CHLOÉ CALMON // Novata

 

Chegando agora aqui na MOIST! Fiquei muito feliz com o convite para ser colunista, é interessante poder compartilhar o meu olhar do mundo. Acredito que terei algumas histórias boas para contar…

Começo falando da minha recente viagem à Califórnia, onde tive a oportunidade de passar um mês treinando e competindo. A Califórnia é o berço da cultura longboard, com uma costa riquíssima de pointbreaks perfeitos e incontáveis opções de ondas. O mundo passou a conhecer a cultura de praia e de surf na costa oeste americana por volta da década de 50, quando o deslizar sobre as ondas começou a chamar a atenção do público e principalmente da indústria de cinema de Hollywood, como por exemplo no filme “Gidget” (1959). Todo surfista de longboard precisa ir à Califórnia para entender… tudo: os diferentes shapes de longboard, o por quê da prancha ser monoquilha ou triquilha, o “noseriding” - a arte de caminhar até o bico… e especialmente, o estilo (essa palavra será repetida algumas vezes nessa coluna).

 Estilo - uma palavra que você vai ler muito nessa coluna - é algo que Chloé tem de sobra. Foto Roxy

Estilo - uma palavra que você vai ler muito nessa coluna - é algo que Chloé tem de sobra. Foto Roxy

O longboard atualmente tem duas vertentes - o clássico e o progressivo. O clássico remete ao estilo tradicional do surf, com as manobras de bico (hang five e hang ten) e enfatizando o estilo, sempre com pranchas clássicas nos pés - as chamadas “logs”, que lembram as pranchas de antigamente. Com toda a evolução da indústria de pranchas, novos materiais e shapes foram criados, assim chegando à longboards peso-pena, e tornando tudo possível em cima de um pranchão hoje em dia. Onda grande, tubo, aéreo, batida, rasgada… Essa é a vertente progressiva. Por muitos anos o critério de julgamento no Circuito Mundial de longboard dividia o peso entre os dois: 50% clássico, 50% radical. Mas de uns anos para cá, o clássico tem sido bem mais enfatizado - e o estilo sendo um divisor de águas. Em outras palavras, não adianta vir dando batida na onda inteira que nem pranchinha (por maior a dificuldade que seja num longboard), se não tiver clássico e estilo, não passa bateria.

 Progressivo ou clássico - por que não um pouco dos dois? Foto WSL

Progressivo ou clássico - por que não um pouco dos dois? Foto WSL

Quando vou para a Califórnia, faço uma imersão na cultura clássica, só surfo de monoquilha e sem strap, e tento aprender de todos os lados - observando os outros surfistas, conversando com shapers, treinando nas ondas perfeitas para o pranchão. Isso me ajuda muito a polir o estilo e ter mais controle dos movimentos em cima da prancha. Aqui no Brasil, temos uma escola mais progressiva, até por conta das condições que temos aqui - ondas rápidas em fundo de areia. Então, como competidora, eu sou o estilo clássico em cima de uma prancha triquilha progressiva.

Desta vez, além dos estudos do longboard clássico, fui convidada para competir no Surf Relik Invitational, na icônica praia de Malibu, em Los Angeles. O evento unia as vertentes do longboard em duas categorias: Progressivo e Clássico (Logger), com a presença dos melhores atletas do mundo em suas categorias.

Quem já surfou em Malibu ou passou de carro por lá pela PCH (Pacific Coast Highway) sabe o stress que é surfar ali. Com certeza um dos piores crowds que já peguei na vida. Mas depois de pegar uma onda ali, é um sentimento mágico. É quase uma relação de amor e ódio. Mas crowd a parte, surfar em Malibu tem que estar na lista de vida de todo longboarder. Então quando fui convidada para uma competição lá, eu aceitei de olhos fechados e ainda sem acreditar: surfar Malibu com mais um na água??? É um sonho virando realidade!

 Chloé  e o clássico - e dificílimo - hang ten. Foto WSL

Chloé  e o clássico - e dificílimo - hang ten. Foto WSL

Foi uma missão me encaixar nesse evento. Digo missão pois Califórnia, pra mim, sempre foi tradicional e eu estava ali para uma competição progressiva. Sabia que o clássico ia ser muito bem valorizado, e várias competidoras eram de lá e conheciam a onda bem melhor do que eu - que tive meus treinos em meio ao crowd maluco. Nunca havia competido num pointbreak perfeito como Malibu. Mas, como missão dada é missão comprida, deixei esses pensamentos de lado e fui aproveitar a experiência de surfar Malibu sozinha. Pra mim, essa oportunidade é maior do que o resultado, pois é algo que vou lembrar daqui a 20 anos. Fomos presenteados com um swell de 6-8 pés de sul, nas condições perfeitas para Malibu. Nos dias anteriores à competição, foram os dias mais intensos de crowd que vi na minha vida - e olha que já fui para lá algumas vezes. Mas também um dos mares mais lindos que já vi…

Terminei com a 3ª colocação no evento. Claro que sempre busco a final, mas foi a primeira bateria que perdi e não fiquei chateada. Foi o meu “pior” resultado nos últimos 3 anos e o mar estava PERFEITO nas baterias. No final da minha, eu só queria pegar o máximo número de ondas possíveis para aproveitar o pico só com duas surfistas. O evento ficou marcado pelas condiçōes épicas e por ser o maior evento de longboard em Malibu nos últimos 10 anos, além de ter os melhores longboarders do mundo dando show de surf.

Digo que floresci nesse evento. Criei uma nova versão minha. Peguei um pouco de estilo daqui, inspiração dali e amor pelo o que eu faço todos os dias. O que mais me encanta no longboard é isso, a versatilidade. O fato de você poder ser alguém diferente na água todos os dias. Pode ser clássico, pode ser progressivo, vale até ir reto na parede sem fazer nada… basta deslizar. Quando eu começo a enjoar de um, eu mudo. E pronto. E é essa a magia do longboard, você poder florescer sua personalidade de maneiras que nem você imaginou antes.