O Grande Paradoxo – Parte 1: O Surf Profissional

 

Por João Valente

Nunca o surf foi tão grande. E nunca teve tanta visibilidade. E nunca foi tão desejável e desejado. E nunca valeu tanto. E nunca o seu futuro pareceu tão nebuloso. Ou, no mínimo, tão incerto.

 Jordy Smith em Margs esse ano - será essa uma das etapas canceladas em 2018 pelas "reduções" no Tour?

Jordy Smith em Margs esse ano - será essa uma das etapas canceladas em 2018 pelas "reduções" no Tour?

Não é necessário o peso de uma cavada do Jordy Smith para se perceber que nem tudo vai bem no grande circo das pranchas e ondas.  Mesmo a leveza de um pirralho que ainda não aprendeu a usar as bordas é suficiente para arranhar a superfície da realidade e nos darmos conta de que tudo o que contribuiu para o presente estado da ‘Nação do Calção’ parece ruir como um castelo de areia sob as ondas da maré cheia. Numa palavra: o surf hoje em dia é um Grande Paradoxo. Assim mesmo, com toda a petulância das iniciais maiúsculas.

O Grande Paradoxo está presente em praticamente todos os setores dessa atividade, que ainda hoje hesita entre as definições de esporte, arte, estilo de vida ou ocupação de desocupados. Na minha estreia como colunista da MOIST, analisarei cada um dos pequenos paradoxos que formam o Grande Paradoxo: da indústria ao turismo, da competição ao ambientalismo, do ativismo social à cultura.

Comecemos por um que nos motiva a todos, ou quase todos, ou, pelo menos, aqueles que gostam de acompanhar o que fazem os melhores surfistas do mundo nas melhores ondas que o planeta tem para oferecer ao longo das pouco mais de 11 semanas que formam uma temporada do World Tour: o Paradoxo Competitivo.

Escondido por detrás da maior plataforma de promoção que o surf profissional já dispôs, apoiada por uma entidade com elementos Orwellianos. de absoluto controle sobre os seus membros e de onde só saem as respostas que lhes interessa dar e nunca as que gostávamos de perguntar, a estrutura do surf profissional de topo, vulgar e formalmente conhecida como WSL, está hoje apoiada quase em exclusivo na incalculável — ou, melhor dizendo, inconcebível para nós, titulares de contas bancárias mortais — fortuna de Dirk Ziff, o mecenas providencial que o já ausente Paul Speaker atraiu quando a indústria do surf já agonizava debaixo de buracos financeiros maiores que os egos dos seus criadores.

 Dirk Ziff, à direita, com a nata e cartolas do surf mundial.

Dirk Ziff, à direita, com a nata e cartolas do surf mundial.

O negócio da Samsung, segundo fontes mais bem informadas, já não era lá essas coisas, caindo ao fim de poucas temporadas. Em substituição da tech giant coreana veio quem mesmo? Corona? AirBnB? Monster? Jeep? Visa? Uma das ancestrais patrocinadoras do circuito ASP que, a braços com enormes reestruturações financeiras, tem mais com que se preocupar?

A resposta é negativa em todos os casos. Basta atentar ao tempo de exposição publicitária ocupado por cada uma das marcas no site da WSL, à profusão de repetições dos inócuos anúncios ao merchandising das camisetas em modo Great American Sports, à presença do Google Adsense em boa parte do ano, e mesmo os mais desatentos irão perceber que quem está pagando a dolorosa não serão, com certeza, as marcas mencionadas.

E por que o surf profissional de topo, cujas estatísticas — produzidas e divulgadas pela própria WSL, sem direito a contraditório jornalístico, recordemo-nos — dão conta de um following digital na ordem das dezenas de milhões (em 2015, os press-releases pós-Margaret River falaram em 1,6 bilhões, assim mesmo, sem engasgar nenhuma dedada no teclado), não consegue cativar o interesse de um canal televisivo com relevo suficiente para captar os milhões (que é outra forma de pronunciar “interesse”) dos grandes patrocinadores?

A culpa não será com certeza da WSL, herdeira de um modelo competitivo que durante anos falhou esse mesmo propósito. Que Ziff e seus correligionários não tenham tido, logo de início, o objetivo de alterar o modelo herdado, dirá mais da sua predisposição diplomática frente aos poderes então estabelecidos — incluindo os próprios surfistas —  do que de uma visão pragmática sobre a comercialização do surf na grande arena do esporte internacional.

Apesar de um sério problema de relações públicas, principalmente junto à surf media, ostracizados desde a primeira hora, vá-se lá entender por quê — Paul Speaker (a irresistível ironia do nome!) esteve no posto de comando durante quatro anos e, que me recorde, nunca deu uma entrevista de fundo a um mídia de surf não alinhada — a real é que a WSL fez um trabalho sem precedentes no surf profissional, criando o mais fantástico (e bem pago!) World Tour da história, embora às custas de um gigantesco falhanço financeiro. Mas é esse o papel dos investidores, certo? Pelo menos a primeira parte dele. Falta a segunda parte: o retorno do investimento.

O recente anúncio de Sophie Goldschmidt como nova CEO da WSL, uma executiva corporativa vinda direitinho da arena dos American Great Sports, foi uma oportunidade para deixar escapar algumas intenções: reduzir o número de eventos, reduzir o número de surfistas, reduzir o tempo de espera. Reduzir, reduzir, reduzir. Eis o paradoxo, novamente. Como disse uma fonte citada pelo australiano Nick Carroll na sua excelente série de artigos sobre World Tour no Coastalwatch.com, “Acho que podemos esperar grandes reduções no Tour do próximo ano”, disse. “É curioso, porque o surf está crescendo, mas o surf profissional irá provavelmente encolher.”

Visto daqui, desde o outro lado do Atlântico, tem muita coisa errada no World Tour. E muito devemos agradecer à própria WSL que, nas suas boas intenções para com o esporte (e, não esquecer nunca, para com o dinheiro do seu investidor), tornou isso bem claro ao longo das consecutivas falhas em concretizar os planos inicialmente delineados e, agora sabemos, ingenuamente otimistas.

O surf não atinge os números desejados e promovidos pelos seus agentes. O surf como esporte prega somente aos convertidos, não conseguindo captar novas audiências substanciais, nem sequer entre surfistas, quanto mais junto ao grande público leigo. O surf baseia-se num sistema de pontuações obsoleto, aplicado basicamente desde o nascimento das competições, sofrendo ajustes mínimos sem nunca mexer no essencial. Os campeonatos de surf, salvo raras exceções, não são um espetáculo capaz de engajar o público e, muito menos, de atrair o interesse de um canal de televisão em formato ao vivo — que canal quer comprar um produto sem data certa para acontecer e que ocupa dias inteiros de emissão, podendo ser cancelado a qualquer momento? O surf de competição é absolutamente incompreensível para um não-iniciado, a despeito do paternalista discurso de Pottz, Turpel, Blakey e companhia durante as transmissões das provas.

 Mesmo a performance brutal de Filipe Toledo não conseguiu atrair grande público em J-Bay.

Mesmo a performance brutal de Filipe Toledo não conseguiu atrair grande público em J-Bay.

As Olimpíadas de Tóquio serão talvez a maior oportunidade que o surf já teve para mexer nas suas estruturas de forma decisiva, para contornar os problemas acima enunciados. O shift ou, se preferirem, a convergência de poderes entre a ISA e a WSL pode e deve ser usada a favor disso. O formato das provas e o modelo de julgamento prevalecente há mais de 40 anos precisa ser modificado drasticamente. Continuar a discutir a justiça das notas dos surfistas me soa hoje tão anacrônico quanto debater os sistemas de governação num mundo de economia corporativa e globalizada segundo modelos de esquerda e direita. O jogo mudou, minha gente, o papo agora é outro.

A questão das ondas artificiais, mesmo longe de resolver todos os desafios — e até mais perto de criar alguns novos — é um caminho a ser explorado, principalmente na ótica do plano de fomentação do surf nos mercados emergentes da Ásia, onde o esporte dos reis havaianos ainda poderá ser vendido com a conversa de exotismo e aventura que já não encanta ninguém no mundo convertido. Quem sabe, poderá até residir aí a salvação para um modelo de surf-competição profissional rentável e sustentável para os seus agentes e sedutor para os fãs.

E as consequências disso para o surfista comum? Bom, isso já é outro assunto, já é outro paradoxo...