A ressaca pós-ressaca

 
 
 

 

Texto: Matias Lovro

Fotos: WSL

A WSL finalmente conseguiu fazer jus às músicas à la Senhor dos Anéis que compõem a transmissão do Big Wave Tour. Emplacou um evento de ondas grandes, de fato, épico. Memorável. Alguns diriam que inesquecível -- mas isso só saberemos no futuro, dada a velocidade da progressão do surf em ondas gigantes atualmente.

O quê? Jaws em outubro? Esse evento caiu de paraquedas no meio do outono do Hemisfério Norte. A janela de espera ia até 28 de fevereiro. Mar desses no North Shore de Maui geralmente se vê em janeiro, fevereiro -- dezembro, num ano bom. Abrir a janela no meio de outubro poderia ser puro desencargo de consciência. Mas 2017 veio para mostrar que não. Aliás, parabéns ao novo Big Wave Tour Comissioner, Mike “Snips” Parsons, por demonstrar o sangue frio necessário para apertar o botão de start do evento na segunda semana da janela, além de segurar as finais para o segundo dia do swell. Alguém deve ter passado algumas noites em claro.

 O Brasil foi muito bem representado por Lucas Chumbinho e Danilo Couto (na foto).

O Brasil foi muito bem representado por Lucas Chumbinho e Danilo Couto (na foto).

E, antes de qualquer coisa, um pequeno desvio de raciocínio: é a cara da “WSL Enterprises” usar Pe’ahi no nome do campeonato, ao invés de Jaws, como todo o resto do mundo. Ou só eu que pensei nisso?

Mas vamos lá. Voltando.

Uns 15, 20 anos atrás, o surf em ondas grandes poderia se resumir muito melhor numa competição de quem tem as maiores bolas (sim, bolas -- mas bolas figurativas, o que não as impede de pertencer a mulheres que dropam montanhas aquáticas). Quem tem bolas pra ser rebocado na maior bomba, basicamente. Dropar reto, ou fazer uma linha mais ou menos reta até a segurança do canal, ou até botar pra dentro de uns canudos casca-grossa em Teahupoo, que nem nosso amigo Laird fez quase duas décadas atrás. Quem sabe até arriscar umas rasgadas com os pés devidamente alçados na prancha? E olha que algumas McPessoas ainda estão nessa...

Hoje, a coisa já vai muito além -- principalmente quando o surf acontece num ambiente competitivo. Primeiramente, por ser na remada, o que já faz dos dois momentos completamente incomparáveis. Mas, para efeitos dramáticos, podemos seguir listando alguns fatores que diferenciaram os vencedores dos perdedores neste fim de semana, além do fator bolas. Posicionamento, naquele lineup enorme; leitura de onda; a escolha da linha certa; muita técnica, para navegar pelo chop de meio metrão; e estratégia de bateria, como Ian Walsh, que dropou reto para bloquear seus oponentes durante a final, mesmo sabendo que estava deep demais para fazer a onda.

Todos esses quesitos passam, em grande parte, por um só diferencial -- experiência. Tempo na água em Jaws, uma onda técnica, longa, cheia de moods diferentes, seções, além de ser extremamente exposta ao vento da capital mundial do kite. Para se dar bem, foi preciso esperar a onda certa da série certa. E, por isso mesmo, quem dominou o evento, no final das contas, foi Maui e sua prole. Ian Walsh, que levou o caneco; Billy Kemper, que por pouco não vence a terceira edição seguida do evento; e Paige Alms, que destruiu suas oponentes da mesma forma como fez no ano passado.

 A local Paige Alms mostrou sua dominância em Jaws e levou a segunda edição consecutiva do evento.

A local Paige Alms mostrou sua dominância em Jaws e levou a segunda edição consecutiva do evento.

Os brasileiros Lucas Chumbinho e Danilo Couto botaram pra baixo, passando muito bem pelo primeiro round. O carioca Chianca -- sobrenome oficial que a WSL insiste em usar -- vem se consolidando como um dos maiores nomes do big surf verde-e-amarelo. Atacou a quadrada direita de Jaws de backside portando um estilo agressivo, com direito a airdrop, rasgada (o que não se vê todo dia ali) e ollie saindo para o canal, conquistando a atenção da mídia gringa no processo. Nenhum dos dois foi para a final, mas representaram muito bem o Brasil. Andrea Moller e Pedro Calado também botaram pra baixo. O carioca liderou sua bateria do 1º round por algum tempo, mas a falta de um back up score impediu que ele avançasse.

Na sexta-feira, primeiro dia de competição, o mar estava maior, porém menos constante ou organizado. Vale relembrar a linha de Mark Healey, colocando pra dentro de uma caverna gigantesca de backside com comprometimento máximo. Por pouco não sai do que provavelmente seria a melhor onda de um goofy no pico.

 Mark Healey quase saiu do que seria a melhor onda de backside já surfada em Jaws. Dá pra discordar?

Mark Healey quase saiu do que seria a melhor onda de backside já surfada em Jaws. Dá pra discordar?

Chegando o sábado de manhã, o mar acertou e a mágica rolou. A segunda semifinal do Pe’ahi Challenge 2017 será lembrada por muito tempo. O típico mal-humor matinal havaiano passou e junto com ele se foram os bumps -- mantendo os tubos abertos para serem desafiados pelos meros seres humanos flutuando naquele lineup. Kai Lenny saiu do primeiro do dia, com o braço esticado para cima ainda a metros do lip. Não muito depois, foi superado pelo australiano Ryan Hipwood, que passou por detrás de uma longa cortina de 35 pés e saiu na baforada. Os juízes não seguraram a emoção. Nota dez.

Mas aí veio Ian Walsh… ah, a onda de Walsh. Será a melhor onda já surfada em Jaws? O melhor tubo, pelo menos? Ou só o mais deep? Certamente, ainda renderá ao havaiano mais alguns prêmios -- ele já está muito bem cotado para o Ride of the Year do Big Wave Awards. Esta direita faz o “tubinho” que rendeu a Billy Kemper o caneco de 2016 parecer um 6,5. Mas não será fácil superar a performance de Shane Dorian no freesurf em Jaws nos últimos anos. Vale a comparação -- enquanto o tubo de Dorian no ano passado foi gigantesco, Walsh ficou mais deep, passando algumas belas seções completamente sumido debaixo do lip. E olha que, por pouco mais de um ponto, Albee Layer não tira o lugar de Walsh na final -- mesmo depois dessa onda.

 Depois desse tubo de Ian Walsh, os juízes bem que queriam poder elevar a escala de notas até 12.

Depois desse tubo de Ian Walsh, os juízes bem que queriam poder elevar a escala de notas até 12.

Na final, o havaiano ainda tirou outro tubo gigantesco -- que cinco anos atrás seria celebrado -- mas que, depois daquela semi e daquele 10, só serviu para confirmar que o caneco era merecidamente seu.

Muitos picos desviam a atenção do mundo quando se trata de ondas grandes. Nazaré pode ficar maior; Puerto mais quadrado (e fechando); Mavericks mais tenebroso. Mas Hawaii sempre será Rei. E Jaws, a Rainha das Ondas Grandes. O campo de batalha para os momentos épicos. Uma onda perfeita, longa, enorme e extremamente difícil de surfar. Requer conhecimento, treino e experiência -- e, por isso mesmo, forma os melhores big riders do mundo. Quer uma prova? Veja o ranking do Big Wave Tour, cujas quatro primeiras posições estão ocupadas por havaianos.

Pode tocar a música do Senhor dos Anéis, WSL. Depois dessa etapa, a gente perdoa.

 

 

RESULTADOS:

 

Masculino

1 Ian Walsh (HAV)

2 Billy Kemper (HAV)

3 Makua Rothman (HAV)

4 Kai Lenny (HAV)

5 Greg Long (EUA)

6 Ryan Hipwood (AUS)

7 Danilo Couto (BRA)

9 Lucas Chumbinho (BRA)

13 Pedro Calado (BRA)

 

Feminino

1 Paige Alms (VAV)

2 Keala Kennelly (HAV)

3 Justine Dupont (FRA)

4 Bianca Valenti (EUA)

5 Andrea Moller (BRA)

6 Felicity Palmateer (AUS)

 

Ranking BWT 2017/18 após Puerto Escondido e Pe’ahi

1 Kai Lenny (HAV) – 19.042 pontos     

2 Billy Kemper (HAV) – 18.807    

3 Ian Walsh (HAV) – 15.625    

4 Makua Rothman (HAV) – 13.920     

5 Jamie Mitchell (AUS) – 10.647