas estão mudando. No Backdoor mesmo, eu mal fazia filmagem, tá ligado? Tenho vários amigos que surfam lá e a gente não posta historinha direto, porque vai chamar o crowd. Mas cara, hoje em dia, tá foda.... as coisas estão aparecendo. Eu preciso divulgar meu trabalho e meus amigos estão entendendo isso. Mas tem algumas ondas que não precisam ser divulgadas. É um localismo, mas é um localismo sadio.

Você acha que isso está mudando?

Tem uma mudança no cenário do esporte e os locais também estão mudando. A galera da nova geração está mais preocupada em tentar fechar um patrocínio. Então é interessante que chegue gente de fora, mas que chegue sabendo. Muita gente sabe que tem localismo e às vezes, porra, tira o celular e começar a filmar. Aí os caras ficam muito putos. É uma situação delicadíssima.

Por quê você acha que a gente não vê tanto material sobre o surf da bahia, ou no nordeste em geral?

O que eu acho é assim: a gente vai pra Austrália, Califórnia e vê vários moleques quebrando, todo mundo com altas marcas no bico, irado. Se o moleque não virar nada, beleza. Mas pelo menos ele estava com um patrocínio mínimo e, se estiver indo bem, vai subindo. Aqui no Brasil não. Principalmente aqui no Nordeste, tem que quebrar muito, sempre ir bem nos campeonatos, para aí sim ser visto. Tem várias pessoas que não têm dinheiro para fazer isso no amador, então não vão ser vistas nunca. Precisa muito do incentivo. O esporte está crescendo muito e ninguém incentiva a parada. E aí galera, vai todo mundo ficar de braço cruzado esperando para ver quem realmente já é bom, ou vamos incentivar desde mais cedo?

[ML]