RAFAEL MELLIN // Saudades de Hoje

 

Difícil alguém nunca ter ouvido numa conversa de surfista, aquele famoso: “Na nossa época é que era bom…”.

Um misto de desabafo e orgulho de ter vivido ‘dias melhores’. Um clássico, quase tão popular quanto “você devia ter visto como tava mais cedo…”.

Tenho grande curiosidade no debate sobre qual a melhor época para ter sido surfista - ou ser qualquer coisa - no mundo. E não importa pra quem eu pergunte, a resposta é invariavelmente a mesma: a ‘época de ouro’ se foi. Passou, já era. 

Alguns vão dizer que foram os saudosos anos 60. Outros que foram os românticos 70. Uma turma vai dizer que o melhor merrrmo foi o agito dos 80. Ou talvez a facilidade dos 90. E tem até uma molecada que diz já sentir falta do início dos 2000 - sabe-se lá porquê.

Nos 60, tudo era novo, inexplorado. Nos 70, não tinha crowd. Nos 80 era menos poluído. Nos 90 era mais barato. Antigamente - seja quão antigamente for - era tudo mais emocionante, mais bacana… melhor. 

Mas era mesmo? 

Seres humanos - isso inclui surfistas - tem a tendência de olhar para trás e sentir saudades de tudo aquilo que já passou, de um tempo que não volta mais. Faz parte da nossa natureza. E ao longo dos séculos, uma batelada de filósofos, poetas, músicos e gênios discorreram longamente sobre o tema. 

[Talvez um dos exemplos recentes mais divertidos seja ‘Meia Noite em Paris’, filminho simpático e encantador, típico do Woody Allen. Se ainda não viu, faça-se o favor]. 

Nos últimos quatro anos tive uma tremenda oportunidade de mergulhar fundo nesse assunto, produzindo o ‘70 e Tal’ e ‘80 e Tal’. Dois filmes e 26 episódios de uma série de TV dedicados a resgatar contos do surf e da cultura de praia no Brasil. Meses de pesquisa e cento e tantas horas de entrevistas preciosas relembrando, com saudosismo, o que aconteceu de mais bacana naquele tempo. 

Sempre na mosca, foi o Bocão quem melhor traduziu a sensação coletiva daquela turma. Quando perguntado do que tinha mais saudades da época, respondeu simples e direto: ‘De tudo’. Mas foi o cômico Wady Mansur quem resumiu da forma mais genial o ponto central da questão:  ‘Do que eu tenho mais saudade? Da nossa juventude…’.

Pronto, tá aí. Agora entendi. 

Não importa a época. A gente tem saudade mesmo, é de quando somos jovens. Tenha sido isso na década de 60, 70, ou 2000. Depois que fica pra trás, o que a gente mais sente falta é aquela tal fase dos 17, 18… 20 e poucos anos de idade. Aquele momento de descompromisso. Poucas, ou nenhuma, conta pra pagar. Energia e tempo de sobra. Ombro no lugar, remada em dia. Joelho tinindo, que aguenta qualquer junção sem reclamar. Cabelos fartos e um monte de olhares do sexo oposto. A vida toda pela frente. Bem, se você (também) já passou por essa fase, sobram duas notícias. Naturalmente, uma boa e uma ruim. 

A ruim é que o tempo de fato não volta atrás. Aquele cabelão e aquela quarta-feira de bobeira ficaram na memória. Já eram. (Pode chorar, a gente entende).  

Mas a boa notícia é que - salvo pela nossa juventude - existem trocentos motivos para crer que as décadas passadas não foram necessariamente uma época melhor para ser surfista no mundo. 

Pra quem duvida, vale recapitular. 

Sim, nos 50 e 60 era tudo uma aventura. Mas era também muito mais difícil. Tubo em pé? Esquece. Prancha de ‘quinhentas toneladas’ era o padrão e ir reto sem embicar já era uma vitória.

Nos 70, de fato tinha menos crowd. E muito menos informação também. Não tinha previsão que prestasse. Gastar uma grana preta pra ficar esperando quinze dias um maral interminável passar, era uma possibilidade real. 

Claro, os 80 eram super legais. Mas pelamor, que fase… O surf nunca foi tão esquisito e cheio de presepada. O foco era só competição e o bacana era treinar em onda ruim, pequena e mexida pra dar 4 encostadas até a areia. E ainda comemorar no final pra ganhar nota, do juiz ou dos amigos. Salvo pela meia dúzia composta por Curren, Picuruta, Occy e cia, os ídolos da época pegavam mais feio do que aquele seu amigo pangaré de hoje. E a gente imitava assim mesmo. 

Nos 90, de fato as coisas custavam menos do que hoje. Por outro lado, pra acompanhar uma etapa do Circuito Mundial, o sujeito tinha que esperar dois meses até sair as fotos na Fluir ou a cobertura do RIP no SporTv (obrigado Bocão e Antônio e Zattar). E que péssimo momento para os shapers e surfistas em geral. Graças ao desserviço prestado por Slater e Al Merrick, que (sem querer) convenceram o mundo que prancha de surf era pra ser daquele jeito. Encantado pelos tails slides da geração Momentum, o surfista-cidadão-médio passou uma década inteira afundando em cima de folhas de papel, que só funcionavam no pé do Kalani Robb, Tim Curran e Kelly (na fase com cabelo). Que pena dava ver um bróder de 90 quilos tentando remar em cima duma 6’1 x 17 3/4 x 2’.     

Ah, mas e hoje?!  E o crowd? E a poluição? E esse bando de SUP?!!

Sim, existem algumas coisas terríveis. Por outro lado, a quantidade de recursos disponíveis permite que um sujeito qualquer, como você e eu, aproveite experiências no surf que antes eram inatingíveis. Vivemos hoje a fase mais eclética, completa e divertida do surf. As ditaduras de comportamento caminham para a extinção. A ditadura do equipamento. Do estilo. Da performance. Do corte de cabelo. Do gênero. De tudo.  No surf hoje, tudo pode. E está disponível, de fácil acesso. Basta decidir do que gosta. 

Não existe mais tédio ou condição ruim. Com a infinidade de opções no quiver atual, é possível encarar qualquer parada. Tá mais gordinho? Uma fish swallow vai resolver. Vai encarar Kandui? Uma quad ajuda muito. Quer tentar imitar o Ítalo, ou o Rasta? Tem prancha pra tudo que é gosto e situação. De Alaia a Sci-Fi, só escolher. 

Não existe mais falta de preparo ou técnica. Quer aprender a ficar em pé? Tem soft top e escolinha logo ali. Quer se arriscar em onda grande? Colete inflável e curso de apneia. Swell com geada de inverno em Garopaba? Só catar um 4-3mm, mais quente e flexível que pele de foca. Curte tow-in? Manda ver (desde que não seja no meio do pessoal remando!). Basta correr atrás daquele amigo mais abastado com jetski.

Os limites físicos de performance e idade foram extrapolados. Em muito. A turma dos 40, 50 e 60 deixou claro que esse negócio de ficar velho é coisa de antigamente. Fia, Carroll, Curren e Bocão (de novo!) mostram diariamente que ainda temos muitos quilômetros de tubo pela frente (Yoga, Pilates e menos McDonald's com Coca-Cola ajudam muito. Obrigado.).   

E isso não vale só para os prós. Meus amigos cinquentões, surfistas de fim de semana, atacam o lip e dropam Sunset com uma desenvoltura que só os garotos de 20 conseguiam antigamente.  E para atual molecada de 20, nem o céu é o limite. Filipinho faz hoje, numa única onda, uma combinação de coisas assombrosas que há uns 10 ou 15 anos atrás só eram possíveis somando uma session de duas horas - para um cara que nem o Taj ou o Dane.  

O surf cresceu, floresceu e amadureceu. 

Machos peludos e ranzinzas não são mais a única presença na água e nas rodas-de-cerveja-sobre-surf. Meninas - lindas - deslizam com categoria, no pranchão ou na pranchinha. Stephanie e Chloé dão aula de estilo. Silvana, Carissa, Tyler e companhia fazem a sua mala. E a minha. 

O surf nunca foi tão bacana de assistir. Não importa o tipo e estilo que o sujeito aprecie, tem sempre uma dúzia de feras para inspirar e apontar o caminho.

O negócio é pranchão? Phil Rajzman mostra como se faz, de hang five à batida na lata. Curte a moda retrô? Asher Pacey e Alex Knost piram os hipsters e não-hipsters fazendo obscenidades em cima duma porta de caixão de 1967. E pra quem quiser andar no mesmo código de vestimenta, é possível encontrar camisas rasgadas e bonés do último grito por ‘meros’ 300 dólares numa lojinha da Deus perto de você. 

Viciado em competição? A melhor performance do mundo acontece semanalmente nas etapas do QS e CT, com uma baita cobertura da WSL. Transmissão em HD, com 10 câmeras. Super slowmotion. Ao vivo. No celular! Na fila de espera do vôo em Dubai!! Nem nos Jetsons sonhamos com tanta tecnologia…

Aliás, agradeça - e não xingue - a tecnologia. Sim, aquele grupo de WhatsApp e a câmera do SurfConnect podem ter levado um crowd pro ‘seu’ pico essa semana. Mas também te presentearam com uma dúzia de caídas na hora do almoço, quando graças ao alerta via mensagem você descobriu que o vento parou. Um viva para o Surfline, Surfguru, MagicSeaweed e cia. A previsão atual permite um bate-volta pro Peru de quatro dias certeiros que valem mais que um mês de surf em casa. 

Surftrips no século 21 são a maior moleza. O Google Earth nos brinda com Skeleton Bay e tubos que só eram possíveis em desenho animado. “Ah, mas tá o maior crowd…”. Sim, verdade. 

Então vai lá e faz que nem o Kepa Acero. Ou o Chris Burkhard. Ou o Mikala Jones. Tem uma bocado de gente mostrando que hoje, é possível curtir o inexplorado como nunca. Igualzinho ao Kevin Naughton e Craig Peterson faziam nos 70. Só que pegando muito melhor. E registrando tudo de GoPro.  

Pra quem tá longe do mar, piscinas de onda. Pode desconfiar o quanto quiser, mas o troço funciona. E é divertido de verdade.Wave Garden, Wadi, Flowrider e, claro, Surf Ranch. Todo frenesi gerado recentemente é justificado. Slater inventou o melhor brinquedo de todos os tempos. E provavelmente, a salvação para o crowd no futuro. Ou não…

E para quem não se contenta em só pegar onda, hoje também é possível transformar o vício em profissão. Passar o dia falando e pensando em surf, e ganhar algum dinheiro com isso, não é mais um devaneio insano, como nos 70 ou 80. O surf tem sua própria indústria multimilionária, espalhada pelo planeta inteiro. E apesar de só alguns poucos sortudos e talentosos desfrutarem de riqueza financeira nesse meio, hoje já é possível pagar as contas atuando num monte de áreas diferentes do surf. Seja design, confecção, tecnologia ou comunicação… (boa sorte).  

Seja como for, a lista atual de coisas que transformam o surf em diversão é interminável. Os dias de hoje são - no mínimo - incrivelmente interessantes para um surfista. Talvez nem melhor, nem pior que antes. Mas diferente. E certamente mais rico em experiências. 

O que vale é testar e experimentar. Atrás da mesma sensação besta que buscamos desde os polinésios. Deslizar em cima de uma prancha qualquer por alguns poucos segundos, até aparecer um sorriso involuntário no rosto. O surf atual é um universo quase infinito de possibilidades. E o melhor que a gente faz é aproveitar. 

Porque no futuro, o presente vai virar passado. E também vai deixar saudades.